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Especial Dia do Cirurgião Plástico: veja dados da especialidade

Panorama Cirurgia Plástica

O Brasil vem demonstrado altas taxas de longevidade nos últimos anos, em comparação com as de natalidade. A partir disso, criou-se um novo comportamento: todos querem viver muito, mas não querem parecer que envelheceram. Nesse contexto, a realização de cirurgias plásticas surge como uma solução para insatisfações estéticas. Nesse cenário, o Brasil ultrapassou recentemente os Estados Unidos e se tornou o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo, o que demonstra a importância da especialidade. Além disso, um estudo realizado em 2018 pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) mostra que, em comparação a 2016, o número de pacientes em cirurgias estéticas cresceu 25,2%. Veja a seguir o panorama geral sobre a Cirurgia Plástica no país.

Assista a um vídeo exclusivo com o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Dênis Calazans, fazendo um balanço da especialidade. Clique aqui.

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Sob Pressão: o que a série ensina para a carreira médica

Sucesso como livro, filme e série, Sob Pressão conquistou seu lugar na teledramaturgia brasileira e alcançou um público cada vez maior a cada episódio veiculado. A obra, escrita inicialmente como um livro pelo cirurgião torácico Marcio Maranhão e adaptada para TV pela produtora Conspiração Filmes, surgiu por meio do sentimento de indignação perante a realidade angustiante enfrentada na emergência de um hospital público na baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Sucesso inegável nas telas, Sob Pressão também traz grandes ensinamentos à carreira médica.

Na série, Drª. Carolina, representada pela atriz Marjorie Estiano, e Dr. Evandro, representado pelo ator Júlio Andrade, enfrentam as dificuldades e os conflitos da rotina em um ambiente hospitalar caótico. Em uma entrevista exclusiva com Márcio Maranhão – criador da obra e, atualmente, consultor em sua versão televisiva – ao Universo DOC, ele revelou que a criação das histórias busca, sobretudo, retratar as deficiências e a força do sistema público de saúde no intuito de sempre destacá-las.

Dessa maneira, de acordo com o profissional, há a promoção de reflexões e transformações. “Algumas vezes, os problemas apresentados são tão absurdos que a realidade rivaliza com a ficção. Tornar crível situações impensáveis é desafiador. Outro grande desafio é retratar, de forma justa, o tamanho e a importância dos diversos profissionais de saúde que compõem a força de trabalho do SUS”, expõe.

 

Principais ensinamentos

Maranhão destaca que a principal função da série é entreter, mas que ela também comunica a importância da saúde pública por meio de outra linguagem, por outras vias de percepção. “O SUS é fundamental na formação de jovens médicos que trabalham nos serviços hospitalares, na atenção primária, nas linhas de pesquisa, na produção de conhecimento. E, também, como pilar estruturante da sociedade brasileira”, acrescenta.

Segundo o médico, ocupar espaços nos cadernos de cultura dos veículos de comunicação com uma obra que aborda o SUS (https://www.universodoc.com.br/2020/05/11/profissionais-de-saude-contam-com-suporte-psiquiatrico-no-sus/) e seus problemas é um importante desdobramento e não deixa de ser um ensinamento. “Acredito no poder transformador da arte e na mudança de percepções. O comportamento da doutora Carolina e do doutor Evandro reflete o comprometimento que todo profissional de saúde e cidadão deveria ter com o SUS. Antes de sermos médicos e/ou pacientes, sejamos cidadãos brasileiros plenos, cientes dos seus direitos e deveres”, destaca.

Além disso, ele afirma que o livro e a série têm impactado os profissionais da Saúde, pois tem recebido muitos convites para conversar com formandos de Medicina. “Eles se sentem motivados a trabalhar em emergências, com um brilho nos olhos que já tinha se perdido”, evidencia. O médico acrescenta que, nessas conversas, percebe uma indignação muito grande com as questões retratadas na série, mas muitos sentem-se tocados quando a dramaturgia gera reflexões muito importantes, esquecidas ao longo dos anos.

De acordo com Maranhão, é preciso resgatar questões que são do cidadão. “Defender o SUS é um ato de cidadania, e, como médicos e formandos, também temos uma função de transformação social e de educação”, afirma.

 

Sob Pressão e Covid-19

Recentemente, a série retratou o atual cenário vivenciado pela pandemia de Covid-19 (https://www.universodoc.com.br/2020/07/26/covid-19-estrategias-para-os-desafios-atuais/). Alguns episódios marcantes revelaram, por meio da teledramaturgia, os desafios enfrentados neste período. De acordo com Maranhão, esses episódios mostram aos profissionais da Saúde que todos estão no mesmo barco. “A manifestação da doença se dá individualmente, mas a proteção do outro se dá por ações coletivas. Quem banaliza a morte não valoriza a vida. É fundamental confiar na ciência e defender o direito à vida. Isso não é privilégio exclusivo dos profissionais de saúde. Saúde, educação e cidadania andam juntas”, alerta.

 

Críticas e elogios

Em sua entrevista, Marcio revelou já ter recebido críticas positivas e negativas sobre Sob Pressão. Segundo o médico, todas elas são bem-vindas e analisadas, pois são legítimas e contribuem para o aperfeiçoamento do trabalho e do poder de contribuição que a série pode ter na Saúde. Apesar de as críticas serem bem aceitas, Maranhão também deu sua opinião em relação ao assunto:

“Nós, médicos, devemos olhar a série como um esforço nosso de ter uma obra de entretenimento, mas com desdobramentos que nos dão muito orgulho. Quando temos repercussões tão positivas na Saúde, ficamos muito felizes. Precisamos entender que, para se contar uma história, necessitamos de licenças poéticas, e essas licenças propiciam uma reflexão para que seja possível tocar o público. A realidade já é tão dura, então vamos usar a licença poética a favor do assunto maior que é a Saúde Pública. É isso que nos motiva a trabalhar nessa obra”.

 

Para mais detalhes sobre a produção, acesse a entrevista: https://www.universodoc.com.br/videos/nos-bastidores-de-sob-pressao/

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Especial Semana do Médico – Drauzio Varella

drauzio varella

“O pior dos infernos está reservado para aqueles que, em momentos de crise, se omitem”. Essa frase, adaptada da obra A divina comédia, do poeta italiano Dante Alighieri, foi o pontapé inicial da vida pública de Drauzio Varella. Em 1985, quando participou de um congresso sobre Aids, na Suécia, se deparou com a citação, apresentada pelo coordenador do Programa de Aids da Organização Mundial da Saúde (OMS), no encerramento de sua palestra. A partir daí, percebeu que precisava fazer algo para disseminar informações sobre uma doença pouco conhecida por todos. Escreveu um artigo para o jornal O Estado de São Paulo, superou o próprio preconceito para estar na mídia e, desde então, não saiu mais.

Hoje, com 47 anos de profissão, o médico é popularmente conhecido em todos os cantos do país pelas ações que realiza através da televisão para promover a saúde e a educação do paciente. Tendo que se dividir entre a clínica médica, o hospital, a televisão e a penitenciária, o profissional se considera privilegiado por ter a oportunidade de fazer apenas coisas que lhe dão prazer. Drauzio diz não se arrepender de nenhuma escolha tomada na vida e que seu único plano é continuar fazendo o que faz hoje, cada vez melhor.

A escolha pela Medicina

De acordo com Drauzio, não há como lembrar em que momento a Medicina apareceu, mas segundo seu pai, desde menino, quando perguntado sobre o que gostaria de ser quando crescesse, a resposta já vinha na ponta da língua: “médico”. Aprovado em segundo lugar no vestibular de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Drauzio afirma que nunca passou pela cabeça ser outra coisa, nem que pudesse em algum momento de sua vida deixar de ser médico.

Convicção pela profissão Drauzio  tinha – e muita. Entretanto, dentro da Medicina, ainda se sentia um pouco perdido sobre a especialidade pela qual optaria. “Quando me formei, fiz um ano de residência em saúde pública, mas estava achando o curso muito teórico. Eu queria trabalhar, sair de São Paulo para conhecer outros lugares. A carreira de sanitarista estava sendo legalizada no estado e o salário ainda era pouco. Não havia condições de sobrevivência”, conta.

Foi em uma conversa com o professor Vicente Amato Neto que conheceu sua paixão. O professor de Doenças Infecciosas o convidou para trabalhar com sua equipe. Drauzio aceitou a proposta e foi fazer um estágio no Hospital do Servidor Público, em São Paulo. Lá, aprendeu Imunologia e se aprofundou em doenças infecciosas. “Naquela época, no começo da década de 1970, a Imunologia estava ensaiando os primeiros passos. Com a minha experiência no assunto, fui convidado por um colega a dar uma aula no Hospital do Câncer. Quando terminei, me pediram para auxiliá-los, pois as pessoas não entendiam nada de Imunologia. Aceitei a proposta, mas disse que poderia ir uma vez por semana, como voluntário. Acabei me apaixonando pela Oncologia”, declara.

Pioneiro no tratamento da Aids

Os primeiros casos de Aids no Brasil apareceram na década de 1980. Sem muita informação, e com os primeiros casos detectados na população homossexual, a doença logo foi tratada como “peste gay”. Por curiosidade, Drauzio começou a ler revistas em que eram relatados os primeiros casos de Aids nos Estados Unidos. Era uma doença nova que tinha as características que o médico mais se interessava em estudar: um agente viral – até então desconhecido –, déficit imunológico e câncer.

Para saber mais sobre a patologia, em 1983, Drauzio viajou para Nova Iorque, lugar considerado o epicentro da epidemia americana, onde fez um estágio no Memorial Hospital, uma das maiores instituições de saúde no tratamento do câncer nos Estados Unidos. Trabalhando na área de Imunologia, e estudando principalmente o sarcoma de Kaposi, um tipo de câncer raro do tecido conjuntivo que com frequência é associado à Aids, o médico pôde conhecer mais intensamente a doença.

“Quando voltei para o Brasil, tinha a ideia clara de que uma tragédia estava prestes a acontecer. Sabia que a patologia chegaria ao nosso país e, embora fosse tratada como exclusividade homossexual, não há doença sexualmente transmissível que poupe um dos sexos. Não seria essa a primeira. Como eu era o único oncologista que sabia tratar o sarcoma de Kaposi, os outros não tinham essa experiência, comecei a receber todos os casos da doença e acabei envolvido totalmente pelo problema”, explica.

A chegada aos presídios

A penitenciária é um lugar pouco conhecido por grande parte da população, que só recebe informações por meio do que a mídia publica. Talvez esse seja um dos motivos responsáveis por gerar uma enorme curiosidade e simpatia por filmes de prisão. Com Drauzio Varella, não foi diferente: o médico relembra que sempre se interessou por esse gênero. Até hoje, quando descobre que está passando um filme desses no cinema, profissional tira alguns minutos de seu tempo para assistir.

Entretanto, sua história com as penitenciárias começou por uma casualidade do destino. Procurado pela empresária Maria Odete Brandalise para fazer um vídeo informativo sobre a Aids, Drauzio aceitou a proposta, mas com a condição de que pudesse mostrar como o vírus estava se disseminando pela cidade. Sua ideia era colocar no vídeo o que estava acontecendo com os travestis que fazem ponto nas ruas, com as meninas de programa e com as pessoas em geral. E o presídio era um ponto forte para o médico, porque lá estavam os usuários de droga injetável. Com uma autorização em mãos, Drauzio conseguir gravar no local.

“Quando sai de lá, passei duas semanas só pensando na cadeia. E, se era uma coisa tão forte pra mim, precisava chegar mais perto. Decidi falar com o diretor. Ele me disse que não adiantaria, pois as pessoas que injetavam não parariam, pois não tinham nada a perder. Contestei: disse que eles tinham a vida para perder. E o pior de tudo é que os presos recebiam visitas íntimas na penitenciária. Essas meninas contraíam o vírus e levavam embora sem nenhuma orientação. Era uma irresponsabilidade”, relata.

