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Glosa Médica: como evitá-la?

glosa médica

No dia a dia, os profissionais da Saúde precisam lidar com situações de todos os tipos. Em alguns casos, o paciente chega ao consultório, apresenta a carteira do seu convênio, realiza um procedimento e deixa o consultório com seu problema resolvido. Porém, para o médico, essa não é a realidade.

Ao final do processo, é preciso enviar uma solicitação de prestação de contas para que as operadoras de saúde possam reembolsar o prestador. Nesse trâmite, porém, o médico pode encontrar um obstáculo: a glosa médica.

Glosa é toda cobrança efetuada que não coincide com os acordos e as regras firmadas entre o serviço contratado e a empresa contratante. Na área da Saúde Suplementar, a glosa médica ocorre quando o plano de saúde suspende o pagamento de serviços contratados, como consultas, atendimentos, medicamentos, materiais ou taxas cobradas por hospitais, clínicas, laboratórios ou outros profissionais de saúde conveniados, repassando esse custo para os prestadores do serviço.

Operadora versus prestador de serviço

No geral, a relação entre os planos de saúde e os médicos é complexa, principalmente quando o assunto é glosa médica. Para Marcelo Brito, presidente da Federação Baiana de Saúde (Febase), esse relacionamento se torna conflituoso, pois um dos lados sai perdendo.

“A operadora pede que o médico atenda, mas ela deseja que você não atenda, e se atender, que seja pelo menor custo possível, o que nem sempre é viável, dependendo da doença apresentada pelo beneficiário do plano, para que você possa realizar o tratamento ou a recuperação do estado de saúde desse mesmo usuário. Ou seja, não é uma relação na qual os dois lados ganham: é uma relação que para um ganhar, o outro tem que perder”, analisa.

Ao estabelecer o contrato com médicos autônomos ou clínicas, há uma série de critérios que devem ser estabelecidos. De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), é obrigatório formalizar, em contratos escritos entre operadoras e prestadores de serviços, as obrigações e as responsabilidades entre essas empresas. Caso não existam esses documentos, a ANS poderá aplicar as penalidades previstas na Resolução n° 124/2006.

Segundo Rodrigo Andrade, advogado da Confederação Nacional de Saúde (CNS), em muitos contratos, os critérios não são claros. Com isso, as operadoras se reservam o direito de glosar as contas, muitas vezes sem qualquer justificativa. “Por vezes, as operadoras alegam que o material usado no procedimento é mais caro do que o autorizado, outras vezes não dão explicação. Além disso, os critérios, prazos e procedimentos variam de uma operadora para outra, sendo completamente feitos dentro do seu próprio sistema de informações. Como não há prazo para a conclusão da auditoria, o prestador pode ficar esperando anos pelo pagamento da conta, sem previsão de esclarecimento”, alerta.

Glosa Médica no dia a dia

De acordo com um boletim divulgado pela Federação dos Hospitais, Clínicas, Casas de Saúde, Laboratórios de Pesquisas e Análises Clínicas e Demais Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (Fehoesp), em março de 2018, 90% das clínicas médicas sofreram com glosas praticadas por planos de saúde.

Márcia Massari, gerente de contas médicas do Hospital Prontobaby, no Rio de Janeiro, revela que as glosas mais comuns são as administrativas, pois dependem do correto cadastro do paciente no sistema, como matrícula, solicitações de autorizações e senhas, o que frequentemente gera erros.

“Para evitar essas situações, temos sempre que verificar se todos os dados do paciente estão corretos, além de conferir se as guias estão devidamente assinadas e preenchidas, e enviar também documentação comprovando a realização dos procedimentos cobrados e justificativas técnicas, quando necessário”, resume.

Para Brito, outro tipo de glosa comum é em relação a valores. “Há uma tabela determinada em contrato, e a operadora, por alguma razão, passa a dizer que aquele valor acordado ficou desatualizado. Com isso, ela passa a aplicar um novo valor, sem a concordância nem a aceitação por parte do prestador de serviço”, exemplifica.

A fim de evitar essas situações, o médico aconselha: “O que se pode fazer é ter muito cuidado na confecção da fatura e ter uma equipe absolutamente preparada para isso, além de ter um sistema de informática de faturamento robusto, para que o médico possa apresentar a fatura”.

Segundo Márcia, a agilidade do prestador de serviços também pode auxiliá-lo no ato de recorrer de uma glosa. “Quanto mais rápido ele analisar as glosas e fizer o recurso, mais rápida será a resposta do recurso. Existem várias formas de realizar os recursos, que são determinadas pela operadora: por meio do próprio site da operadora, por planilhas em Excel, por telefone, presencialmente e outros meios”, afirma.

Tecnologia em foco

Usar a tecnologia também tem se mostrado uma ótima forma de evitar as glosas. “Antigamente, os recursos eram, em sua maioria, presenciais. Hoje, com avanço da tecnologia de informação, a maioria dos recursos são feitos pelo site da operadora, ocorrendo mais agilidade e otimizando tempo”, constata Márcia. A tecnologia melhora a troca de informações e ajuda a organizar dados, otimizando a rotina de consultórios. A implantação de prontuários eletrônicos é um bom exemplo dessa ferramenta.

Essas plataformas reduzem de maneira significativa o número de erros e deixa as informações mais claras, além de padronizar os processos. “A própria ANS determinou um critério de apresentação de glosas, um formulário eletrônico padronizadoPorém, a maioria das operadoras não implementou o arquivo. Ou seja, elas não têm interesse em justificar essa glosa, pois permite ao prestador apresentar recursos ou acirrar o relacionamento se a glosa for indevida. Podendo ele exigir o pagamento integral, sob pena até de uma rescisão contratual”, sustenta Brito.

Tipos de Glosa

  • Administrativa: é caracterizada por processos administrativos incorretos, como erros no preenchimento do número da carteira do beneficiário ou do código de um procedimento, realização de um serviço não coberto pelo plano, falta de assinatura do paciente ou do médico na ficha clínica, entre outras situações.
  • Técnica: está associada à necessidade de um auditor para avaliar procedimentos cobrados sem argumentação técnico-científica, como descrição incompleta da assistência de enfermagem prestada no prontuário do paciente, anotações realizadas a lápis e utilização de um procedimento diferente daquele autorizado pelo plano.
  • Linear: são recorrentes de uma postura unilateral dos convênios ou planos de saúde e podem caracterizar prática irregular e possibilitar visita técnica e outras medidas regulatórias por parte da ANS.

Orientação jurídica

Como recorrer de uma glosa médica?

O prestador precisa buscar o Poder Judiciário, para que seja declarado o abuso dessa prática e para a operadora ser condenada a pagar pelos serviços.

É uma situação complicada e nem sempre recomendável, pois as operadoras são verdadeiros gigantes e, na maioria das vezes, a maior parte do faturamento desses profissionais decorre do atendimento pelos planos de saúde. Isso significa que, para o prestador, o vínculo com a operadora faz toda a diferença para sua sobrevivência, mas a recíproca não é verdadeira: a operadora pode descredenciar o profissional quando quiser, e isso não a afetará.

As operadoras descredenciam os médicos devido às glosas?

As operadoras não descredenciam por glosas reiteradas. Para elas, não faz diferença, já que simplesmente suspendem o pagamento e, se pagarem meses depois, não incluirão juros nem atualização financeira. As operadoras apenas ameaçam descredenciar os profissionais se eles questionarem muito ou se buscarem o Judiciário contra elas.

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Como o Facebook pode ajudar na carreira médica

Quando falamos de rede social, a primeira que vem à cabeça de muita gente é o Facebook. Com a maior base de usuários entre todas as redes, a mídia social fundada por Mark Zuckerberg dominou a internet no início da década passada e transformou a interação entre indivíduos ao redor do mundo.

A mídia social vem evoluindo cada vez mais nesse sentido, facilitando a criação de páginas e simplificando os processos de promoção de conteúdo. Observando isso, é possível afirmar que os médicos não podem ficar fora dessa tendência mundial. Afinal, todo consultório, clínica ou hospital é um negócio e precisa ser divulgado corretamente para atrair novos clientes e aumentar os lucros.

Perfil ou página no Facebook?