Com esse discurso, Drauzio conseguiu tocar o diretor da Casa de Detenção do Carandiru. Sua intenção era testar os presos que recebiam visitas íntimas para saber qual era a prevalência do vírus entre eles e, a partir daí, apresentar uma proposta para o Estado sobre o que poderia ser feito. Só havia um problema: o diretor deu a autorização, mas o médico não tinha nenhuma estrutura para realizar os testes. Eram 1.492 presos que recebiam visitas íntimas e precisariam ser testados.

“Corri atrás e consegui doações para realizar os testes. Escolhi alguns presos que tinham sido usuários de droga injetável e perguntei se sabiam pegar veias. Eles aceitaram e colhemos o sangue dos 1.492 presos. Destes, 17,3% estavam infectados. Levei essas amostras para o laboratório de Retrovirologia da Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, para estudo”, conta.

Mas o médico queria mais. Para ele, era necessário fazer um programa educativo. “Acertei com o diretor e decidimos usar o cinema que estava abandonado após uma rebelião para fazer a palestra. Consegui com a Universidade Paulista (Unip) alguns equipamentos, como telão, som, microfone etc. Eu fazia a palestra, mostrava alguns vídeos e depois andava entre eles respondendo perguntas. Isso foi feito por mais de dez anos na detenção, toda sexta-feira”, recorda. O trabalho gerou uma conquista: “Acho que a coisa mais interessante que conseguimos na cadeia foi acabar com a droga injetável. Ninguém mais injetava. Substituíram pelo crack, mas, pelo menos, ninguém injetava”, afirma.

De 1989 até 2002, ano em que o Carandiru foi desativado, Drauzio prestava serviços no local como médico voluntário, o que lhe rendeu o best-seller Estação Carandiru, livro premiado narrando sua experiência no local e que depois ganhou as telas do cinema. Hoje, todas as segundas-feiras, o médico realiza o mesmo trabalho na Penitenciária Feminina do Estado de São Paulo.

O médico na mídia

Quem vê Drauzio Varella aos domingos, em seus quadros que são recordes de audiência no Fantástico, falando com total desenvoltura frente às câmeras, não imagina o que o médico precisou driblar para estar ali: o próprio preconceito. Para ele, médico sério não fazia esse tipo de coisa. “Em 1985, quando assisti a um congresso sobre Aids, na Suécia, me deparei com a frase: ‘O pior dos infernos está reservado para aqueles que, em momentos de crise, se omitem’, do poeta Dante Alighieri. Fiquei com aquilo na cabeça e, quando voltei para São Paulo, decidi escrever um artigo para o jornal explicando o que era a doença, que naquele tempo era conhecida como ‘peste gay’. As pessoas achavam que só quem era gay pegava. Se você não fosse, não precisaria se preocupar. Meu artigo foi publico em uma edição de domingo, uma página inteira no final do primeiro caderno, com chamada na capa e tudo mais”, conta.

Para Drauzio, o problema estava resolvido, mas para a imprensa, era só o começo. Desde então, todas as vezes que os jornalistas precisavam de alguém para falar sobre Aids, o médico era o escolhido. Ele aceitava explicar, mas com uma
condição: que não fossem vinculadas a ele as reportagens. Sua consultoria para os repórteres era sempre em off. Em 1986, o jornalista Fernando Vieira de Melo, da Jovem Pan, seu amigo pessoal, fez um convite: que ele desse uma entrevista na rádio sobre a Aids.

“Aceitei o convite do Fernando e dei uma entrevista longa para a repórter Maria Elisa. Dois meses depois, encontrei com um amigo na rua que disse ter me ouvido no dia anterior na Jovem Pan. Achei estranho e questionei, pois havia dado a entrevista há bastante tempo. Ele garantiu ter ouvido uma entrevista minha, bem curta, para essa nesta rádio. Fui rapidamente procurar o Fernando, que me explicou que havia separado a entrevista em pequenos fragmentos e estava rodando na programação aos poucos. Falei que ele não podia fazer uma coisa dessas sem me perguntar. Ele respondeu que, se tivesse pedido, eu não teria aceitado”, narra.

E não teria aceitado mesmo, afirma Drauzio. “Médico sério não fazia esse tipo de coisa. Mas Fernando disse que achava totalmente o contrário: um médico sério, nessa hora, podia fazer a diferença. E ainda sugeriu que eu deveria fazer mensagens assim, curtas e diretas. Eu aceitei escrever, mas não as leria no ar. Ele rapidamente contestou: disse que eu deveria ler e ainda dizer ‘aqui é o Drauzio Varella’. Neguei, falando que não faria de jeito nenhum. Seria o fim da minha carreira. Me formei na USP, não tinha cabimento. Só que fiquei com essa coisa na cabeça. Depois de uns dias, resolvi aceitar. O pessoal criticava muito na época. Havia muita oposição. Mas eu recebia muito retorno das ruas”, explica.

Quando perguntado sobre a importância desses veículos de comunicação para a promoção da saúde e educação do paciente, Drauzio é categórico. “Existe a ideia que a televisão não faça esse tipo de programa porque não tem interesse. Com a experiência que tenho nesse veículo, digo que não é verdade. O desejo de todo jornalista é transmitir uma informação de qualidade que tenha audiência. O problema é que não é fácil fazer isso sem que fique insuportável. Por exemplo: você dá espaço para um médico na TV ou na rádio, e ele fala com aquela linguagem cifrada que ninguém entende. A audiência cai e o emprego de todo mundo fica ameaçado. Você precisa encontrar uma forma de levar a informação sem provocar essa queda na audiência. Assim funciona”, esclarece.

Quase sempre responsável pelos picos de audiência no Fantástico, Drauzio ficou conhecido popularmente no programa por seu jeito especial de levar a informação. O médico encontrou uma forma de passar orientações para o público leigo sem perder o foco científico. “Fui professor de cursos pré-vestibular por muito tempo. Acho que esses anos todos me deram um treinamento muito grande nessa área. O Objetivo chegou a ter 25 turmas de Medicina, de 400 alunos cada. Eram 10 mil alunos e eu dava a mesma aula 25 vezes por semana. E aí você acaba desenvolvendo um jeito de explicar. Testa para ver o que dá certo e o que dá errado. E quando comecei a trabalhar na televisão, já tinha isso com muita clareza. O desafio da televisão é você falar com as pessoas mais simples, de um modo que elas entendam, com uma linguagem clara, mas que não ofenda quem tem mais cultura, com uma informação em um nível de escolaridade melhor. É um desafio. Não digo que eu saiba fazer, mas sinto que à medida que o tempo passa, vou ficando melhor”, declara.

Na Globo, Drauzio participou de vários quadros para a promoção da saúde, abordando o corpo humano, os primeiros socorros, o combate ao tabagismo, a gravidez, o câncer de mama, o transplante de órgãos e o controle de peso. “Acho que a coisa que eu mais me orgulho de ter feito foi o combate ao fumo. Fiz duas séries na televisão e a Globo tem um alcance enorme. Encontro na rua com pessoas de todos os tipos, de diferentes classes, que me dizem terem parado de fumar assistindo ao meu quadro. Elas dizem que, quando mostrei aquele pulmão na TV, pararam naquele dia mesmo. Não temos estatísticas exatas, mas são centenas de milhares de pessoas atingidas, com certeza. Não só por mim, lógico, mas por muitos médicos que falam, discutem e divulgam o assunto. Com isso, conseguimos essa virada no Brasil. Hoje, acima dos 15 anos, o percentual de fumantes no Brasil é menor do que nos Estados Unidos. E, na Europa, todos os países ‘fumam’ mais que o Brasil, com exceção apenas da Suécia”, afirma.

Educação do paciente como item fundamental

Envolvimento e explicação: essas são as chaves, segundo Drauzio Varella, para conseguir resultados de sucesso com seus pacientes. De acordo com o médico, não há uma norma única para lidar com os doentes. As pessoas e as condições físicas são diferentes; as patologias são distintas. “Se você encontra uma pessoa de 35 anos com câncer de mama é um tipo de problema, de impacto na vida pessoal e profissional. Se você pega uma senhora de 80 anos que teve um câncer de intestino, é outra história. Não existe uma regra clara. Acho que na Medicina de modo geral, mas na Oncologia, em particular, é preciso ter empatia, é necessário se colocar no lugar do outro”, defende.

Para Drauzio, alguns médicos, principalmente nos Estados Unidos, estão preocupados demais com a parte técnica e deixam de lado o emocional. “Você está focado na parte técnica, mas precisa fazer um esforço para pensar em como reagiria se estivesse naquele lugar. Como seria se aquilo estivesse acontecendo com uma pessoa querida para você, como sua irmã, sua filha ou seu pai, por exemplo. Acho que isso é absolutamente fundamental. Não acredito em Medicina bem feita sem envolvimento. Vejo isso nos Estados Unidos com muita frequência: grandes médicos que publicam, escrevem na literatura, pessoas de alto conhecimento, mas que são péssimos médicos, porque criam uma barreira com o doente, um distanciamento”, explica. Para auxiliar na educação do paciente e aumentar a adesão ao tratamento, Drauzio é enfático: “É preciso explicar”. De acordo com ele, o médico precisa dar ao indivíduo uma ideia clara do que ele tem. A melhor maneira para isso é explicar de forma didática, como se estivesse realmente ensinando. “Em geral, os médicos se defendem com uma linguagem que é inacessível para a população. A preocupação dele não é ensinar o outro, e sim dizer que se deve fazer daquela maneira porque ele acredita nisso. Se o paciente não entende direito, a comunicação fica falha. Por exemplo: vou medir a pressão de um doente aqui e dá 16 por 10. Eu digo que ele está com pressão alta e ele retruca dizendo que toma remédio para isso. Quando vou saber a história, trata-se de um medicamento usado há muitos anos. Pergunto se ele controla a pressão e ele nega. O doente acha que, tomando o remédio, a pressão estará controlada. Não foi explicado para ele que eu dou esse medicamento para 100 pessoas e dessas 70 responderão ao tratamento e 30 não. E que nesses casos negativos, precisamos mudar o esquema e ele precisa voltar ao médico periodicamente. Essa conversa pode levar três minutos. São três minutos que podem simplificar uma vida depois. Se você não dá para a pessoa uma noção do que ela tem, ela não aprenderá isso na internet”, alerta.

Para Drauzio, o médico precisa ser um professor, pois detém um conhecimento inacessível àqueles que não fizeram Medicina. “A função da Medicina é o médico explicar quais são as opções. Antigamente, você chegava em um consultório com dor de garganta e os médicos lhe receitavam determinado medicamento. Você não podia nem  perguntar por medo. Isso é uma visão equivocada da Medicina. Essa não é a função do médico”, analisa.

Quando questionado sobre uma situação, em seus 47 anos de carreira, que o deixa orgulhoso, Drauzio fica pensativo. “É muito difícil dizer isso. Eu admiro muito os médicos prepotentes. A Medicina é uma lição de humildade permanente. Às vezes você está se achando o máximo porque resolveu um caso lindamente. Passou na mão de dez pessoas e ninguém percebeu o que você viu, e o doente ficou ótimo. De repente vem outro igual àquele, você age exatamente da mesma forma e dá tudo errado. E isso lhe dá uma lição de humildade. Por isso, acho que esses caras prepotentes devem ter um ego superior ao meu. Acho muito difícil o médico ter essa autoestima elevada”, afirma.

O cenário da Medicina

A saúde no Brasil, de modo geral, tem sido tema de grandes debates nos últimos anos. Com o objetivo de tentar melhorar essa área, o Governo tem adotado métodos que geraram discussões entre a classe médica. Para Drauzio Varella, o cenário atual da Medicina brasileira é uma questão de altíssima complexidade. Vivemos hoje dois problemas: de um lado temos o Sistema Único de Saúde (SUS) e do outro, a Medicina privada, que envolve a saúde suplementar e o tratamento particular.