Para facilitar os objetivos de cada pessoa ou empresa no Facebook, a rede segmentou as funcionalidades entre perfil e página. Coordenador de marketing da agência On Marketing Digital, Rafael Braz explica a diferença entre as duas modalidades da mídia. “O perfil é uma página pessoal, na qual o usuário define os amigos que terão em sua rede, as comunidades que participa, publica a sua rotina, seus acontecimentos de vida, entre outras informações.

A página, por sua vez, é usada pelo usuário que quer divulgar sua marca ou de terceiros, propagando conteúdos públicos com o objetivo de captar clientes para o seu negócio por meio das curtidas e envolvimento nas publicações”, elucida.

Rafael, contudo, lembra que toda página deve estar atrelada a um perfil, isto é, o primeiro passo para construir um espaço de divulgação do negócio no Facebook é a criação dessa página pessoal. “No Facebook, para você ter uma página, é necessário ter um perfil como administrador dela”, esclarece.

Além disso, o Facebook não permite que a divulgação do conteúdo profissional seja no perfil, tornando o usuário passível de punição. “O Facebook não orienta que o perfil seja usado para esse tipo de conteúdo, já que as funcionalidades para a divulgação do seu negócio serão limitadas.

Por exemplo, no perfil, não é possível criar certos posts que a página já permite, além da questão do patrocínio, que, hoje em dia, é muito recomendado a todas as páginas. Caso o Facebook identifique um perfil de empresa ativo, ele pode ser desativado”, alerta.

Relevância digital

Não há dúvidas que um bom posicionamento digital pode render frutos ao médico. No momento de marcar a consulta, o paciente busca informações diversas sobre o profissional com conhecidos e também nas redes sociais.

A importância da presença médica nas mídias digitais (Foto: Shutterstock )

Para Rafael, a presença no meio digital é fundamental na hora de escolher o especialista. “O médico não deve estar apenas no Facebook, mas também no LinkedIn, Instagram e em outras redes dedicadas à área médica, como o Doctoralia. Hoje, antes de marcarmos uma consulta, já jogamos o nome do médico no Google para saber mais sobre a avaliação dele por outros pacientes. Ou seja, não estar presente nas redes não cria, para o médico, uma relevância digital, que é importante e considerada essencial no momento de escolha do paciente”, ressalta.

Conteúdo de valor

Atrelado a tudo isso, ainda existe a necessidade de fornecer um conteúdo de qualidade para o paciente. Ele precisa identificar os valores necessários para interagir com as publicações e seguir a página em questão. Pensando nisso, Rafael exemplifica alguns modelos que podem ser utilizados pelo médico na hora de produzir temas relevantes.

“Foque em conteúdos explicativos sobre temas da área. Mostre a interação com pacientes, depoimentos, tire dúvidas comuns que costumam surgir no consultório. Dê preferência para que esses conteúdos sejam em vídeos e fotos. O usuário atualmente está ocupado demais para ler artigos e grandes textos. Precisa ser rápido e direto”, recomenda.

Avanço na carreira

Com uma equipe especializada para administrar sua página no Facebook, o angiologista e cirurgião vascular Diogo Di Battista decidiu investir no marketing digital para ampliar o alcance entre os seus pacientes. “A página no Facebook, para mim, foi uma forma de conseguir me comunicar de maneira mais ampla com meus pacientes e até futuros pacientes, lembrando sempre que as mídias sociais não substituem a consulta médica”, explica.

Apesar da equipe por trás do conteúdo da página, Diogo ajuda a planejar os temas e tudo que será publicado no espaço virtual. De acordo com ele, o atendimento dos pacientes continua sendo prioridade. “As minhas publicações são planejadas em conjunto com uma equipe, uma vez que fazer tudo sozinho me demandaria um tempo que eu prefiro passar atendendo e cuidando dos meus pacientes”, destaca.

Embora exija tempo e investimento financeiro, Diogo recomenda a todos os seus colegas de Medicina o investimento em marketing digital, especialmente no Facebook. “É uma ferramenta que, se usada com respeito e sabedoria, pode trazer retorno para o médico e paciente”, alerta.

O retorno já é notável, de acordo com o médico. Para Diogo, a rede social ajuda tanto na parte da educação do paciente quanto na conquista de novos clientes. “O Facebook me ajuda na conscientização de pacientes antigos para outros problemas na área de cirurgia vascular, assim como na procura de novos pacientes pelo meu serviço”, ressalta.

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A presença das mulheres na Medicina

Ao longo da história, algumas profissões foram consideradas tradicionalmente masculinas, como é o caso da Medicina. Para as mulheres – por muito tempo impedidas de estudar, tendo seu intelecto subestimado –, restava somente o sonho de poder, um dia, atuar nessas áreas e construir uma carreira profissional.

Com o tempo e com a ajuda do Movimento Feminista, as mulheres passaram a mudar esse cenário, ultrapassando os limites impostos pela sociedade. Desde então, na Medicina, é possível observar mulheres se tornando cirurgiãs, pediatras, cardiologistas etc.

No Brasil, além da crescente predominância feminina na população geral, também é possível observar uma maior presença das mulheres no mercado de trabalho. A ascensão da presença feminina também está refletida na Medicina brasileira – fato que pode contribuir para a evolução da profissão e qualidade da assistência.

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado em março, a matéria principal da segunda edição da Revista DOC, em 2019, contou com a participação de cinco médicas que apresentam seu olhar a respeito da presença das mulheres na Medicina. Confira, ainda, dados sobre a evolução da presença feminina na carreira médica, destaques sobre contribuições importantes feitas por mulheres na profissão e pioneiras que marcaram a história da Medicina.

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Evolução do número de médicos entre 1950 e 2017, conforme sexo, no Brasil

 

Feminização da Medicina

Atualmente, os homens ainda são maioria entre os médicos brasileiros. Os dados da Demografia Médica do Conselho Federal de Medicina (CFM), publicada em 2018, apontam que, dentre os 414.831 profissionais da Medicina em atividade, 225.550 são homens (54,4%) e 189.281 mulheres (45,6%). Além disso, em apenas dois estados brasileiros a presença feminina entre os médicos é maior que a masculina: Alagoas, com 52,2%, e Rio de Janeiro, com 50,8%.

Contudo, essa diferença na distribuição de médicos e médicas vem caindo a cada ano – fato que aponta para uma feminização da Medicina no país. No Brasil, a população feminina vem crescendo e, desde 2010, ela é maior que a masculina. Além disso, na Medicina, desde 2009, entre os novos médicos registrados, há mais mulheres que homens. A presença feminina predomina entre os médicos mais jovens, sendo 57,4%, no grupo até 29 anos, e 53,7% na faixa entre 30 e 34 anos.

Nesse contexto, a cardiologista pediátrica Caren Viana destaca que o processo de feminização da Medicina não tem como único fator o emponderamento feminino, apesar de contribuir. “Acredito que essa mudança no perfil demográfico do país seja um fator importante nessa situação.

Por conta do aumento de número das mulheres na Medicina, temos conquistado sim um espaço maior na profissão. Porém, existem diferenças nas especialidades. Enquanto em algumas delas as mulheres se encontram em peso, em outras é mais difícil observar a presença feminina”, analisa.

Karina Oliani, especialista em Medicina de Emergência e Resgate em Áreas Remotas, considera que, assim como em outras áreas profissionais, a Medicina vem abrindo espaço para as mulheres na profissão. “Não serei hipócrita a ponto de negar que existe discriminação de mulheres em diversas áreas dentro do universo da Medicina, mas vejo que o progresso está acontecendo. Consigo observar no dia a dia e na presença em congressos e eventos na área que a presença feminina vem aumentando”, destaca.

A pediatra Carolina Monteiro acredita que as mulheres vêm conquistando seu espaço de maneira expressiva não apenas na Medicina, mas em todas as profissões. “O movimento de feminização da Medicina vem tomando força na última década, reforçado também pelas tendências de empoderamento feminino. De fato, as mulheres estão, cada vez mais, ocupando cargos de liderança e sendo reconhecidas por seu excelente trabalho no meio médico”, pontua.

Para Gláucia Moraes, presidente da Federação das Sociedades de Cardiologia de Língua Portuguesa (FSCLP) no biênio 2016-17 e atualmente coordenadora do programa de pós-graduação em Cardiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Medicina pode ser resumida como o ato de cuidar do outro – uma característica tipicamente feminina. “A mulher tem mais capacidade, na maioria das vezes, de entender os seres humanos de forma plena, não apenas em sua condição física, mas também mental e espiritual. Creio que essa seja a razão da crescente presença feminina na Medicina”, avalia.

Além disso, a cardiologista reforça que as mulheres devem buscar seu espaço em qualquer profissão, não somente na Medicina; espaço esse que será alcançado por dedicação, por qualificação profissional e, no caso da Medicina, pela capacidade de aceitar os desafios que a vida médica impõe diariamente, obrigando-as a superar as próprias limitações.

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Distribuição de médicos, segundo idade e sexo, no Brasil.
Fonte: Demografia médica no Brasil 2018. (CFM)

 

Em busca do equilíbrio

Na Pediatria, as mulheres são maioria, representando 73,9% do total de 39.234 especialistas que atuam na especialidade. Para Carolina, a escolha das mulheres por essa especialidade pode ser justificada pela facilidade que as mulheres possuem em criar vínculo com o paciente e seus familiares. “Porém, penso que somos capazes de exercer com primazia qualquer especialidade que quisermos”, sustenta.

Tendo como pré-requisito a Pediatria, a Cardiologia Pediátrica também possui grande presença feminina. Apesar disso, Caren acredita que na subespecialidade a diferença entre homens e mulheres seja menor, principalmente na área intervencionista, onde é observada uma maior presença masculina.

A otorrinolaringologista e presidente da Associação Brasileira de Mulheres Médicas (ABMM), Fátima Alves, constata que em sua especialidade a presença feminina ainda é menor que a masculina. “As mulheres representam 42,67% do total de inscritos na Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF). Mas é possível que observemos uma participação cada vez mais significativa das mulheres nessa especialidade futuramente”, considera.

Na Cardiologia, entretanto, a presença feminina ainda tem um longo caminho a ser percorrido para se igualar à quantidade de homens que atuam na especialidade. Do total de 15.516 cardiologistas brasileiros, apenas 29,9% são mulheres.

Gláucia argumenta que, se levado em consideração o número de professores e coordenadores de programas de pós-graduação, a proporção homens/mulheres é ainda menor, o que mostra que o crescimento de mulheres na Cardiologia tem velocidade menor do que em outras especialidades. “Em contraponto, a proporção de mulheres médicas, como um todo, vem aumentando expressivamente nas últimas décadas, saltando de 22%, em 1910, para 45,6%, em 2017, com predominância das idades mais jovens”, constata.

O olhar feminino

Em artigo publicado na Jama Intern Med, os autores do estudo Comparison of Hospital Mortality and Readmission Rates for Medicare Patients Treated by Male vs Female Physicians compararam as taxas de mortalidade em 30 dias e de readmissão dos pacientes atendidos por médicos homens versus mulheres. Foi concluído que os pacientes que recebem atendimento de mulheres tiveram taxas menores de mortalidade no período de análise. Alguns autores também destacam que o olhar feminino pode ser responsável pela harmonização da relação médico-paciente em diversos aspectos.

Para Fátima Abreu, esses achados sugerem que as diferenças nos padrões de prática entre médicos do sexo masculino e feminino, como sugerido em estudos anteriores, podem ter implicações clínicas para os resultados dos pacientes. “Além disso, outros estudos apontam que médicos do sexo feminino são mais propensos à prática da Medicina baseada em evidências, realizam exames padronizados e fornecem mais cuidados centrados no paciente”, reforça.

Caren Viana concorda que a presença feminina agrega muito à profissão e que o olhar feminino é um diferencial no atendimento aos pacientes. “Nós temos bem aflorado esse lado de cuidar. Não que os homens não tenham, mas são características marcantes nas mulheres. Geralmente, somos observadoras, o que ajuda a traçar uma estratégia eficaz e com uma abordagem mais delicada quando necessário. O paciente consegue perceber isso, o que contribui para uma melhor relação médico-paciente”, considera a pediatra.

Carolina Monteiro acredita que o olhar diferenciado da mulher para o paciente faz com que este se sinta mais acolhido. “Características como empatia e determinação fazem com que as mulheres se destaquem em relação aos homens nessa área e no mercado de trabalho como um todo”, avalia.

De acordo com Gláucia Moraes, as mulheres conseguem apreender e entender melhor a doença em seu sentido mais amplo, que não se resume a sua dimensão física. “Além disso, as mulheres são capazes de minimizar o sofrimento agregado ao processo de doença por ter, habitualmente, maior facilidade em lidar com as emoções e demonstrar maior solidariedade, compartilhando com os pacientes os múltiplos aspectos do adoecimento”, define.

Associação valoriza o trabalho de mulheres na Medicina

Fundada em 1960, a Associação Brasileira de Mulheres Médicas (ABMM) – filiada à Medical Women’s International Association (MWIA) – apoia projetos científicos relacionados à saúde e o bem-estar, de caráter regional nacional e mundial. Desde 2016, Fátima Alves ocupa a presidência da instituição e irá se manter no cargo até 2020. Para a otorrinolaringologista, esta tem sido uma experiência única em sua vida profissional.

As principais áreas de atuação da instituição são:

  • Trabalhar pela igualdade de direitos entre médicos e médicas em todos os aspectos da carreira;
  • Estimular maior participação das mulheres jovens na associação;
  • Promover a oportunidade de encontro técnico-científico, cultural e social;
  • Incentivar as mulheres a cuidarem bem de si para melhor acolher o outro;
  • Discussão da importância das doenças que se apresentam de forma diferente entre homens e mulheres, bem como a elaboração de projetos de pesquisa nessa área, que poderão contribuir com desfechos mais adequados;

Participação de campanhas pelos direitos das mulheres, contra a violência e o assédio sexual.

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Distribuição de médicas no Brasil.
Fonte: Demografia médica no Brasil 2018. (CFM)

Superando obstáculos

Muitas vezes, as mulheres passam por situações de dificuldade e preconceito quando se encontram em um ambiente tradicionalmente masculino, o que é o caso de algumas especialidades na Medicina. Na Ortopedia e Traumatologia, por exemplo, os homens ainda são maioria, e as mulheres representam apenas 6,3% dos 15.598 especialistas. A presença feminina é ainda menor na Urologia, com apenas 2,2% de mulheres dentre os 5.328 especialistas.

Karina Oliani explica que, durante sua trajetória, já passou por algumas situações em que foi preciso saber contornar e respirar fundo para reagir de forma que a situação evoluísse da melhor maneira. “Acho que qualquer pessoa que se encontra em situação de minoria passa por situações assim na vida. Por outro lado, acredito que ‘bater de frente’ nunca é a melhor saída; somos seres racionais, portanto, usar a inteligência e a resiliência que nos foram dadas mostra a habilidade e o preparo para lidar com esses desafios”, sustenta.

Em sua atuação na Pediatria, Carolina diz que nunca presenciou conflitos preconceituosos contra mulheres. Contudo, dentro da Terapia Intensiva Neonatal, algumas dificuldades foram encontradas ao longo do caminho. “Trata-se de um ambiente mais hostil, em que já passei por alguns momentos mais delicados em relação a outras especialidades, mas sempre soube contorná-los com respeito e qualidade técnica”, relata.

Fátima Alves afirma nunca ter observado qualquer discriminação ou resistência, nem por parte de outros profissionais, nem por parte dos pacientes. “Entretanto, já ouvi relatos de colegas mais experientes que romperam barreiras em especialidades nas quais as mulheres não atuavam, principalmente em áreas cirúrgicas, e que conquistaram espaços não habituais na carreira. Acredito que, em qualquer situação, devemos exercer nosso trabalho com ética, dedicação e profissionalismo”, explica a otorrinolaringologista.

Um caminho a ser trilhado

Caren Viana e Carolina Monteiro concordam que, apesar de observarem uma presença feminina importante na Medicina, ainda há muito o que melhorar nesse aspecto. Mesmo com o número crescente de mulheres em diversas especialidades, as pediatras avaliam que algumas áreas ainda são dominadas pela presença masculina – como Ortopedia e Urologia – e que, nessas especialidades, ainda há um espaço maior a ser conquistado pelas mulheres.

Para Fátima, é preciso que exista um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, licença-maternidade, progressão na carreira e a orientação de jovens médicas e estudantes. “Jovens que desejam cursar Medicina devem perseguir seus sonhos pessoais e profissionais, além de atuar no fortalecimento das entidades representativas, buscando alinhamento com outras entidades médicas na luta por melhorias do exercício da Medicina e da saúde da população brasileira. A ABMM estimula as futuras médicas a participar com ideias, projetos, pesquisas e temas a serem desenvolvidos”, sustenta a otorrinolaringologista.