“Quando nos referimos ao SUS no Brasil, falamos com extremo desrespeito. A mídia, em parte, é responsável por isso. Quando se fala em SUS você logo pensa em maca nos corredores, gente deitada no chão, porque só isso é noticiado. Darei um exemplo: quando eu tinha 7 anos, acordei com o olho inchado e meu pai me levou ao pediatra. Foi a primeira vez que fui ao médico. Isso porque eu morava no Brás, a apenas 20 minutos a pé da Praça da Sé. Quando voltei para casa, as crianças pararam o futebol e vieram falar comigo. Queriam saber se era verdade que os médicos davam aquelas injeções enormes. Nenhuma daquelas crianças tinha pediatra, nem eu. O Brasil era um país rural em 1950: 70% da população viva no campo. E, se não davam saúde para quem morava próximo aos hospitais, imagina o que era saúde no campo. Hoje, em qualquer cidade brasileira, por mais humilde que uma pessoa seja, seus filhos têm pediatra, tomam vacina e são atendidos. Pode levar cinco horas, pode ter gente por tudo que é lado, mas ela acaba sendo atendida”, expõe.

Drauzio explica que, naquela época, o Brasil tinha 50 milhões de habitantes e hoje esse número já passou para 200 milhões. Porém, mesmo com um total de habitantes quatro vezes maior, se conseguiu montar uma estrutura que atendesse o país inteiro. “A estrutura é cheia de problemas, falta dinheiro e gerenciamento, mas temos focos de excelência. Por exemplo: temos o maior programa de vacinação gratuita do mundo. Ninguém tem isso como nós. Porém, o maior programa de transplantes de órgãos gratuito do mundo. Nos Estados Unidos, se você precisar de um transplante de rim, ou você ou o seu seguro terá que pagar por isso. Aqui, você se inscreve, entra na fila e é operado de acordo com a ordem de chegada. Você pode estar na frente até de um milionário. Temos também centros de excelência em Cardiologia espalhados pelo país inteiro. País nenhum no mundo, com mais de 100 milhões de habitantes, ousou colocar na Constituição que saúde é um dever do Estado”, informa.

Além disso, segundo o médico, quando as pessoas querem fazer comparação de saúde, confrontam o Brasil com países como Dinamarca, Alemanha e Inglaterra, entre outros. Entretanto, são países com número de habitantes muito inferior ao nosso. “É muito difícil dar saúde gratuita para 200 milhões de pessoas. Reconheço que temos um gerenciamento de péssima qualidade no SUS e recursos insuficientes. Mas uma coisa acaba ligada à outra, porque não tem como colocar recurso em uma coisa mal organizada”, esclarece.

Outro grande impasse, para Drauzio, está na saúde suplementar. O médico ressalta que nessa área existem grandes mal entendidos. “Quem assina um plano de saúde acredita ter direito a tudo. As pessoas não se preocupam em ler o contrato e o vendedor também não esclarece. E aí, quando o plano de saúde nega alguma coisa, é aquela confusão. A população tem a ideia de que os planos de saúde nadam em dinheiro e que, na hora em que você precisa, o atendimento é negado. Não estou dizendo que sejam santos, longe disso. Mas só para se ter uma ideia, a média de rentabilidade de um plano de saúde é de 3% e, em 2013, foi apenas de 2%”, detalha.

Segundo o oncologista, um dos motivos dos problemas com as operadoras de saúde é que a população está envelhecendo cada vez mais. A faixa etária que mais cresce hoje no Brasil é aquela acima dos 60 anos e, quanto mais velho você fica, mais utiliza o plano. Outro problema é que os planos não fazem ações para prevenção. “As operadoras de saúde ganharam muito dinheiro na época da inflação. Elas recebiam sempre a sua mensalidade e não se preocupavam com o custo da Medicina. Desde quando acabou a inflação no Brasil, não surgiu nenhuma operadora de saúde. Quem vai se interessar por um negócio em que o lucro varia de 2% a 3%? Ou esse sistema se rearticula ou ele vai quebrar”, alerta. Os médicos também precisam repensar sua postura, defende o especialista. “Outro problema é a má remuneração dos médicos pelas operadoras de saúde. Como eles ganham mal, ficam com raiva dos planos. Então, um paciente chega com dor de cabeça e o médico logo pede uma tomografia. Ele não se preocupa em saber como é a dor de cabeça. É mais fácil pedir exames. Então, os planos economizam o que pagam com os médicos, mas gastam com os laboratórios. Aconteceu uma grande mudança nos laboratórios e serviços de imagem nos últimos dez anos. Era apenas uma ‘portinha’ e agora, de repente, você passa lá e já está ocupando um prédio inteiro. Isso foi causado pelos próprios médicos”, analisa. Segundo ele, esse cenário precisa mudar. “Ou nesse campo haverá uma renegociação, uma discussão e um consenso que levem em conta a saúde preventiva, o interesse dos profissionais e o interesse do usuário, ou esse sistema vai decretar falência. Imagina o que vai acontecer se os 50 milhões de usuários ou uma parte deles forem jogados no SUS, um sistema que já se encontra sobrecarregado”, analisa.

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Especial Semana do Médico – Jayme Murahovschi

jayme murahovschi

Uma carreira bem-sucedida, em qualquer profissão, exige dedicação, empenho e uma pitada da sorte. Mas – é claro! – não só isso. Para garantir um lugar entre os melhores da sua área de atuação, o profissional deve apresentar uma série de qualidades e características que garantem um caminho mais sólido, em que os obstáculos surgem, mas são superados rapidamente. Tijolo a tijolo, a carreira é construída com firmeza, ganhando a credibilidade dos clientes e o reconhecimento dos pares.

A relação com o paciente é a essência da atividade do médico. “A consulta é um ato de confiança”, sustenta o pediatra Jayme Murahovschi, de São Paulo. “Para que a consulta não pareça exageradamente técnica e fria, costumo levantar algum assunto correlato útil, para uma conversa mais leve. Acho que valoriza a consulta e sei que muitos médicos fazem isso. Mas essa atitude exige cuidado e limites”, completa. Ele ressalta a necessidade de não divagar a ponto de deixar de se atentar aos problemas que levaram o paciente até o consultório.

A fim de contemplar o quadro do paciente a sua frente do modo mais correto, o médico deve adotar uma perspectiva holística, buscando uma visão ampla da situação. “A anamnese não pode se limitar à queixa do momento, mas sim ir além da doença atual e incluir a família – suas condições e estilo de vida. Mais do que o exame físico, a anamnese constitui a base da consulta pediátrica”, opina Murahovschi. O pediatra defende, inclusive, a visão da Pediatria como uma “antiespecialidade”, por enfocar um ser humano de maneira global, incluindo aspectos físicos, emocionais, mentais e sociais.

No entanto, a relação com o paciente começa antes mesmo da consulta em si, com a recepção – tanto do médico quanto ainda na sala de espera pela linha de frente do atendimento. “Daí a importância de auxiliares afetivas, efetivas e treinadas”, explica. É preciso, também, captar o clima emocional do paciente e dos acompanhantes: toda essa recepção feita de forma solidária os ajuda a relaxar a ansiedade.

 

O “entorno” do paciente

A relação com o paciente também passa pela consideração da família e dos seus demais acompanhantes – principalmente no caso de especialidades como a Oncologia, a Geriatria e a própria Pediatria, nas quais o entorno do paciente, por costume, se faz presente. Conceito frequentemente utilizado, mas, por vezes, não compreendido corretamente, a empatia – que, como ressalta Murahovschi, não é sinônimo de simpatia – é característica básica nessa construção.

“Empatia é compreender e introjetar os sentimentos e preocupações da família. A palavra-chave é escuta, que também não é sinônimo de ouvir. Ouvimos qualquer ruído, mas escutamos o que é realmente importante, o que vale a pena, e que, às vezes, não foi dito de maneira clara e expressa, mas deixou subentendido para quem realmente está interessado e treinado na construção dessa relação”, detalha.

Com isso em mente, pode-se definir dois momentos da consulta: primeiro, o “sentir”, a sensibilidade. “É fundamental, mas não suficiente, porque o que a família espera do médico é uma orientação objetiva”, pondera Murahovschi, antes de introduzir o momento seguinte, o “agir”. Ele resume: “Primeiro, sentir, e depois, agir. Em outras palavras: a relação médico-paciente é simétrica no plano humano, mas assimétrica no plano profissional, permitindo a expressão da autoridade médica”.

 

Conclusão da consulta e pós-consulta

Conforme Jayme Murahovschi, a consulta se completa com a prescrição, o que não significa necessariamente a receita de remédios, mas sempre orientação. “Na prescrição, deve-se levar em conta que a mãe, em seu estado de angústia, tem sua capacidade de pensar com clareza comprometida e sua capacidade de assimilação diminuída. Por isso, a orientação deve ser clara, detalhada e até repetida”, ensina, considerando a realidade pediátrica. Além disso, os pontos importantes devem ser escritos e a orientação geral da idade, dada em folha impressa.

Após a entrega da prescrição, inicia-se outra fase importantíssima da relação com o paciente: a pós-consulta. “É preciso conhecer a evolução”, afirma o pediatra. Com a tecnologia atual, isso pode ser feito por meio de mensagens de WhatsApp, a serem enviadas em dias determinados, ou a qualquer momento, se a evolução não for a esperada.

Considerando os princípios que segue em sua prática de mais de meio século, Murahovschi afirma que há muitos jovens que também fariam a Pediatria do modo que defende. Contudo, é necessário estabelecer condições que lhes garantam estabilidade financeira e uma vida digna. “Isso certamente reflorescerá muitas vocações”, acredita. No entanto, ele alerta que a profissão deve proporcionar não só sustento, mas, também, satisfação pessoal. “Isso a Medicina pode fazer como nenhuma outra. Uma parte dessa satisfação é íntima e a outra virá com o testemunho de pacientes, o que pode ocorrer muitos anos depois”, conclui.

A voz da experiência

Segundo Jayme Murahovschi, de acordo com sua experiência como pediatra, estes são os pilares para a construção de uma boa relação com o paciente:

  1. Consulta é um ato de confiança;
  2. Acolhimento do paciente e da família;
  3. No caso do pediatra, considerar o intérprete da criança;
  4. Distinguir entre a preocupação objetiva sobre a doença e os fatores emocionais a ela relacionados;
  5. Fazer uma anamnese ampliada que não se limite à doença atual;
  6. A característica básica da relação: empatia (escutar);
  7. Prescrição compartilhada;
  8. Acompanhamento.

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Especial Semana do Médico – Rubem David Azulay

rubem david azulay

Ter sua competência e qualidade reconhecidas apenas com a simples menção de seu nome: este é o ápice de uma carreira. Assim como um produto identificado como “bom” ou “ruim” na prateleira do mercado somente devido à marca que apresenta ao consumidor, um profissional da Medicina carrega em seu nome a possibilidade de ser notado e respeitado pelos seus pares e pela sociedade como o melhor ou um dos melhores das especialidades em que atuam.

Nome forte, marca de sucesso

Rubem David Azulay. Este nome virou uma marca de qualidade, excelência e referência quando se fala em Dermatologia no Brasil. Com um currículo invejável e reputação impecável, o médico acumula em sua carreira diversos títulos, homenagens e menções honrosas nacionais e internacionais. Mas como se alcança esse nível de reconhecimento dentro de uma especialidade médico?