Como mensagem de apoio às jovens médicas e aquelas que já estão na profissão há algum tempo, Karina Oliani define que optar pela Medicina é uma das maiores e melhores escolhas que podem ter feito na vida, uma vez que a alegria da recompensa em poder fazer a diferença na vida do outro não tem preço.

Entretanto, a profissional alerta: “busque sempre o equilíbrio entre trabalho e família, entre consultório, consultas e voluntariado. É preciso reservar um tempo para cuidar de si mesma e da própria saúde”.

Glaucia Moraes reforça que as mulheres devem sempre dar o melhor de si na profissão, buscando melhor remuneração e valorização do papel exercido na sociedade. “É dessa forma que as mulheres poderão obter mais cargos de liderança numa sociedade médica comandada majoritariamente pelo sexo masculino. As dificuldades existem, principalmente para conciliar a vida profissional e a pessoal com sucesso. Porém, não podemos desistir jamais”, define.

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Você sabe como funciona a estrutura da sua sociedade?

Apesar de estarem afiliados a uma sociedade de especialidade, muitos médicos desconhecem a estrutura da própria associação e o que essa estrutura pode trazer de benefícios para sua carreira

Para Vera Fonseca, atualmente presidente da Comissão de Residência Médica da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado do Rio de Janeiro (SGORJ), o grande problema é que muitos profissionais não sabem quais são as funções de uma sociedade de especialidade. “O médico acha que a associação existe só para oferecer um congresso ou um curso e nada mais. As sociedades afiliadas à Associação Médica Brasileira (AMB), que são reconhecidas de fato como tal, têm funções muito importantes”, defende.

Vera, que já presidiu a própria SGORJ e atuou por dez anos como secretária-geral da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), enfatiza que as sociedades existem para garantir o reconhecimento da especialidade e a educação médica continuada. O que acontece, segundo ela, é uma falta de conhecimento do médico quanto a isso. “A gente só ama o que conhece e temos que conhecer o que uma sociedade faz para querer se associar. Com a sociedade, o médico terá sua educação continuada, inclusive em questões como defesa profissional, ética e outros temas”, afirma.

Para cumprir essas funções, as sociedades mantêm estruturas, geralmente, muito parecidas. Abaixo do seu presidente, a sociedade geralmente tem um ou vários vice-presidentes, um secretário-geral (cuja função é ocupada por um médico) e um tesoureiro. De acordo com a estrutura da sociedade, podem existir, ainda, secretários adjuntos e tesoureiros adjuntos. Além disso, há diretores em áreas específicas de atuação da sociedade, como a diretoria científica e a diretoria profissional.

“Todo trabalho que uma sociedade faz é para tentar ajudar o desenvolvimento profissional de seus associados. Por isso, existe uma estrutura organizada. Há um núcleo central, composto pela diretoria, e uma equipe administrativa, formada por profissionais fora da área da Saúde e que garante o funcionamento da entidade. Isso sem falar nas comissões, que se formam para discutir, conversar e propor mudanças sobre um determinado tema, como defesa profissional, eventos, publicações, ética, ensino médico, residência e saúde suplementar”, explica Vera.

Segundo Sergio Meirelles, diretor de Patrimônio da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) e secretário-geral da regional Rio de Janeiro da SBACV, essa estrutura básica se repete em muitas sociedades. “Na SBACV, por exemplo, temos o presidente, o secretário-geral, o tesoureiro-geral e cinco diretores (científico, de Eventos, de Publicações, de Defesa Profissional e de Patrimônio), além de seus respectivos vices”, lista.

O que Meirelles enfatiza, porém, é que, apesar desses cargos serem essenciais para o funcionamento da sociedade, nem todo profissional que assume tais funções está preparado. “Em geral, esses cargos não são remunerados. Essa acaba virando uma atividade totalmente amadora, feita por pessoas não preparadas profissionalmente para isso. O que acontece é um esforço do médico de se adaptar e uma determinação de ser útil para sua sociedade”, acredita.

Estrutura básica das sociedades

Não há um padrão estabelecido que as sociedades de especialidade adotam para definir suas estruturas. Porém, alguns cargos são comuns e podem ser encontrados em grande parte das entidades. São eles:

  • Presidente
  • Vice-presidente (ou vices)
  • Secretário-geral (ou diretor administrativo)
  • Tesoureiro
  • Adjuntos (secretários e tesoureiros)
  • Diretoria Científica
  • Diretoria Profissional (para temas, como defesa profissional, ética e saúde suplementar)
  • Comissões técnicas e científicas
  • Equipe administrativa (secretária e outros profissionais)
  • Assessorias e consultorias externas

Engajamento necessário

Além de conhecer melhor a estrutura da sociedade de especialidade, os dirigentes concordam que há algo que precisa ser mais incentivado junto aos médicos: o engajamento. “Uma sociedade forte enfrenta melhor os diversos desafios que seus sócios encontram no seu dia a dia, principalmente na defesa de seu mercado de trabalho, na luta por honorários médicos dignos junto às fontes pagadoras, em seu aprimoramento científico e no adequado atendimento à população. Mas uma sociedade forte só é possível com o engajamento de quem compõe a sociedade”, defende o diretor da SBACV.

As comissões científicas podem ser uma importante porta de entrada do médico na estrutura da sociedade de especialidade. Muitas entidades precisam de pessoas, principalmente mais jovens, para integrar essas comissões e trazer novas ideias e experiências para debater propostas para serem deliberadas pela diretoria. “Quando se engaja em uma comissão, seja ela técnica ou profissional, o médico tem a oportunidade de participar de um grupo de colegas para uma determinada atividade e, assim, aos poucos, se sente mais capacitado para colaborar com a sua especialidade”, completa Meirelles.

De acordo com o advogado Guilherme Portes, sócio da Portes & Carrada Sociedade de Advogados e responsável pela assessoria de Saúde Suplementar do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o primeiro passo importante para o médico se engajar com a sociedade é, sem dúvida, o conhecimento sobre a própria entidade à qual se associa.

“Na comissão de Saúde Suplementar do CBO, muitas vezes, são encaminhados questionamentos que já foram respondidos no site da entidade. Então, se o associado entrasse no site e entendesse o que faz essa comissão, veria que já existe muita coisa disponível, como pareceres e outros documentos, à disposição dele para consulta.

Nos congressos, tentamos mostrar ao associado o que faz cada comissão do CBO. Mas existe médico associado há 20 anos que nem sabe que existe uma comissão de Saúde Suplementar. Ou seja, as pessoas não usam os recursos simplesmente porque não sabem que eles existem”, lamenta Portes.

Outro ponto que o advogado levanta é em relação às sociedades regionais, cujas estruturas, em geral, são menores que as entidades nacionais. “A experiência que tenho com regionais mostra que muitas não têm autonomia política e econômica para se organizar no mesmo nível da nacional.

Então, a maioria não consegue ter muitos recursos para os associados. Algumas nacionais se aproximam das regionais para oferecer a estrutura que elas não conseguem atender sozinhas. Isso é bom para os dois lados, afinal, a nacional não consegue estar presente o tempo todo em todos os lugares e se faz mais presente por meio das regionais”, explica.

Funções primordiais das sociedades médicas

As sociedades de especialidades possuem funções bem definidas em seus estatutos. Basicamente, toda entidade médica cumpre (ou deveria cumprir) as seguintes obrigações:

  • Ser filiada à AMB;
  • Realizar a prova para conceder o título de especialista;
  • Promover a educação médica continuada;
  • Incentivar o engajamento do associado nas questões relacionados a sua especialidade;
  • Investir no suporte a questões inerentes à prática médica, como defesa profissional e saúde suplementar;
  • Lutar pelos interesses dos seus associados;
  • Realizar periodicamente eventos de atualização, como congressos, simpósios, jornadas e cursos;
  • Quando possível, dar auxílio às sociedades regionais.

Prioridades para os médicos residentes

Não importa se estamos falando de uma sociedade nacional ou regional: o desconhecimento do médico em relação à estrutura das entidades médicas é generalizado. Com isso, falta engajamento de boa parte da classe médica. Uma solução que muitas entidades descobriram e vêm investindo bastante nos últimos anos é no envolvimento maior do jovem médico, ou seja, o profissional que acaba de entrar no mercado de trabalho.

“Essa é uma discussão que se tem e não se encontrou um melhor caminho para isso. Os médicos mais jovens estão interessados em conquistar seu espaço na Medicina. Então, acabam relegando para segundo plano a aproximação com a sociedade de especialidade. Muitas vezes, eles não veem a importância dessas sociedades ou não sabem nem qual é o real papel delas”, critica Guilherme Portes.

Para Sergio Meirelles, é primordial que as sociedades invistam, cada vez mais, no esclarecimento do jovem médico. “É preciso explicar, principalmente, a importância de uma sociedade que defenda sua especialidade e, consequentemente, o defenda em sua prática profissional. Ele deve entender a importância de participar ativamente dessa luta, independentemente se ocupa um cargo”, ressalta.

Vera Fonseca acredita que o jovem médico promove uma “oxigenação” na sociedade médica. Afinal, as cabeças pensantes, em algum momento, precisam sair da diretoria da associação, e elas dão espaço, justamente, para os mais jovens. “O que o médico tem que pensar é o seguinte: de onde vêm as pessoas que chegam à diretoria da sociedade? Pois é: começam como um simples associado, que depois de um tempo começa a doar parte do seu tempo em prol do bem-comum dos seus colegas de especialidade”, diz.

Para o jovem médico, Vera gosta de contar sua própria história de vida para exemplificar. “Recém-formada, me associei e fui chamada para participar de uma comissão. Depois, coordenei uma comissão, fui secretária-geral e presidente de uma sociedade regional, até chegar a ser diretora administrativa de uma sociedade nacional. Tudo isso começou quando entendi que aquele meu trabalho poderia beneficiar muitos colegas e, por consequência, um grande número de pacientes”, resume.

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Telemedicina e o debate sobre o futuro da Saúde

telemedicina

Desde que a tecnologia da informação começou a ganhar espaço em todo o mundo, as distâncias passaram a ser menores. Muitas pessoas imaginam que vivemos, hoje, em uma realidade próxima à dos filmes de ficção científica. Prova disso é que conseguimos falar com quem está distante – até mesmo do outro lado do planeta – em poucos segundos por meio de mensagens, vídeos e áudios em celulares, redes sociais e outros dispositivos digitais.

Já que tudo isso invadiu nosso dia a dia, era de se esperar que também invadisse os consultórios e, de quebra, impactasse na relação médico-paciente. Um termo passou a ser muito falado nos últimos tempos: a Telemedicina.

O debate ganhou mais força depois que uma polêmica resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) foi publicada em 6 de fevereiro. O documento definia o que é a Telemedicina e de que forma ela poderia ser exercida no país, além de regulamentar toda a questão no Brasil.

Porém, a resolução não foi bem recebida pelos conselhos regionais de Medicina (CRMs), que criticaram vários pontos do documento. Devido aos debates que surgiram, o CFM decidiu revogar a resolução em 22 de fevereiro, analisar as sugestões e críticas recebidas e recomeçar o debate para desenvolver um novo documento.

Debate sobre Telemedicina no Brasil

Telemedicina no Brasil

 

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), Sylvio Provenzano, a grande crítica à resolução do CFM é que ela era abrangente demais, sem estabelecer claramente responsabilidades e limites para a Telemedicina.

O Cremerj foi um dos conselhos regionais que mais criticou a resolução. Procurados pela nossa equipe de reportagem, o CFM e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), outro grande crítico ao documento, não quiseram se manifestar, alegando que os debates sobre o tema ainda estão acontecendo.

Provenzano explica que toda a polêmica surgiu porque o CFM publicou a resolução 2.227/2018 sem o parecer dos conselhos regionais. “Havia uma reunião marcada para que os presidentes dos conselhos discutissem a resolução. Mas fomos surpreendidos com a promulgação antes de essa reunião acontecer.

Quando a reunião aconteceu, o que fizemos foi listar uma série de não conformidades que detectamos no texto. Por exemplo: no artigo 4º, não é dito que seria necessária a consulta médica presencial inicial. Então, quem faria essa primeira avaliação? Quem ficaria responsável pelas decisões diagnósticas?”, questiona.

O presidente do Cremerj ressalta que o órgão aceita a Telemedicina como uma realidade já presente na Saúde brasileira e que precisa ser regulamentada o quanto antes. Porém, o que Provenzano defende é que haja um grande debate, envolvendo outros segmentos da sociedade, como advogados, professores e jornalistas.

“A nossa preocupação é com o comprometimento do ato médico. Hoje, o médico é o grande responsável por guardar as informações do paciente. E, na Telemedicina, isso ficaria sob responsabilidade de uma empresa de tecnologia. Como fica o sigilo? Um hacker pode invadir e colocar tudo na rede”, alerta.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde (ABTms), Humberto Serra, a resolução do CFM representaria um grande avanço para a Saúde no Brasil, ampliando o acesso dos serviços médicos à população. “Toda mudança de paradigma tem suas resistências e não seria diferente com a classe médica. Acho que faltam esclarecimentos para romper essas resistências. De qualquer maneira, assim como o Conselho Federal de Psicologia (CFP) já fez, regulamentando o atendimento à distância, essa é uma iniciativa esperada por todos os conselhos da área da Saúde”, afirma Serra, que também é coordenador do Núcleo Estadual de Telessaúde do Maranhão.

Luiz Ary Messina, coordenador nacional da Rede Universitária de Telemedicina (Rute), acredita que a regulamentação do CFM seria uma tranquilidade para um setor que já existe no país há pelo menos 15 anos.

“Como não foi assim, vejo esse momento como uma oportunidade para a classe médica ser confrontada com uma questão ainda pendente. Na década de 1970, isso aconteceu com os bancos, com a automação de processos. O mesmo aconteceu, nas décadas seguintes, com as indústrias. Está na hora de acontecer com a Saúde”, destaca.

Contribuições para o futuro da Medicina

A Telemedicina é definida pela resolução do CFM como o exercício da Medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, educação, pesquisa, prevenção de doenças e de lesões e promoção da saúde.

“Nos tempos atuais, é importante registrar que a Telemedicina é a ferramenta com maior potencial para agregar novas soluções em saúde e que muitos dos procedimentos e atendimentos presenciais poderão ser substituídos por interações intermediadas por tecnologias.

Porém, não se deve esperar que se torne um remédio para todos os problemas de assistência à saúde”, explica Aldemir Humberto Soares, conselheiro-relator da resolução 2.227/2018, em texto publicado em anexo ao documento do CFM.

No mesmo documento, Soares ressalta o quanto a Telemedicina pode contribuir para o atendimento das demandas por saúde em lugares remotos do país “A Telemedicina foi originalmente criada como uma forma de atender pacientes situados em locais remotos, longe das instituições de saúde ou em áreas com escassez de profissionais médicos. Enquanto ela ainda é usada para resolver esses tipos de problemas, ao mesmo tempo vem se tornando cada vez mais uma ferramenta para cuidados médicos. A Telemedicina é uma evolução natural dos cuidados de saúde no mundo digital. A cada dia, torna-se mais indiscutível a capacidade que ela tem de melhorar a qualidade, a equidade e a acessibilidade”, afirma o relator.

Humberto Serra concorda que a Telemedicina tem potencial para solucionar grandes problemas da Saúde no Brasil. “Nos países em desenvolvimento, ela pode ampliar o acesso aos serviços médicos especializados em locais que não contam com especialistas ou serviços especializados.

Também pode atuar na melhoria da qualidade da atenção à saúde, na redução do tempo gasto entre o diagnóstico e a terapia, na racionalização de custos e no apoio à vigilância epidemiológica, auxiliando na identificação e no rastreamento de problemas de saúde pública”, lista o presidente da ABTms.

Dúvidas sobre Telemedicina

O presidente do Cremerj ressalta que a Telemedicina seria uma grande contribuição, sem dúvidas, para a Saúde no país, se houvesse estrutura para tal. “Como posso fazer Telemedicina em lugares remotos do país, onde certamente há dificuldade de conseguir uma banda larga suficiente para compartilhar essas informações em tempo hábil? Se em uma cidade como o Rio de Janeiro, a segunda maior do país, temos problemas com a internet, onde a banda larga fica ‘estreita’ demais e cai, como seria isso no Oiapoque (AP), em Santarém (PA) ou em Quixadá (CE)?”, questiona Sylvio Provenzano.