Para o maior professor da área, obstinação é a palavra-chave para toda e qualquer conquista. E essa obstinação vem desde a infância. Segundo o próprio Rubem Azulay, ele sempre foi um aluno estudioso e logo no ensino médio (antigo 2o grau) entrou em contato com as obras de Darwin, Haeckel e Dante Alighieri. Ele defende que, para criar alguma coisa, é preciso adquirir conhecimento, conteúdo e, por esta razão, ele sempre foi em busca desse conteúdo para chegar aonde queria.

Para ser um médico reconhecido e respeitado, Azulay começou seu projeto de vida pensando em cada etapa que deveria passar. A primeira delas era superar o vestibular e, depois, conseguir pagar a faculdade particular. O médico conseguiu uma bolsa de estudos, que mais tarde seria cassada. Para se manter na universidade, decidiu criar um curso paralelo de Histologia para todos os alunos reprovados da faculdade. O valor da mensalidade do curso era cobrado por aluno e Azulay conseguiu pagar o que devia e se manteve na faculdade até o fim.

De acordo com o especialista, este simples planejamento que ele realizou deve ser muito mais elaborado nos dias atuais. “É necessário planejar bem a carreira e o caminho a ser seguido, que na maior parte dos casos segue a máxima de estudar muito, trabalhar em busca da prática e buscar ser o mais qualificado em sua área de especialidade. Esta preocupação com o futuro é algo que não notamos mais nos recém-formados, que no máximo pensam sobre o lugar onde vão trabalhar e não como fazer para chegar lá”, explica Rubem Azulay.

Segundo Azulay, sua marca na Dermatologia foi criada e fortalecida através de muito trabalho e fidelidade a especialidade. “A única coisa que pode manchar o nome de um médico é deixar de trabalhar descentemente, respeitando a ética e os deveres de um profissional da Medicina. Devemos cumprir os horários marcados e estar com o foco no paciente. É através de um trabalho honesto e de qualidade com o paciente que conseguimos construir uma carreira sólida e assim um nome forte dentro de cada especialidade.

Outro fator ressaltado pelo médico na construção de sua imagem está ligado ao relacionamento com a sociedade. Para Azulay, ser referência em sua especialidade faz com que seja estimulado o desejo de retribuir para a comunidade tudo o que conquistou. A forma encontrada pelo médico é continuar trabalhando e recebendo pacientes que não podem pagar por uma consulta, em seu Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay, na Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

“Continuo atendendo pacientes uma vez por semana, na Santa Casa, pois acho que precisamos passar nosso conhecimento adquirido durante tantos anos para os pacientes e para os jovens médicos, em início de carreira. Além disso, participo de atividades de ex-alunos e sempre compareço às homenagens prestadas. É uma forma de transmitir o que aprendi às futuras gerações”, explica o médico que será homenageado no próximo Congresso Brasileiro de Dermatologia, em Belém, no Pará.

A determinação em busca de um objetivo claro fez com que Rubem David Azulay criasse uma marca de sucesso na Dermatologia, ainda hoje revigorada. Dois de seus três filhos decidiram seguir os passos do pai e começaram a construir uma nova estrada na especialidade. Luna e David Rubem Azulay, além de clinicarem, ainda colaboram com o pai em suas pesquisas.

A vitoriosa história de Rubem Azulay

Nascido no Pará, em 9 de junho de 1917, Rubem David Azulay chegou aos 92 anos em 2009 fazendo aquilo que mais gosta na vida: atender pacientes. Na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro ou em sua clínica particular, o médico continua sendo o mesmo. Ele ensina para pacientes e jovens médicos o funcionamento da Dermatologia e a
importância dessa especialidade. E ainda hoje vibra ao lecionar.

É preciso lembrar que a Dermatologia para Rubem Azulay veio por um acaso. No primeiro dia de aula na Policlínica de Niterói, uma enfermeira perguntou quem queria trabalhar naquele ambulatório. O jovem Azulay, que queria muito um emprego, se ofereceu sem nem saber qual era a função. Era o ambulatório de Dermatologia.

Nos seus 60 anos de magistério, Rubem Azulay graduou cerca de 10 mil médicos e pós-graduou 800 dermatologistas, sendo que 20 tornaram-se professores titulares de universidades pelo país afora. No seu currículo, ele acumula os títulos de chefe honorário do Instituto de Dermatologia da Santa Casa da Misericórdia do Rio e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro das entidades Americana, Alemã, Francesa e Britânica de Dermatologia.

Rubem é também um pesquisador e, entre suas contribuições para a Medicina, estão seus estudos sobre as doenças tropicais, como a hanseníase, a leishmaniose e as micoses. Autor de mais de 700 trabalhos, um compêndio de Dermatologia (hoje, na quinta edição) e seis teses, o professor tem muita história para contar, por isso lançou sua biografia, chamada Traços de minha vida.

Em 1970, o médico ingressou na Academia Nacional de Medicina como primeiro secretário e chegou à presidência em 1995. Entre os feitos dele durante sua gestão, está o lançamento do curso de formação médica continuada pela televisão.

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Especial Semana do Médico – Angelita Habr-Gama

Angelita Habr-Gama

Angelita Habr-Gama é cirurgiã, cientista, educadora e, acima de tudo, uma mulher à frente de seu tempo. Graduada em 1957 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), na qual conquistou os títulos de doutora e de livre-docente e mantém-se professora titular emérita de Cirurgia, com 206 artigos científicos publicados em revistas internacionais indexadas no PubMed, a especialista é membro honorário da American Surgical Association, do American College of Surgeons, da European Surgical Association, das Sociedades de Coloproctologia do Brasil, do Chile, do Paraguai e do Equador, da Associação Argentina de Cirurgia, da Academia Nacional de Medicina da Argentina e das principais sociedades internacionais ligadas a sua especialidade.

Conhecida por seu talento e suas conquistas, Angelita criou, na FMUSP a primeira disciplina de Coloproctologia em uma universidade brasileira. Recebeu, também, numerosas homenagens e honrarias, entre as quais destacam-se: Prêmio Conrado Wessel de Medicina em 2010; Troféu Guerreiro da Educação – Professor Emérito de 2011 do Centro Integrado Empresa -Escola (CIEE) e do jornal O Estado de São Paulo; e Personalidade de Destaque, do Prêmio Octavio Frias de Oliveira, outorgado pelo ICESP, em 2014.

Diante de toda discussão recentemente evidenciada pela mídia e pela necessidade social de igualdade de gêneros, a conversamos com Angelita para saber um pouco sobre sua relação com a Medicina e com o feminismo. Como foi ser estudante de Medicina em uma época em que isso não era comum para as mulheres? E como percebe o cenário, atualmente? Houve mudanças nesse mercado majoritariamente masculino em relação ao passado? Além disso, a especialista conta um pouco sobre sua história de vida, sua infância e o início da carreira. Confira!

Para começar, conte um pouco sobre sua infância e juventude. Como foi crescer na Ilha de Marajó? Como foi para você e sua família se estruturarem no Pará, vindos do Líbano?

Meus pais, libaneses, chegaram ao Brasil no começo do século XX e se estabeleceram na Ilha de Marajó (PA), como comerciantes. Crescemos – eu e mais cinco irmãos – em um vilarejo chamado Cachoeira do Arari, mas a minha irmã caçula nasceu em São Paulo. Meu pai, de família culta, entendeu que o ensino em Cachoeira do Arari era precário e que os filhos necessitariam de uma educação mais qualificada. Ao mesmo tempo, um de meus irmãos, com apendicite supurada, faleceu sem ter oportunidade de conseguir atendimento médico adequado. Meus pais concluíram, então, que seria melhor nos mudarmos para Belém (PA), onde permanecemos por pouco tempo. Em 1939, deixamos a capital paraense e nos mudamos para São Paulo. Então, nos estabelecemos na Vila Mariana, onde meus pais constituíram um pequeno comércio – um armazém de secos e molhados.

Quando você soube que queria fazer Medicina? Houve apoio de sua família?

Realizei toda minha formação em instituições públicas. Completei o curso primário no Grupo Escolar Marechal Floriano, na Vila Mariana. Realizei o ensino médio na Escola Caetano de Campos e no Colégio Estadual Presidente Roosevelt. Não tinha certeza sobre minha vocação, sobre qual carreira seguir. Alguns amigos se encaminhavam para Medicina e me entusiasmei para prestar o dificílimo vestibular na Universidade de São Paulo (USP). Meus pais resistiram, no primeiro momento, pois esperavam que eu seguisse o magistério, a exemplo de minhas duas irmãs mais velhas e da tradição de minhas tias paternas – professoras de Inglês e Francês em Beirute. Insisti e prestei o vestibular. Eram mais de 600 inscritos para 80 vagas. Passei em oitavo lugar para meu orgulho e de minha família, pois tínhamos consciência da dificuldade que era o ingresso na Faculdade de Medicina da USP, como até hoje o é, por ser a mais concorrida, procurada, exigente e rigorosa, além de ser a mais adequada às posses de meus pais, por ser gratuita.

Como foi tornar-se uma médica, cirurgiã, nascida no Pará? Você enfrentou preconceitos?

Em nenhum momento, durante toda minha formação escolar, os paulistas, e em particular os paulistanos, manifestaram sentimento bairrista ou qualquer discriminação pelo fato de uma colega de escola ou profissão ter nascido em outro estado. Aliás, em nossa turma do curso médico, formaram-se muitos colegas de vários países latino-americanos, em decorrência da convenção assinada pelo Ministério de Educação do Brasil com os países vizinhos. Todos eles, excelentes alunos, foram sempre muito bem aceitos, assim como os colegas brasileiros nascidos em outros estados. Enfrentei, entretanto, algumas dificuldades inerentes à escolha da profissão, já que o acesso às faculdades, naquele momento, era voltado prioritariamente para alunos do gênero masculino.

Então, em algum momento de sua carreira, você percebeu que ser mulher lhe trouxe algum transtorno? Em ambientes médicos, alguma vez, isso foi um problema?

Não posso dizer que tenha trazido transtorno. Trouxe a necessidade de me adaptar a um meio em que tudo era voltado para os homens: o tamanho dos uniformes – grandes – tínhamos que adaptar para o nosso porte; o vestiário, que não era disponível para as médicas, foi um obstáculo solucionado após sermos aceitas, como hóspedes, no vestiário das enfermeiras. Mas nada que foi um problema real ou que atrapalhou a carreira.

Houve algum episódio de resistência por causa dos pacientes por você ser uma mulher?

Não houve resistência. Às vezes, causava alguma estranheza e cheguei a ouvir, no começo da carreira: “Quando chega o médico?”.

Qual é o cenário atual de sua especialidade? Há um equilíbrio maior entre o número de profissionais homens e mulheres?

Havia desequilíbrio numérico entre os gêneros, pois constituíamos menos de 10% dos alunos, quando ingressei na faculdade. Atualmente, porém, o número de ingressos é igual para os dois gêneros. Reconheço que o sucesso alcançado por mim como profissional e especialista em Coloproctologia tem influído no constante acréscimo proporcional de médicas que se destinam a essa área.

Você teve alguma inspiração em sua carreira?

Vários de meus mestres serviram de inspiração. Destaco o professor Alipio Correa Netto, notável cirurgião e ser humano exemplar, bem como Antonio de Barros Ulhoa Cintra e Arrigo Raia – todos excelentes médicos, verdadeiros paradigmas, muito dedicados à profissão e com acentuada preocupação universitária, promotores do progresso do conhecimento e da organização do ensino universitário.

Quais foram suas maiores conquistas profissionais?

Sou feliz por ter meu trabalho reconhecido no ambiente científico e na sociedade, como um todo. Recebi numerosas homenagens e prêmios ao longo da vida – confirmando o acerto que fiz na escolha da profissão. Conquistei os títulos de membro honorário das mais importantes sociedades científicas internacionais, como a American Surgical Association, entidade sesquicentenária dos Estados Unidos, na qual fui a primeira mulher latino-americana a receber tal título; o American College of Surgeons; a American Society of Colon and Rectal Surgeons; o Royal College of Surgeons (Inglaterra) e mais recentemente o da American Society of Radiation Oncology, entre outras; e no Brasil, o da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Uma das conquistas que considero de grande relevância em minha atividade profissional é a utilização do protocolo científico que, em conjunto com a minha equipe de trabalho e de pesquisa, denominei Watch and Wait (em Português, Observar e Esperar). Essa estratégia, que iniciamos em 1991, preconiza o uso da rádio e da quimioterapia neoadjuvante para tratar o câncer do reto. Verificamos que em muitos doentes com câncer de reto inicialmente tratados com as referidas terapêuticas e, em seguida, operados, como classicamente era feito, ocorria a regressão completa do tumor e, com a cirurgia, não se detectava mais lesão no segmento ressecado. Foi então que decidimos não operar de imediato quando, após a reavaliação do resultado do tratamento com rádio e quimioterapia, não persistiam sinais clínicos, endoscópicos e imagenológicos do tumor com a aplicação do protocolo Watch and Wait. Fazemos seguimento rigoroso dos doentes, informando-os da chance de reaparecimento do tumor e de que, se isso ocorrer, a operação deverá ser realizada. Após muita resistência da comunidade médica em geral, notamos com satisfação que, atualmente, renomados centros internacionais dos Estados Unidos e Europa – aliás, do mundo todo – adotaram essa estratégia. O referido protocolo é uma verdadeira mudança de paradigma no tratamento do câncer do reto.

O que a Medicina representa em sua vida? Como você se sente hoje em relação a sua profissão? Ainda há espaço para novos planos e conquistas?

O exercício da Medicina é meu ideal de vida e, assim sendo, sinto-me plenamente realizada. Porém, sempre há muito a fazer e, por isso, continuo me dedicando intensamente e com grande entusiasmo nas numerosas atividades médicas que sempre me estimularam.

Como é sua rotina externa à profissão? Como você se distrai e relaxa fora das salas de cirurgias e do consultório?

Gosto muito de cinema, então, procuro colocá-lo em minha rotina pelo menos uma vez por semana. Adoro ler, atividade que acho muito relaxante e que mantenho ao longo da vida. Leio artigos científicos para me manter atualizada em minha atividade profissional, bem como assuntos diversos da literatura. Mais que tudo, dedico parte do tempo a transmitir conhecimento científico atinente a minha especialidade, a Coloproctologia, por meio de conferências e palestras, assim como escrevendo artigos científicos em revistas internacionais de maior destaque e impacto científico. Atualmente, voltei a praticar xadrez e a fazer curso de arte, como hobby.

Você se considera uma mulher feminista? Acha que esse movimento é importante? Considera-se uma inspiração para outras mulheres dentro de sua profissão?

Embora eu nunca tenha participado ativamente do chamado Movimento Feminista, reconheço suas importantes repercussões, sobretudo na segunda metade do século XX. O resultado dessas conquistas foi muito favorável à condição feminina, promovendo uma quase total igualdade de direitos. Indubitavelmente, ainda resta muito a conquistar na busca da absoluta equiparação das oportunidades entre ambos os gêneros, uma vez que, em grande parte do mundo, a mulher recebe cerca de 20% (ou mais) a menos do que o sexo masculino nas mesmas funções.

Hoje, muito se fala em empoderamento feminino. Como você vê esse movimento? As mulheres já conquistaram um espaço importante no mercado de trabalho ou ainda é preciso lutar mais?

Há muito ainda a progredir. No entanto, as ações das mulheres já conquistaram muito e estão em igualdade de condições com os homens em quase todas as profissões. Seu trabalho é reconhecido e elas assumem posições até há bem pouco tempo ocupadas exclusivamente por homens. É oportuno salientar que vários fatores têm possibilitado significativas mudanças que vêm ocorrendo na vida social e são frutos das conquistas femininas. O progresso na igualdade entre os gêneros se manifesta não só nas atividades profissionais. A título de exemplo, destaco a importantíssima repercussão criada pela redistribuição de funções equilibrada entre os gêneros na vivência familiar, manifestada na atenção com os filhos e na divisão das atividades domésticas em igualdade com os homens, que realizam, hoje, as tarefas antigamente destinadas exclusivamente às mulheres. Ao lado disso, estas passaram a se responsabilizar por parte do orçamento familiar como fruto de seu trabalho nas diferentes atividades humanas. Isso se verifica na política, nas artes, na educação, nas administrações pública e privada, na literatura, na Medicina e em outras áreas.

O que você gostaria de sugerir para os jovens médicos que começam agora na profissão?

Penso que todos desejamos um mundo em que as oportunidades estejam abertas para todos, homens e mulheres. O sucesso em qualquer profissão exige dedicação, esforço e plena convicção de sua escolha. Como ouvi de um de meus mestres: “a Medicina é para ser exercida ou abandonada”. Suor é a chave do sucesso! Cabe aos profissionais da Saúde, como a todos os cidadãos, dedicarem esforços para que as pessoas possam viver livres de violência, e propugnar que o Estado cumpra com suas obrigações quanto ao respeito e à proteção dos direitos humanos de todos: homens, mulheres e crianças. Cabe ao Estado moderno planejar e executar ações efetivas na Educação, na Saúde, na preservação dos direitos do indivíduo e na distribuição de renda, por meio de políticas democráticas e programas adequadamente elaborados, visando à realização do ser humano. Essa foi a proposta do grande pensador
sir Karl Popper (1902-1994), que elaborou, em 1945, o grandioso e democrático projeto sociológico da “engenharia social gradativa”, que tem como meta a absoluta igualdade de direitos e responsabilidades dos seres humanos.

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Especial Semana do Médico – Osvandré Lech

osvandré lech

Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot), da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (Sboc), da qual é membro-fundador, Osvandré Lech tem experiência acumulada e incontestável em entidades nacionais e internacionais. Palestrante de sucesso, reconhecido mundo afora, o ortopedista, que também é conselheiro editorial da Revista DOC, foi escolhido, neste ano, para presidir o International Board of Shoulder and Elbow Surgery (IBSES), tornando-se o primeiro ortopedista de um país em desenvolvimento a ocupar o cargo. Confira, abaixo, a entrevista concedida pelo médico a nossa reportagem.

Poderia contar um pouco sobre a atuação do International Board of Shoulder and Elbow Surgery (IBSES)?

Esta entidade surgiu em 1992, pela liderança do notável Charles Neer, um ícone da área. Com currículo científico e institucional incontestável, Neer anteviu que, nos anos 1990, a especialidade precisava acompanhar a economia e a diplomacia, ou seja, tornar-se globalizada. Com a cooperação de vários líderes da época (no Brasil, do prof. Arnaldo Amado Ferreira Filho, da USP), o IBSES foi criado. O objetivo da nova instituição era buscar a excelência científica e a representatividade, e não um grande número de associados. O Congresso Mundial de Cirurgia do Ombro e Cotovelo, que ocorre a cada três anos, em continentes distintos, é a atividade principal do Board.

Que tipo de atividades desempenhou como secretário do IBSES?

Iniciei minha atuação no IBSES em 2007, junto com Sérgio Checchia, de São Paulo. Ele, Adalberto Visco, de Salvador, e eu havíamos organizado o 10º Congresso Mundial naquele ano, em Sauipe. O evento foi um sucesso retumbante, com grande lucratividade para o IBSES e inserção do Brasil no competitivo cenário internacional. A seguir, passei a servir como secretário, quando fui responsável pelas atas, agenda, contato entre os membros etc. Essa atividade ocorreu em paralelo à crescente participação como palestrante em eventos internacionais.

Como é o processo de seleção para o presidente do IBSES? O que julga ter sido fundamental para a sua escolha?

O Board segue rígidos princípios desde sua fundação. A escolha do novo chairman é cercada de discrição e se baseia na opinião e no consenso do presidente e dos demais membros. Não há campanha nem candidatos. O cargo exige representatividade, liderança e reconhecida participação na história do desenvolvimento da cirurgia do ombro. Dessa forma, Charles Neer (Columbia University, Nova Iorque) indicou Robert Cofield (Mayo Clinic, EUA), que indicou Steve Copeland (Reading, Inglaterra), que indicou Louis Bigliani (Columbia University, Nova Iorque), que me indicou. Pertencer a essa sucessão de nomes dá calafrio em qualquer um que conheça o currículo desses notáveis. Foi assim que acompanhei a indicação seguida de aclamação unânime do meu nome na reunião trianual do IBSES, em Jeju, Coréia do Sul, meses atrás.

Quais são as principais frentes nas quais pretende trabalhar em seu mandato?

Precisamos de um novo site e de um formato mais racional e menos emocional na escolha da cidade-sede dos congressos mundiais. Também pretendo estruturar um calendário internacional de eventos na área do ombro e cotovelo, possibilitando que colegas do mundo inteiro tenham informação mais simplificada. Como historiador,
pretendo buscar recursos para que a história da cirurgia do ombro venha a ser contada por personagens atuais.

Qual é a importância de um brasileiro assumir esse cargo?

Mostra que a representatividade brasileira no cenário acadêmico internacional não sofreu com a impressionante fase
de desconstrução da imagem do Brasil no exterior. Temos líderes ditando normas em várias especialidades médicas e em outras áreas do conhecimento. Porém, o mais importante é o elemento facilitador de ter um representante nacional no centro de decisões. Isso será benéfico para todos os membros da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC), entidade da qual tive a honra de ser cofundador, em 1988.

Como acredita que suas experiências nas sociedades brasileiras e internacionais podem ajudar nessa nova empreitada?

As situações institucionais se repetem. Portanto, os problemas que encontrarei serão semelhantes aos já enfrentados em minha passagem pelas sociedades de Ombro, de Mão e na própria Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot). Experiência acumulada conta muito.

Em relação à cirurgia de ombro e cotovelo, como o Brasil se situa, quando comparado à comunidade internacional?

Sob o ponto de vista da habilidade cirúrgica, estamos à frente dos demais: pelas dificuldades já conhecidas, aprendemos a dar soluções aos pacientes que são impensáveis para colegas de países desenvolvidos. Quanto à publicação internacional, melhor cartão de vista de um pesquisador, reconheço a barreira da língua, do mísero ganho pela atividade acadêmica e o espírito “colonialista” (o que vem da corte é melhor do que é produzido na colônia) ainda reinante. Todos esses fatores nos impedem de ocupar uma posição melhor no cenário internacional. Na cirurgia do ombro, porém, temos uma representatividade forte. Já somos um dos “endereços” da especialidade no cenário mundial. Esforço de muitos, de várias gerações.

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Especial Semana do Médico – Bussâmara Neme

bussâmara neme

Filho de Libanês e na época aos 97 anos, dos quais mais de 70 dedicados à Medicina, o ginecologista, obstetra e professor Bussâmara Neme contou em entrevista especial, como era, como é e como deve ser o futuro médico brasileiro. Na entrevista, o médico paulista que fez parte de boa parte da história da Medicina brasileira fala sobre sua vida profissional, desde a escolha pelo sacerdócio médico, influenciada pelo irmão mais velho, até as mudanças tecnológicas. Veja a entrevista exclusiva:

Como começou sua história na Medicina?