O dirigente destaca que não se trata apenas de melhorar a estrutura tecnológica, mas questões jurídicas e práticas precisam ser definidas e regulamentadas para que a Telemedicina possa se tornar viável no país.

“Há questões legais e de bioética que vêm sendo discutidas com advogados. Outro ponto: de quem é a responsabilidade e quem recebe por determinados procedimentos? Vou dar um exemplo: especialistas se reúnem em um hospital em São Paulo para assessorar um procedimento de cirurgia robótica em um lugar remoto.

O responsável é o médico que está a distância, disponibilizando conhecimento, tempo e experiência, ou o que está presencialmente assistindo o paciente? Como será o pagamento desses médicos? Quem fica responsável pela segurança das informações? Essas são algumas das perguntas ainda sem resposta”, afirma.

Perguntas sem respostas não vêm apenas do presidente do Cremerj. Para o coordenador da Rute, Luiz Ary Messina, a maioria da classe médica no Brasil não sabe o que é a Telemedicina. “As pessoas têm que ser treinadas sobre isso.

Entre as faculdades de Medicina, você conta nos dedos as que têm alguma disciplina que trata sobre a Telemedicina na graduação. Ou seja, falta conhecimento. Soma-se a isso outras razões, como o receio de parte da classe médica de perder espaço para grandes corporações, muito mais bem preparadas tecnologicamente”, acredita.

Messina, porém, ressalta que a Telemedicina já é uma realidade e cabe ao médico correr atrás para entender melhor sobre o assunto. “O desconhecimento é um problema que pode ser resolvido à medida que os médicos tomem ciência do que se trata e se informem, lendo ou participando de congressos.

A Telemedicina já é uma realidade. As pessoas que não querem entender como é esse processo acabam atropeladas. Em países continentais, como Brasil, Rússia, China, Índia, Estados Unidos e Canadá, é impossível ter um especialista em todas as cidades. Isso é possível com a Telemedicina, mesmo que à distância”, defende.

Modalidades de Telemedicina

  • Teleconsulta: consulta médica remota, com médico e paciente em diferentes espaços geográficos.
  • Telediagnóstico: emissão de laudo ou parecer de exames, com envio de imagens e dados pela internet.
  • Teleinterconsulta: troca de informações e opiniões entre médicos, com ou sem a presença do paciente.
  • Telecirurgia: procedimento feito por robô, manipulado por um médico que está em outro local.
  • Teleconferência: grupo de médicos que se reúne para receber e debater sobre imagens, dados e áudios.
  • Teletriagem: avaliação a distância de sintomas para direcionar o paciente ao tipo de assistência necessária.
  • Teleorientação: declaração para contratação ou adesão a plano de saúde.
  • Teleconsultoria: troca de informações entre médicos e gestores sobre procedimentos de saúde.
  • Telemonitoramento: avaliação da saúde do paciente, evitando ida ao pronto-socorro ou casa de repouso.

História da Telemedicina no Brasil e no mundo

Idade Média – Na Europa, por conta da peste que devasta o continente, é registrado o primeiro caso de Telemedicina da história. Um médico se isola na margem de um rio para atender a distância os pacientes na margem oposta.

Século XIX – Com a invenção do telégrafo e do telefone, o envio de laudos de exames se torna realidade.

1910 – Em Londres, SG Brown inventa o estetoscópio eletrônico, capaz de transmitir sinais por até 50 milhas de distância.

Segunda Guerra Mundial (1939-1945) – Durante o conflito, rádios são utilizados para conectar médicos em diferentes lugares, trocando informações.

Década de 1960 – É criado, na cidade de Norfolk, nos Estados Unidos, um sistema de comunicação entre hospitais. O sistema permite, ainda, a realização de videoconferências entre pacientes e familiares, que muitas vezes estão em lugares distantes.

Década de 1970 – Surge a transmissão de dados para diagnósticos. Um exemplo é a criação de um serviço na Groenlândia para receber suporte de saúde de hospitais da Dinamarca.

1993 – Criada a Associação Americana de Telemedicina (ATA), entidade pioneira do tema no mundo.

Década de 1990 – Surgem as primeiras iniciativas de Telemedicina no Brasil, com realização de laudos de exames a distância e videoconferências.

Décadas de 2000 e 2010 – Cresce a Telemedicina no Brasil e no mundo. Com a evolução tecnológica, criação de dispositivos móveis e democratização da internet, a Telemedicina ganha força para atender, principalmente, pacientes em lugares remotos.

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Fidelidade do paciente: como conquistá-la e mantê-la?

O médico que consegue cativar o paciente, mostrando-se interessado e atencioso, é um aliado fundamental para o sucesso do tratamento. Por lidar com a confiança daqueles que o procuram, é preciso que o profissional tenha empatia e estimule uma boa relação. Isso traz benefício para o paciente, ao proporcionar boas consultas, e para o próprio médico, que se torna reconhecido ao longo da carreira pelo trabalho bem feito. No entanto, há “o algo a mais”, necessário após o momento do contato inicial: como sustentar a fidelidade do paciente?

Conforme o cirurgião plástico Wendell Uguetto, no mercado de trabalho atual, cada vez mais competitivo, é preciso demonstrar autoridade. “Ter uma boa formação e experiência não é mais suficiente para se destacar entre os demais profissionais. Ou seja, não basta ser bom, você tem que ser bom e mostrar isso aos pacientes”, afirma. Ainda que o serviço bem prestado nunca deva deixar de ser o foco, é preciso estar atento àquilo que está no entorno.

Primeiro passo: conquistar o paciente

Comecemos, porém, com um simples questionamento: como fazer comque o paciente tenha uma boa experiência no consultório? A primeira medida que vem à mente do médico é tornar-se um profissional tecnicamente atualizado – o que é, evidentemente, correto e necessário.

Contudo, há outros fatores que contribuem com a percepção de bom atendimento, tanto em relação ao médico quanto à clínica. “Muitas ações podem ser feitas para ganhar a confiança do paciente, desde coisas pequenas – como não ter uma fila de espera que dure horas –, até mesmo promover ações de pós-atendimento”, afirma a especialista em Marketing Médico Mariana Thomaz.

Melhorar os processos do consultório também influencia em uma boa percepção por parte de quem é atendido. Segmentar a base de pacientes, por critérios como idade ou tratamento, é uma ação que pode ser efetiva. “Por exemplo: o paciente iniciou o tratamento hoje e deve retornar em três meses.

Deve-se criar uma documentação para isso, para que não fique só na cabeça. Se não trabalhar com documentação, isso não funciona”, explica o CEO da agência 3xceler, Marcelo Vaz. Ele ressalta que, atualmente, há diferentes softwares e programas de gestão que auxiliam nessa empreitada.

Fidelização do paciente

Mariana Thomaz ressalta a importância de pensar em toda a jornada do paciente, isso é, em todas as etapas do contato com a clínica. Essa jornada pode começar por meios diversos, como anúncios, redes sociais ou pelo telefone.

“Depois do atendimento, algumas ações também podem ser tomadas para aumentar a confiança e mostrar que o médico se preocupa genuinamente com o bem-estar do paciente. Por exemplo, o envio de mensagens ou até mesmo e-mails, para saber como está esse paciente”, detalha.

Ao ponderar sobre os fatores que sustentam a fidelidade do paciente, Wendell Uguetto coloca em primeiro lugar “fazer o nosso trabalho com amor, de forma humanizada”. A empatia, ou seja, colocar-se no lugar do paciente e tentar entender as coisas do ponto de vista dele, faz parte dessa atitude.

“Em seguida, deve-se manter um relacionamento duradouro, lembrando-se de datas especiais, como o aniversário. Não é preciso dar presentes caros, mas enviar uma mensagem de texto parabenizando pela data comemorativa já faz uma grande diferença”, opina o cirurgião plástico.

A importância de manter um site

O cirurgião plástico Wendell Uguetto, que dispõe de sites modernos e funcionais, enfatiza a importância de oferecer conteúdos interessantes ao paciente, com o objetivo de mantê-lo fidelizado.