Me formei no ginásio (hoje, ensino médio) em São Paulo e fui fazer o vestibular no Rio de Janeiro. Procurei a faculdade que era nacional (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ). Mas, meu pai, quando acabei o ginásio, disse que eu não podia estudar Medicina. Eram nove irmãos, todos estudando, e o meu pai estava sozinho. Ele precisava que eu ficasse com ele na loja comercial no interior de São Paulo. Fiquei dois anos, até que, de tanto insistir, minha mãe me apoiando, ele falou: “Vai estudar; se passar, passou. Se não passar, volta para a loja”. Fiz o vestibular tenso, preocupadíssimo. Fui na Nacional, conversei com o professor que tomava conta dessa parte do concurso e disse a ele a minha situação, que se não passasse, teria que voltar para a loja. Ele me falou assim: “Meu filho, você será reprovado, porque estou dando um curso pré-médico desde fevereiro, e nós estamos em agosto. Você não pode competir com esses meninos. Procura uma faculdade mais fácil”. Eu tinha 17 anos nessa época, mas que faculdade eu ia procurar? Mandaram eu ir a Niterói (RJ), que era mais fácil. E eu fui. É uma faculdade muito boa. Aproveitei bastante lá e no quinto ano eu tinha um currículo, porque queria transferência para São Paulo. Eu não tinha nota 9, era só 9,5 ou 10. Quando um professor me dava 9, eu pedia reexame da prova. Eu era atrevido e dizia: “Professor, a aula que o senhor deu desse assunto foi nota 9 ou nota 10?”. E ele dizia que foi nota 10. Então, eu respondia: “O que o senhor deu na aula que não está aqui? E tem coisa que o senhor não deu, porque eu recebo apostila de São Paulo. A minha prova está melhor que a sua aula. Eu não quero 9, eu quero 10”. Eles me davam 10. Quando surgiu uma vaga para a Universidade de São Paulo (USP) no 5º ano de Medicina, concorreram uns 20 candidatos, mas eu não tinha nota 9, era só nota alta. Entrei e acabei professor titular da USP. Agora sou emérito, porque a gente se aposenta com 70 anos. Mas até hoje sou professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e sou professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) em Sorocaba (SP). Dou aula às quintas-feiras lá. Primeiro, vou a Campinas, assisto a partos (principalmente os casos mais graves) para dar a minha opinião nas discussões. Depois, faço uma intervenção para ensiná-los a tirarem uma criança a ferro e vou para Sorocaba, onde dou aula, estudo o caso e volto às 17h.

Por que você quis tanto fazer Medicina?

O meu irmão mais velho, chamado Félix, que já faleceu, era um menino brilhante. Nunca tirou segundo lugar em nada, era só primeiro. Ele entrou na USP como primeiro lugar e estava estudando Medicina no terceiro ano. Ele era mais velho que eu quatro anos e eu queria ser como ele, um médico. Meu pai dificultava, porque ele achava que eu tinha que ficar ajudando na loja.

Então você já era bem determinado com 17 anos.

Eu queria ser médico, meu irmão me influenciou muito. E eu sentia como era importante ser estudante de Medicina. Ele era cirurgião vascular, foi professor titular da Escola Paulista de Medicina, responsável pelo setor vascular. Entrei na faculdade em Niterói, consegui um currículo grande e quando surgiu uma vaga na USP, meu “mano” me telefonou: “peça transferência, porque tem uma vaga!”. Quando eu pedi a transferência, o professor de Niterói me falou: “se você conseguir, vai; se não conseguir, não quero mais você aqui”. Eu era um aluno muito bom e eles acharam uma pena perder um aluno desses. Topei e entrei. Fiquei como acadêmico interno no setor de Obstetrícia, na maternidade da faculdade, e dali fui até sair como professor emérito.

Você sempre quis atuar nessa área?

Não foi bem assim. Eu não sabia que área eu queria, mas quando pedi a transferência do Rio para São Paulo, eu precisava de dinheiro. Meu pai me mandava 400 mil réis, o que equivale hoje a uns R$600. Fui ao professor de Obstetrícia porque ele era o único que tinha um hospital isolado e pedi para ser acadêmico interno. Eu ganharia residência, não pagaria nada e ainda receberia um “dinheirinho”. E ele me aceitou.

Quando nasceu a paixão pela Obstetrícia?

Quando entrei na Obstetrícia, eu não sabia o que sairia dali. Mas entrei porque eu tinha que ter casa, comida e ganhar dinheiro. O professor que dirigia o departamento, Raul Briquet, era um homem brilhante. Não existe no Brasil e nunca existiu um obstetra e professor como ele. Só um professor do Rio, que tinha muito nome também, mas o Briquet foi muito superior nas publicações dele. Apaixonei-me por ele, fiquei maluco e ele por mim. Ele gostou  e mim logo de cara, porque viu meu interesse. Ele era um homem engraçado. Vinha todo dia às 14 horas na maternidade, onde era o diretor, passar uma visita geral. Saía todo mundo atrás dele. Ele olhava e dizia: “Cadê o Dr. Neme?”. E respondiam: “Dr. Neme teve que sair”. Então, ele falava: “Então não tem visita. Quero visita com ele”. Porque eu era terrível, sabia tudo.

Você estudava muito fora da faculdade para saber tanto assim?

Não, na faculdade. Era o aprendizado das aulas e eu ajudava meu irmão na área cirúrgica, porque também ganhava um “dinheirinho” dele. Já era uma experiência extra. Ele era cirurgião vascular e depois fiquei lá na clínica obstétrica e nunca mais saí. Saí como professor emérito, em 1985.

Qual a diferença entre as residências da sua época e as de hoje em dia?

A diferença é que, na residência hoje, o indivíduo faz plantões e não mora na maternidade. Para ser parteiro, tem que morar na maternidade. Não é só acordar a qualquer hora. É porque você aprende com aquilo que você faz e aprende com o que os outros estão fazendo. Com os erros deles e com os acertos deles, você aprende. Morei em uma maternidade como médico interno noturno, entrando às 18 horas e saindo às 10 horas da manhã. Foram 18 horas de trabalho durante 11 anos. Namorei minha mulher durante seis anos. Ela vinha na maternidade todo sábado e jantávamos: ela, o padre Luís, que era o capelão, e eu. E ela ia embora. Nunca fui ao cinema com a minha mulher. Ela vinha me namorar na maternidade. Agora, estou com 97 anos e ela tem 93. A residência começou em 1940. Em 1941, eu me formei. Depois continuei em 1942 e 1943 como médico-residente. Comecei como estudante no sexto ano, depois segui como residente mais dois anos de formado e, então, fiz um concurso para uma maternidade, entrei e fiquei 11 anos lá.

Desses anos todos, ficou algum trauma?

Perdi uma doente. O nome dela era Reginacer. Ela nasceu na minha mão, fiz o parto da mãe dela. E quando ela foi dar à luz, fiz o parto dela. Ela devia ter uns 18 anos. Fiz um parto perfeito e, quando ela foi para o quarto, a mãe dela me chamou e disse: “Ela está meio fraquinha. Já que ela está no hospital, vamos aproveitar para fazer uma transfusão?”. No meu erro, eu aceitei. Fizeram a transfusão e em dez minutos de sangue correndo, ela entrou em choque e morreu. Examinamos o sangue, ele estava contaminado. Ela fez uma sepsemia por transfusão de sangue. Esse nome não sai da minha cabeça. Naquela época, eu devia ter uns 35 anos. Depois da morte dela, a mãe me chamava para todos os aniversários de morte dela, para ir à casa dela e a gente rezava junto. Durante uns cinco anos eu aceitei, depois parei. Já tinha sofrido bastante por ela. Era uma menina muito boa. Nasceu uma criança, mas eu não me lembro do nome. Era um menino. Nunca mais vi. Isso foi na maternidade Pró-Matre paulista. Sou diretor clínico de lá. Não atuo mais e desisti de fazer parto na clínica privada. Na clínica privada, é assim: se você marca o parto para mais ou menos dia 10, desde o dia 1º você não pode sair de São Paulo, porque a qualquer hora pode adiantar. Depois no dia 10, se não der à luz, aí você fica mais sete a oito dias esperando. Estou com 90 anos. Quero ir para o Guarujá, não quero mais isso. Na faculdade de Campinas e em Sorocaba, onde sou professor, quando chego lá e tem uma mulher dando à luz, sou chamado para fazer uma demonstração. Tiro uma criança a ferro e até a faxineira  em ver, porque hoje – juro por Deus que estou falando aquilo que sinto – não tem um parteiro que nem eu, pela minha idade e pela experiência que eu tive. Esse livrão aqui (apontando) é o meu tratado. Sairá agora a quarta edição.

Qual é a diferença entre esses tratados?

Existem temas que você não pode mexer, porque é aquilo mesmo, mas há temas que são ventilados por muita gente e surgem novidades para você enxertar. Se não fizer isso, o livro fica velho. Distribuo o livro para os residentes de Medicina de São Paulo e para os assistentes da faculdade de Campinas e da faculdade de Sorocaba, todos os capítulos meus, e ainda distribuo para todos os meus amigos que eu considero e que escrevem no livro. O livro é meu. São uns 170 capítulos, dos quais uns 50 devem ser meus, o resto é de gente minha.

Como foi abrir o seu primeiro consultório?

Eu me formei em 1941 e abri um consultório em 1947. Meu irmão já era médico e tinha um consultório montado. Eu trabalhava no consultório dele, de modo que eu não tinha despesa alguma. Não tinha muito cliente, mas também não tinha despesa. E nesse consultório estou até hoje.

É uma questão de família manter esse consultório?

É. Meu irmão já morreu faz muito tempo. É um consultório meu, muito grande e praticamente não atendo mais. O paciente liga para lá e a secretária diz: “Dr. Neme não está atendendo, mas, se quiser se consultar, pode se consultar com o Dr. Eduardo”, que é meu filho. Mas o que acontece? Vou te contar uma história: tem uma cliente que eu não gosto – porque às vezes a gente gosta da cliente, às vezes não. Essa eu não gosto. Peguei a observação dela e falei: “Minha senhora, sou seu médico há 50 anos, fiz os seis partos da senhora, todos perfeitos, está tudo em ordem. Mas estou convalescendo, queria parar de trabalhar e queria comunicar à senhora que essa será a nossa última consulta. Se a senhora quiser, continua aqui com meu filho”. Ela falou assim: “Sabe, Dr. Neme, o que eu penso do senhor? Eu penso é que o senhor está querendo mesmo é vagabundar”. Questionei: “Por que diz isso?”. E ela respondeu: “O senhor entrou nessa sala andando melhor que eu. O senhor está com uma cabeça mais viva que a minha. Que história é essa de parar de trabalhar? O senhor está querendo é ser vagabundo!”. E continuou: “Sou sua cliente há 50 anos porque confio no senhor. E eu venho aqui e o senhor tem que me atender”. Hoje em dia, a secretária atende essa cliente assim: “O Dr. Neme não está mais consultando”. E ela responde: “Eu sei, mas eu quero ele; não quero o filho dele”. E ela vem. Agora, isso faz muito bem ao meu coração, porque o obstetra é diferente do ginecologista. O ginecologista faz uma consulta e você vai embora. O obstetra não: você vê nove meses antes e nove meses depois. Então, ela vem ao seu consultório pelo menos o dobro: 18 vezes. E telefona para perguntar: “posso fazer isso?”; “posso fazer aquilo?”. Então, se estabelece uma comunhão de amizade muito grande.

Você não pensou em abrir mais consultórios?

Ultimamente, a secretária informa: “Dr. Neme não quer atender mais”. Algumas aceitam meu filho, mas a maioria não aceita. No meu consultório, trabalham uma neta minha, o meu filho e uma sobrinha. Ninguém lá paga nem o café que toma: eu pago tudo. Eu sou paternal. Estou bem de vida. Não tenho porque fazer essas pessoas pagarem: eles precisam e eu tenho. Então, eu dou. Essa é a minha situação. Não quero mais complicar, porque você vai envelhecendo e a Medicina evolui mais que a sua cabeça. Estou atualizando esse livro com 97 anos e a cabeça está muito boa. Mas não é mais a mesma cabeça. A Medicina desenvolveu mais rápido que o meu cérebro, e amanhã posso fazer uma consulta e cometer um erro. Destrói todo o meu passado. Por isso, não quero mais consultar. Antes que eles falem que estou velho, já parei. Agora, para escrever trabalho, sou ótimo. Sou livre docente da faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Dei cursos anos e anos por lá. Ia de São Paulo para lá e ficava uma semana dando aula. E eles gostavam muito das minhas aulas, mas agora não dá mais pra isso.

Existe muita diferença de trabalho no Rio de Janeiro e em São Paulo?

O Rio é o Rio. São Paulo é uma cidade de trabalho, hostilizante, perigosa; o Rio é gostoso, diferente. Agora faz tempo que não vou ao Rio. Sinto falta, porque gosto muito, mas não dá mais para trabalhar fora. Quero chegar aos 100 anos  preciso descansar para alcançar essa meta.

O que você diria para os médicos de agora?

Uma das coisas que nunca fiz foi aceitar plano de saúde. Morei 11 anos em uma maternidade, onde ganhava o suficiente e não gastava nada. Quando abri o consultório, por milagre, começou a encher. O médico mais importante que tinha em São Paulo era o professor José Medina e ele ia fazer um parto na Maternidade Matarazzo, onde eu morava. Eu entrava às 18 horas e saía às 6 horas, ganhando na época 600 mil réis. A minha vida foi de muita luta e me sinto agraciado por Deus. Um dia, eu estava indo para a minha fazenda em Bauru. Era uma tarde bonita e, de repente, escureceu. Pararam os dois motores do avião, me agarrei na poltrona e falei: “Me salve, por toda a confiança que tenho na minha sorte”. Sou um sortudo e isso é importante. É preciso sentir que temos sorte. Na vida da gente, existem dois momentos que são os mais importantes: o primeiro é quando nascemos. Você nasce feio, filho de gente ruim, boa, rica ou pobre, saudável. Deus te dá isso de presente e você não deve estragar. Eu nunca estraguei. Fui esportista em São Paulo e no Rio de Janeiro. Eu ia de barco até Icaraí, em Niterói, e nadava em mar aberto. Fiz isso durante cinco anos. Eu não tenho nada, nenhuma doença. Nunca tomei uma aspirina. E o segundo momento da vida é quando você casa. Se você casa bem, está tudo ótimo; se casa mal, está perdido para o resto da vida. Nasci bem e casei com uma mulher que é um doce de coco.

Como foi cuidar do seu próprio consultório?

Meu primeiro consultório foi o do meu irmão, mas eu tinha tantas pacientes e chegava a 15 partos por mês. Aí precisei montar o meu próprio espaço. Cobrava R$10 mil por cada parto. Com isso, você pode imaginar o que ganhei. Tudo que tenho não caiu do céu, mas, sim, a partir de muito trabalho. E quando os clientes reclamavam que estava muito caro o valor, eu perguntava: “Mas se você escolhe o melhor hotel de São Paulo, pagará por um valor de hotel vagabundo?”. Ele procurou o melhor médico de São Paulo, então terá que pagar pelo melhor médico.

Você acompanhou mais de cinco décadas da Medicina no Brasil e viu muitas mudanças. Como se adaptou a elas?

Viajei muito para aprender. Viajei para a Argentina por seis meses, para o Uruguai por quatro meses, fiquei um ano na Europa, fiz os melhores serviços de Obstetrícia nos Estados Unidos. Tudo porque quem quer ser professor deve fazer isso para ventilar a cabeça, vendo o que os outros estão fazendo. Quem não pode fazer isso ou não tem condições, tem que aprender aqui mesmo. Você tem acesso aos livros, revistas e ao trabalho. É preciso apenas trabalhar e se esforçar. Forme-se em Medicina, faça residência, dedique-se e aprenda.

Você trabalhou antes e depois da invenção da ultrassonografia e da descoberta dos antibióticos. Como essas mudanças influenciaram a sua prática?

A prática mudou completamente. Antes, a gente apalpava para saber. Até hoje, quando vou dar aula em Campinas, ensino para os meninos como “ver” a cabeça e o ombro do bebê com o toque das mãos. Isso porque eu aprendi assim e com o ultrassom não tem mistério. Isso mudou a Obstetrícia. Temos o 3D agora, mas para a Obstetrícia não precisa. O que precisamos é ver o bebê e o sexo e, com isso, já vemos se está tudo bem. O 3D é mais para a mãe do bebê do que para o médico. O que temos agora que pode ser um problema é a cesárea. Não há mais parteiros no Brasil. Quando faço parto na universidade e tiro à fórceps, até a faxineira vem ver, porque não se faz mais isso. Pega-se um parteiro de meia-pataca e o coloca para fazer um parto de uma menina de 18 anos recém-casada e ele estraga a menina, porque ele não sabe fazer uma episiotomia (incisão feita na região do períneo para aumentar o canal de parto). Então, é melhor que ele faça a cesárea.

A questão das sociedades de especialidades e as organizações de classe influenciou muito no dia a dia da Medicina?

Na minha época, a gente não tinha essa organização e íamos vivendo com bom senso. Vivíamos mais em função do bom senso e do respeito. E dava certo. Acho que falta um pouco disso hoje em dia.

Como deve ser o médico do futuro?

O médico do futuro tem que ter um pouco do que tínhamos antigamente: respeito pelo paciente, amigo da família. E que ele tenha em mente que deve sempre ajudar e não prejudicar. Ele não deve pensar um minuto no quanto ele ganhará para fazer uma coisa, mas, sim, em como ele fará aquilo bem, com foco no paciente. O dinheiro vem através disso. O médico fazia parte da família e, hoje em dia, ele é um prestador de serviço. O médico deve procurar em sua atividade cercar-se de cuidados para não prejudicar nunca um paciente e para, eminentemente, auxiliar no que for possível, independente da remuneração. É ele quem amenizará o quanto for possível o sofrimento desse paciente.

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Especial Semana do Médico – Rosa Célia Pimentel

Motivada pela própria trajetória de vida, com mais de 30 anos dedicados à Medicina, a cardiologista pediátrica Rosa Célia Pimentel Barbosa conta em entrevista especial à Revista DOC como se tornou uma referência na área da Saúde. Alagoana de Palmeira dos Índios, a fundadora e diretora do Pro Criança Cardíaca é uma das médicas mais  espeitadas do país e sua nobre iniciativa já rendeu diversas homenagens e premiações.

A médica fala, em conversa descontraída, sobre a sua carreira, desde os obstáculos que superou para buscar a especialização no exterior até à essência da profissão em “ajudar o próximo”. Nos próximos meses, a cardiologista concentrará ainda mais esforços no levantamento de capital de giro para fazer funcionar seu mais recente empreendimento: o Hospital Pro Criança Jutta Batista. Leia, a seguir, a entrevista exclusiva com Rosa Célia:

O que a fez escolher a Medicina dentre tantas profissões?

Fui criada em um colégio interno no Rio de Janeiro durante 11 anos, que também era um orfanato. Aos
16 anos, comecei a me interessar pelas pessoas que estavam doentes. Quando alguma criança adoecia, eu ficava preocupada e queria cuidar dela. Foi quando a diretora do colégio, que era como se fosse uma mãe para a gente, começou a ter problemas no coração. Eu controlava os remédios dela. Lembro-me que, uma vez, sem querer, entornei o remédio dela, o único que tinha, mas que não servia para quase nada. Imaginei que ela fosse morrer (risos). Nessa época, me dei conta de que realmente queria cuidar das pessoas. O orfanato onde morei e estudei não era um orfanato comum. Tínhamos contato com pessoas da alta sociedade e com políticos. Meus pais só podiam me ver uma vez por ano. O externato era um colégio de aplicação da PUC também para alunos da rede particular. Tínhamos contato com professores renomados de piano, de balé etc. E lá tínhamos responsabilidades, pois cuidávamos das crianças menores. Era a nossa casa. Quando terminei o segundo grau, disse a mim mesma: “Vou fazer Medicina de qualquer jeito”. Pensei que eu ia continuar morando no colégio quando meus pais vieram me buscar e voltei para a minha casa em São João de Meriti. Chegando lá, as coisas estavam difíceis. Tentei arranjar emprego, mas não conseguia nada. Foram 11 anos “fora do mundo”. Aí, consegui morar na casa de uma das benfeitoras do colégio para prestar o vestibular.

Como foi seu ingresso na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)?

No final do ano, fiz a prova, mas não passei, fiquei como excedente. Fiquei deprimida, porque as pessoas me desanimavam: “Vestibular para quê? Você é mulher, pobre, não vai conseguir emprego mesmo”. Fiquei desesperada, mas pensei que não gostaria mais de morar na casa dos outros porque eu cobrava muito de mim. Mas dei sorte, pois o marido dessa benfeitora era advogado da Casa de Saúde Dr. Eiras. Então ele pediu ao gerente, o senhor Plácido, se podia arranjar um emprego para mim e se eu podia morar lá. Como não tinha ninguém morando na Casa de Saúde, consegui o emprego e morava no porão. Portanto, trabalhava durante o dia e à noite estudava para o vestibular, sem cobrança alguma, por dois meses. Chegou o final do ano e prestei vestibular de novo. Imagina o pânico: e se eu não passasse? Mas eu passei em 18° lugar para a UFRJ e continuei morando no mesmo lugar. Ao entrar na faculdade, vários caminhos se abriram.

Por quais desafios você passou durante o curso de graduação?

Tinha dificuldades para comprar livros, mas estudava na Biblioteca Nacional. De repente, fiquei doente. Peguei tifo quando já estava no terceiro ano da graduação. Um dos benfeitores do orfanato, o Tio Jaime, costumava me visitar e sempre me ajudava com cinco cruzeiros. Ele, que me conhecia desde pequena, tomou um susto com a minha doença. Ele perguntou a sua mulher se eu podia morar na casa deles e fui morar com eles em Botafogo enquanto esperava uma vaga em um pensionato. Eu ganhava cem cruzeiros, mesmo valor do pensionato. Não tinha como pagar. Até que, em um dia, esse meu tio postiço, no dia do aniversário dele, contou para mim que tinha um problema: estava com câncer. Alguns meses depois, ele faleceu. Eu pensei: “Agora eu preciso ir para outro lugar”. Foi quando a esposa dele, a Dona Zuzu, me disse: “Agora eu que não fico sem você”. Meus pais moravam muito longe e eu não tinha condições de ir e voltar da faculdade todos os dias. Condução de pobre era ruim desde aquela época e eu também não  tinha dinheiro. A Dona Zuzu era um amor. Eu adorava Coca-Cola e ela sempre me oferecia o refrigerante geladinho. Então morei com essa senhora até o dia em que ela partiu. Ou melhor, nós duas nos cuidamos até o dia em que ela foi embora.

Quais as diferenças entre as residências médicas da sua época e as de hoje em dia?

O prédio da UFRJ, na Praia Vermelha (zona Sul do Rio), era um deslumbre. Havia disciplina e respeito. Os alunos levantavam quando os professores entravam em sala. Ficávamos ao lado do professor querendo aprender cada vez mais. Éramos 180 alunos, sendo apenas 18 mulheres, mas com muito respeito. A faculdade era a casa da gente, mas não tínhamos a tecnologia de hoje. Por isso, não havia tempo para brincadeira. O professor Magalhães Gomes, mestre em Cardiologia, notou que eu tinha tanto interesse, que me ofereceu um curso pela Santa Casa, exclusivo para médicos formados. Lá fui eu, cheia de pose, e nem era formada ainda. Mas eu não queria falhar, então estudava cada vez mais. Acho que hoje as coisas ficaram muito mais fáceis. Isso não é bom. Em qualquer coisa que você faça, é preciso ter líderes, modelos. E não confundir firmeza com arrogância. A hierarquia faz muita falta hoje em dia.