“O site profissional é o nosso cartão de visita na era globalizada. Um site bem feito e a criação de conteúdo explicativo, por meio de postagens em blogs, mídias sociais e vídeos, têm como papel principal educar o paciente, que consegue esclarecer melhor suas dúvidas sem sair de casa”, afirma.

O CEO da agência 3xceler, Marcelo Vaz, também destaca a importância de o médico manter um site profissional. “Há médicos que acreditam que, se começarem a ter um perfil no Facebook e no Instagram, não precisam de um site.

É uma noção totalmente equivocada”, avalia. É preciso trabalhar o site para que as pessoas não apenas o encontrem em buscas na internet, mas para convertê-las – isso é, além de visitarem a página, preencham formulários e/ou tornem-se pacientes.

Equipe: aliada essencial

Caso o médico disponha de uma equipe que o ajuda a tocar o consultório, esses outros profissionais tornam-se, também, responsáveis pela fidelização do paciente. Marcelo Vaz ressalta a importância de o funcionário sentir orgulho do trabalho que desempenha:“Precisamos mostrar ao colaborador que o paciente sai do consultório sorrindo porque teve uma boa conversa, um bom atendimento. Ele tem que enxergar a essência da empresa”. Segundo o especialista, é preciso mostrar isso para a equipe na prática, e não apenas apresentar os valores e o compromisso da clínica em pôsteres e murais.

Mariana enxerga o assunto de forma semelhante. “Uma clínica que quer começar uma estratégia de fidelização de pacientes precisa ter como um dos primeiros passos o treinamento da equipe”, defende a especialista em Marketing Médico. Enfatizar a importância da comunicação, do atendimento telefônico e do trato com o público são essenciais, e não só para as recepcionistas: profissionais como enfermeiros e até mesmo o pessoal que, a princípio, não lida diretamente com o paciente, como a equipe de limpeza, deve estar a par de como abordar quem busca a clínica.

Mesmo em consultórios de pequeno ou médio porte, frequentemente o primeiro contato do paciente – ou futuro paciente – não é com o médico, e sim com a atendente. “O ideal é sempre trabalhar a questão do carisma, do bom atendimento – uma pessoa feliz, contente, com ânimo ao falar ao telefone. Isso proporciona mais confiança, mesmo para o paciente que ainda não visitou a clínica nem passou pelo médico”, ilustra Marcelo Vaz.

Três dicas para fidelizar o paciente

Depois de o paciente sair do consultório, o trabalho de fidelização não para – na verdade, deve ser intensificado. Veja, a seguir, detalhes que ajudam a encantar o paciente no pós-consulta e em outras situações fora do consultório:

1 – Forneça formas de pagamento flexíveis

Especialmente consultas e procedimentos que têm preços altos podem, no primeiro momento, afastar algumas pessoas. Quando há possibilidade de adequar o modo de pagamento às possibilidades do paciente, ele fica mais propenso a escolher a sua clínica. Com um bom planejamento financeiro, esse cenário torna-se uma ótima oportunidade de negócio.

2 – Faça Workshops e palestras

O contato constante com o público e a sua colocação como especialista na área em que atua são fatores que contribuem com a percepção de que você está acessível e aberto à comunicação. Além disso, é uma oportunidade de deixar mais pessoas informadas sobre doenças, tratamentos e prevenções, ou mesmo dar dicas mais leves, fazendo com que lembrem de você ao buscar uma clínica.

3 – Use um questionário de satisfação

Para avaliar se as suas ações estão sendo efetivas, bem como identificar o que é preciso mudar, deixe os próprios pacientes terem voz. É possível fazer isso tanto enviando um questionário criado no Google Form, por e-mail, quanto pedindo para os pacientes preencherem um papel, anonimamente, ao saírem da consulta. Exemplos de pergunta são: “O que achou do atendimento e da recepção?”; “Como avalia a estrutura física da clínica?”; “Teria sugestões?”. Outra questão muito útil para avaliar o serviço prestado é pedir para o paciente sinalizar o quanto, em uma escala de 0 a 10, indicaria a clínica para um parente ou amigo.

Reportagem por Andre klodja
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Auditoria médica: saiba tudo sobre essa função

A auditoria médica pode ser compreendida como o processo que, dentro de princípios éticos e legais, se propõe a assegurar a qualidade dos serviços profissionais e institucionais, preservando o uso adequado dos recursos destinados à Saúde, visando a assegurar o máximo de benefício, com menor risco e maior eficiência possível.

Considerando que a auditoria se caracteriza como um ato médico, de acordo com Reinaldo Ramalho, consultor em Gestão Estratégica em Oftalmologia e coordenador do Comitê de Diretrizes do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o médico que desempenha a função de auditor de convênios deve apresentar conhecimento técnico, pleno e integrado da profissão. “Dessa forma, em razão do grande avanço tecnológico observado nas diversas áreas médicas, identifica-se no exercício da função, cada vez mais, a figura do auditor especialista”, define.

Além de garantir a qualidade no atendimento, evitando desperdícios e auxiliando no controle de custos, o especialista ressalta que o auditor também tem a função de monitorar periodicamente os resultados dessas ações. “Nessas circunstâncias,o principal desafio para um auditor médico em sua área de atuação é manter-se sempre atualizado frente ao avanço médico-tecnológico, além de construir um bom relacionamento com os prestadores de serviços médicos e buscar a otimização dos processos regulatórios na análise de procedimentos médicos”, avalia.

Modalidades da auditoria médica

Auditoria preventiva: também conhecida como auditoria prévia, tem como finalidade auditar os procedimentos antes que aconteçam, a fim de prevenir não conformidades e glosas posteriores.

Auditoria operacional (concorrente): é aquela que se efetua in loco, ou seja, no próprio prestador. Nesse tipo de auditoria, os procedimentos são auditados durante e após terem acontecido.

Auditoria de contas: é parte integrante da auditoria operacional e caracteriza-se por ser um processo minucioso, realizado, atualmente, por equipes de profissionais multidisciplinares, para a avaliação de diversas informações, como indicação clínica, procedimentos realizados, exames e seus respectivos laudos e/ou imagens e relação de materiais e  medicamentos gastos, e também a avaliação de pertinência de utilização de dispositivos médico-implantáveis (DMI) e/ou materiais especiais.

Auditoria analítica: compreende as atividades de análise dos dados levantados pelas auditorias preventiva e operacional, e sua comparação com os indicadores gerenciais locais e de outras organizações.

O que diz o CFM?

O parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM) 11/1999 define a auditoria médica como o conjunto de atividades e ações de fiscalização, de controle e de avaliação dos processos e procedimentos adotados, assim como o atendimento prestado, objetivando sua melhor adequação e qualidade, detectando e saneando-lhes eventuais distorções e propondo medidas para o seu melhor desempenho e resolubilidade.

O CFM tem o entendimento pacificado de que não pode tolerar qualquer forma de intervenção, seja de quem for, que venha a restringir ou limitar o trabalho assistencial do médico, sob pena de grave infração do Código de Ética Médica e dos princípios fundamentais que os norteiam. Por outro lado, a entidade reconhece que existem distorções, fraudes e desobediências de regras básicas perpetradas por muitos profissionais e instituições que prestam assistência à Saúde.

Na prática: qual o papel do auditor?

Ramalho explica que o auditor recebe a guia de solicitação com a relação de procedimentos médicos solicitados. De posse de tais dados, deve, antes de mais nada, verificar se há cobertura contratual assegurada. Cumprida essa premissa,passa, então, a analisar a indicação clínica (quando registrada) confrontando com o(s) evento(s) listado(s).

A partir daí, existem três situações possíveis:os elementos encaminhados são insuficientes para subsidiar a análise, não justificam a solicitação dos procedimentos ou justificam parte dos procedimentos solicitados.

O auditor, por fim, encaminha seu parecer para o conhecimento do prestador solicitante para as considerações cabíveis. Segundo o especialista, mesmo em caso de divergência técnica, o auditor jamais pode negar o(s) procedimento(s),caso eles possuam cobertura contratual assegurada.

Nessa situação, considerando a resolução normativa 424/2017 da ANS, que dispõe sobre critérios para a realização de junta médica ou odontológica formada para dirimir divergência técnico-assistencial acerca de indicação clínica do profissional assistente que foi objeto de contestação pelo auditor contratado pela operadora, o caso deverá ser conduzido para avaliação de profissional desempatador, com emissão de parecer fundamentado por respostas e quesitos técnicos formulados para o caso em questão.