Por que o interesse em escolher a Cardiologia?
Naquela época, cursávamos todas as especialidades médicas. Fiz Neurologia com o Dr. Ackerman e com Paulo Niemeyer. De repente, resolvi que queria fazer Cardiologia. Fiz dois concursos para hospitais públicos: um para Nefrologia do Estado e outro, para Cardiologia Geral e Terapia Intensiva, do Governo Federal. Durante um plantão, ninguém sabia como proceder em caso de cardiopatias infantis. Hoje em dia é muito comum, mas naquela época não era. Chegou um bebê ao hospital. Ele faleceu e ninguém sabia o porquê. A partir disso, decidi que queria me dedicar exclusivamente à Cardiologia Pediátrica.

Como foi a experiência de fazer especialização em Cardiologia Pediátrica em Londres?

Consegui contato com a médica Jane Sommerville, na Inglaterra, sem saber Inglês nenhum. Ela me disse: “Pela primeira vez recebo uma cardiologista interessada em cuidar de crianças, então vou te ensinar como conseguir dinheiro para vir para cá”. Eu tinha muito pouco dinheiro, mas fui até ao British Council prestar concurso. Não passei de primeira, porque não sabia inglês. Entrei em desespero e fui embora aos prantos, pois o requisito básico era saber o idioma. De repente, recebo uma ligação da secretária permitindo que eu fizesse a prova novamente. Ela me disse: “Venha tentar a prova de novo, porque a mulher do cônsul adoeceu e o cônsul que está chegando é novinho e não vai querer prejudicar ninguém”. Por que a moça da recepção foi falar isso pra mim? Olha que espetáculo! Chegando lá, o cônsul notou que eu não sabia falar Inglês. A primeira pergunta foi sobre as favelas: “What do you know about slums?”.Tentei responder o que era possível, desci e aguardei a resposta. Minutos depois as moças da recepção comemoraram comigo: “Você passou!”. Disse ao cônsul que não sabia falar Inglês, mas que tinha um Fusca que minha tia tinha deixado de herança e que venderia o carro para pagar um curso de Inglês. Mas uma das secretárias me disse para ir para a casa. Dias depois recebi uma carta dizendo que tinha sido aprovada e que eles pagariam dois meses de curso de Inglês. Foi inacreditável! Depois voltei para Londres apenas para fazer a especialização em Cardiologia Pediátrica. Não tinha de dar satisfação a ninguém. Meus pais não podiam me ajudar, então eu só queria estudar e tinha muitos sonhos.

O que a conduziu durante esse período?

Tenho uma religiosidade muito forte. Quando se perde um paciente, nos reunimos em equipe para responder aos questionamentos: a morte do paciente podia ser evitada? Houve erros? Dessa forma, aprendemos para não rescindirmos no mesmo erro e, assim, crescemos individualmente. Aos 11 anos fui para um orfanato. Estudava em um colégio onde também estudavam meninas ricas. Tive oportunidade de observar como a bailarina Dalal Achcar se portava. Esse estímulo não só intelectual, mas do “colorido”, faz você sonhar. As crianças hoje em dia perderam a noção de sonhar. Passam o dia inteiro na frente do computador e da televisão. Pra onde foram os sonhos? Talvez elas não almejem pelo fato de tudo estar ao alcance delas. Podia ter parado na metade do caminho, mas não parei. Nem por isso fiquei amarga, assumi muitas responsabilidades e não tenho mágoas com ninguém. Sempre fui respeitada e prestigiada, pois acreditava que estava fazendo a diferença. Você tem de brigar, sim, mas por causas, não por coisas.

Para tornar-se uma especialista foi preciso fazer concessões ou adaptações na vida pessoal?

Não permiti que nada nem ninguém me atrapalhasse. Sempre estudei muito e dei muitas aulas em congressos, além dos plantões em dois hospitais. Foi preciso ter muito foco, disciplina e abrir mão do lado social, das festas. Quando segui para o exterior, já tinha em mente que deveria estudar o tempo todo. Se não fosse embora, acabaria me tornando “escrava das pessoas”. Viajei para a Inglaterra com a bolsa de estudos que conquistei, com pouco dinheiro e com poucas roupas. Mas tinha muito foco e determinação. Sempre sonhei com coisas maiores e coloridas. Não dei ouvidos às pessoas. Diziam-me: “Por que você vai viajar? Vai largar o emprego público da sua vida no Hospital da Lagoa?”. Como não tinha completado dois anos na instituição, perdi a matrícula. Não sei como Deus me deu essa força, mas mesmo assim fui embora. Meu marido era alto funcionário público, no entanto, segui minha trajetória. Às vezes, visitava paciente às 2 da manhã e ganhei o apelido de “Dama da Madrugada”. Ia para casa, via meus filhos e depois visitava meus pacientes. Nunca dei a entender que minha profissão era uma obrigação. Meus filhos entenderam esse posicionamento. Sempre tiveram essa consciência desde pequenos e foram educados para cuidar uns dos outros. É preciso dar exemplo aos filhos. É um prestígio para a mulher, que tem a profissão como a minha e é chefe de equipe, tornar-se uma referência. Meu despertador toca todo dia às 6 horas e só vou dormir quando concluo tudo o que tinha para fazer. Nunca tive empregos, mas responsabilidades. Estou onde estou sendo útil e não tenho tempo para ter conversa fiada.

Já houve alguma situação, principalmente no início da carreira, em que você tenha percebido preconceito entre a classe médica? Como lidou com ele?

Naquela época, era comum o preconceito com uma mulher pobre e pequena, mas depois não houve mais nenhuma situação parecida. Quando fui para a Inglaterra, perguntavam a qual família eu pertencia. Não tinha sobrenome: eu era a Rosa Célia – e hoje sou uma “instituição”. Mas ao chegar à casa de convidados, eu sempre me colocava à disposição para ajudar em alguma coisa. Fui a primeira mulher intensivista do Hospital Miguel Couto. Mulheres devem ter postura e dignidade. Preconceito sempre existiu e vai existir. Lembro-me de ter ouvido que eu parecia um homem e que era diferente das outras mulheres. Naquela época, não havia muitas mulheres que se diferenciavam na Medicina. Várias vezes tentaram me dar rasteiras em eventos como congressos, mas nunca me fiz de vítima. No livro The four agreements (Os quatro compromissos), o autor Don Miguel Ruiz, também médico e cirurgião, cita quatro atitudes que você deve praticar na vida: seja verdadeiro com sua palavra; não se faça de vítima; não culpe o outro sem antes ter certeza; e faça o melhor sempre. Essa é a vida. Já risquei do meu vocabulário as palavras “e”, “se” e “acho”. A vida é um aprendizado e temos de fazer tudo para não perder a capacidade de ser feliz.

Como foi implantar o departamento pediátrico do Hospital Pro Cardíaco?

Em 1989, eu me aposentei do serviço público e não havia ainda o departamento pediátrico no hospital. Terceirizei meu consultório e segui para Boston em um ano sabático para me requalificar. Dessa vez, fui com a minha família. Passei seis meses de intensos estudos no Children’s Hospital Medical Center para me aprofundar em novas técnicas para o tratamento das doenças cardíacas da criança. Ao voltar para o Brasil, em 1990, reassumi minhas funções, sugeri a implantação do departamento pediátrico à direção do Hospital Pró-Cardíaco e instalei a clínica particular bem próxima do hospital, em Botafogo. Foi difícil, mas conquistamos nosso espaço. Criei um sistema chamado de “pacotes”, no qual incluía todos os procedimentos aos convênios para igualar os valores. Tanto faz se era aqui no Brasil ou na Europa, o preço era um só. Então pude atender desde convênios mais básicos até os mais caros. Em 1996, consegui realizar o sonho de criar uma clínica destinada aos menores carentes: o Pro Criança Cardíaca. Atendia as crianças no meu consultório e os procedimentos invasivos eram feitos pela nossa equipe no Hospital Pró-Cardíaco. Não pensava em sair de lá, mas, em 2007, houve uma expansão, que ocasionou o encerramento do departamento pediátrico. Surgiu então a iniciativa de construir um hospital, uma ideia completamente louca. Foi dificílimo conseguir terreno e dinheiro. Até que o nosso patrono, Antônio José de Almeida Carneiro, disse para eu arranjar o local, que ele daria o primeiro cheque. Rodei o Rio de Janeiro inteiro por seis meses até que encontrei um prédio velho em frente ao Hospital Pró-Cardíaco e comprei. Ao lado desse prédio havia outra clínica e todos pensavam que eu ia emendar o terreno. Até que, em uma noite, resolvi pôr o prédio abaixo. Todo mundo ficou doido. Agora o departamento pediátrico sairá do Hospital Pró-Cardíaco e ocupará todo o prédio do Hospital Pro Criança Jutta Batista. É um pouco confuso, né? Uma pessoa tão pequena inventando tanto (risos). Tivemos sorte, pois há quatro anos a Amil comprou o Pró-Cardíaco. Se ela tivesse comprado antes eu não teria conseguido o hospital. É muita responsabilidade, mas Deus sabe o que faz.

Qual a importância desse trabalho de responsabilidade social para você?

Antes dessa entrevista, recebi uma ligação de que um recém-nascido nasceu em um hospital público com um bloqueio no coração. Lá não estão conseguindo nem fazer um eletro. A criança precisa colocar um holter para checar se ela está bloqueada mesmo. Ela já está sendo encaminhada para colocar o holter, depois a mando de volta para o hospital e aguardaremos o resultado. Se eu tenho toda uma estrutura e uma equipe, por que não posso atender a uma criança cardíaca carente? Não imaginei que fosse tomar essa proporção tão grande, mas a população cresceu e não tenho a menor dúvida de que aumentaram também as cardiopatias complexas. No meu consultório, nunca atendemos menos de 30 pacientes por dia. São 150 por semana, no mínimo. É difícil para o governo dar conta disso tudo. Todos nós temos problemas, mas precisamos estar em sintonia. Precisamos de líderes que tenham respeito e ética. Esse trabalho é importante para todos. Estamos aqui de passagem. Quanto mais fizermos para os outros, somos nós que ganhamos. É um projeto ousado, insano, mas é o resultado de um trabalho feito com respeito, determinação e perseverança.

Recentemente o Hospital Pro Criança Jutta Batista foi inaugurado, mas ainda não está funcionando. Quando isso deve acontecer?

O hospital já está pronto e equipado. Sempre tivemos o apoio do governo e de empresários. Recebi ajuda de muita gente. Sem elas não seria possível a construção. No momento, estamos em processo de legalização e de levantamento de capital de giro para não interromper o atendimento que faremos no hospital. Ele não é só destinado a crianças cardíacas carentes. É um hospital pediátrico geral e atenderá convênios e consultas particulares. A intenção é diminuir as filas de espera por atendimento. Formaremos uma equipe que continuará captando recursos para mantermos o padrão que alcançamos. Contarei com os melhores especialistas. Meu sonho é trazer os melhores cirurgiões do Children’s Hospital Medical Center para trabalhar com a equipe. Quanto mais gente boa, melhor. O Hospital Pro Criança Jutta Batista é um caso de sucesso, considerando o padrão, o local e a estrutura.

Você acredita que falta hoje na Medicina a valorização da essência da profissão, o “ajudar o próximo”?

A Medicina é uma profissão muito delicada. Lidar com a doença em crianças é muito difícil. Mas alguém precisa fazer esse trabalho. Em qualquer profissão, é preciso ter responsabilidade. Não acredito em coisas de massa, tudo está ligado ao indivíduo. O ideal é que você trabalhe em uma instituição onde você tenha supervisão, lideranças e requalificação profissional e pessoal, independente da sua religião. Você precisa perceber seus erros e melhorar como ser humano. Se você tem ética, todo o seu entorno melhora. Acredito muito na força daquele que está lá em cima porque sei que a Medicina não é brincadeira.

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