O médico e o auditor médico

Segundo Breno Caiafa, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular – regional Rio de Janeiro (SBACV-RJ), enquanto o médico assistente promove a atenção direta ao paciente, o auditor médico fica encarregado de avaliar a adequação e o custo dos serviços médicos, o que se concretiza pela análise do cumprimento dos protocolos e das diretrizes médicas emanadas pelas sociedades de especialidades vinculadas à Associação Médica Brasileira (AMB), bem como pelo preenchimento das regras internas das operadoras.

O especialista complementa que, assim como o médico assistente, o auditor médico deve prezar pelo integral cumprimento das normas que regem o exercício da Medicina no Brasil, sob pena de responsabilização nas esferas ética, civil e criminal. “Os profissionais devem, sobretudo, respeitar a autonomia um do outro, sempre com vistas ao bem-estar do paciente. Também é necessário esclarecer que a atuação dos dois profissionais não é conflitante. Pelo contrário: é subsidiária uma a outra, de modo a garantir o equilíbrio do setor e uma atenção à saúde digna para todos”, define Caiafa.

Ramalho avalia que a relação entre o médico prestador de serviços e o auditor médico é pacífica. Todavia, não é raro observar situações de animosidade nesse processo.“O que deve ficar claro, antes de mais nada, é que a auditoria médica não se trata de técnica utilizada para policiamento das atividades dos profissionais da Saúde. Ao contrário, justifica-se como um estímulo à melhoria do padrão de atendimento”, ressalta.

Relação com as operadoras de Saúde

Atualmente,a relação entre médicos e operadoras é complexa. Caiafa analisa que o diálogo entre as duas partes pode ser dificultado pelo excesso de burocracia e, até mesmo, por um sentimento de desconfiança mútuo. Contudo, a manutenção de um relacionamento com as operadoras permite, segundo o especialista, obter a solução de eventuais conflitos de forma mais eficaz, seja pelo contato direto com os auditores ou mesmo com os responsáveis pelos setores de negociação.

Para Ramalho, o que se observa, na prática, é que a maioria dos prestadores de serviços não detém o conhecimento legal necessário em sua área de atuação,sendo leigos no que compete ao conhecimento de normativas, resoluções de processos-consulta e leis que regulamentam o setor de saúde suplementar.

“Por outro lado, de posse de tais conhecimentos, esses profissionais passariam a solicitar ao convênio procedimentos de maneira adequada, acompanhados de contexto clínico necessário ao exercício do processo de auditoria, sendo inclusive capazes de orientar adequadamente seus pacientes em situações de ausência de cobertura”, considera.No caso do paciente,o esforço conjunto do médico assistente com a operadora permite que asa provações das autorizações sejam muito mais céleres e que o trâmite seja mais transparente.

Nesse contexto, quando o médico e a operadora estão em sintonia, o paciente se sente mais confiante em relação ao cuidado assistencial. “Cumpre ressaltar que a proximidade entre o médico, as operadoras e os pacientes colabora para evitar os crescentes casos de judicialização na esfera da Saúde – suplementar e pública –, que, em sua maioria, são decorrentes da insuficiência de informação”, sustenta o presidente da SBACV-RJ

Solicitação de procedimentos e glosas

Caiafa relata que uma das principais dificuldades enfrentadas pelo médico em relação à solicitação de um procedimento é a multiplicidade de regras existentes junto às diferentes operadoras. “Em que pese a edição de normas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para disciplinar as regras gerais aplicáveis nas relações entre médicos e operadoras, inclusive no tocante à formalização dos contratos e da transmissão de informações, fato é que cada operadora ainda mantém regras próprias em seus respectivos manuais”, analisa.

Ainda de acordo com o presidente da SBACV-RJ, a existência de diferentes sistemas, regras e referenciais prejudica o bom funcionamento do setor de saúde suplementar. “No tocante aos procedimentos contratados, verifica-se que são adotados referenciais que muitas vezes estão em desacordo com os procedimentos reconhecidos pela especialidade”, complementa.

Nesse cenário, o especialista também destaca os tipos de glosas mais comuns e como é possível evitá-las. “Enquanto as glosas administrativas e técnicas podem ser evitadas ao conferir mais cuidado no preenchimento das informações e na adoção dos procedimentos autorizados pelas operadoras, as glosas lineares apresentam hipótese distinta, na qual o prestador está à mercê das operadoras, mesmo que tenha cumprido todas as exigências contratuais e regulamentares”, explica.

Em todo caso, Caiafa reforça que é preciso compreender que algumas operadoras incluem, nos contratos, descontos pré-estipulados sobre a fatura, o que deve ser evitado sempre que possível, visto que a resistência das operadoras é algo esperado. Também deve ser observado se o contrato prevê a forma do faturamento e os procedimentos efetivamente acordados entre as partes.

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O médico e as mídias: como essa relação influencia a sua carreira?

Há décadas, o papel do médico não se limita apenas ao conhecimento técnico e uma boa atuação em consultórios. Cada vez mais, os pacientes esperam que o médico seja mais ativo fora do consultório e isso envolve as redes sociais. Desse modo, as mídias no atendimento médico acabam possibilitando a comunicação, o compartilhamento de informações e um alcance maior de potenciais pacientes.

Somando quase 2 milhões de seguidores nas redes sociais, o neurocirurgião Fernando Gomes Pinto é um verdadeiro exemplo de como unir a Medicina às mídias digitais. Além da carreira médica, Gomes Pinto é consultor do programa Encontro com Fátima Bernardes e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). O neurocirurgião conta um pouco de sua trajetória e dá algumas dicas de como se posicionar nas redes sociais para auxiliar na prática médica.

Como tudo começou

A relação de Fernando Gomes Pinto com as mídias começou há mais de dez anos, quando ele se formou e abriu seu próprio consultório. “Assim que terminei a residência médica em Neurocirurgia, comecei a organizar o meu consultório e entender que seria necessário ter um site. Foi, aí, o passo inicial. Organizado por mim, comecei a montar textos, explicando um pouco mais sobre as doenças e isso foi crescendo”, lembra.

Porém, foi durante o doutorado, em 2007, que o médico organizou um grupo de hidrodinâmica cerebral, e, com isso, recebeu um convite da produção do programa Encontro para uma participação para explicar um pouco sobre memória. “A partir daí, tudo deslanchou, com participação em programas de televisão; até que a Globo me chamou para um contrato de participação no programa. Desde 2013, toda terça-feira, participo do programa da Fátima Bernardes, levando um pouco de conhecimento médico e neurociência para toda a população”, orgulha-se.

Mídias na Medicina

Médicos e as Mídias Digitais

As redes sociais estão cada vez mais presentes na vida do médico. Com elas, os profissionais da Saúde têm a oportunidade de levar conhecimento médico para a população leiga. O neurocirurgião acredita que hoje em dia a Medicina e as redes sociais se complementam e fazem parte do mesmo processo.

“É lógico que a participação na televisão me coloca em um papel diferenciado como comunicador, que é diferente de um indivíduo que atende e simplesmente opera, mas tudo faz parte do mesmo propósito, o de ser um consultor, não só de doenças, mas de saúde, para toda a população. Então, tudo faz parte disso: informar a população, formar os médicos residentes e passar informação para os pacientes e seus familiares. Tudo isso faz parte do mesmo contexto”, defende.

De acordo com o especialista, as redes sociais atuam como ferramenta de aproximação entre o médico e o paciente. “As mídias digitais podem ajudar mostrando que o indivíduo é especialista em determinado assunto, levando informações de qualidade, sempre tendo como objetivo principal a verdade, e informar a população seguindo os preceitos do nosso juramento de Hipócrates”, pontua Gomes Pinto.

Apesar dos benefícios do mundo digital, é preciso tomar cuidado com o conteúdo publicado. O Código de Ética Médica proíbe o profissional médico de realizar consultas, diagnósticos ou prescrever por qualquer meio de comunicação em massa. “Existe uma diferença entre marketing e entender que nós precisamos informar a população.

O marketing médico, na verdade, não deve ser feito totalmente por meio das mídias sociais, até porque existe uma série de normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). O melhor marketing que existe para o médico é o bom trabalho e o relato dos pacientes.

Eles, sim, podem fazer a diferença para o profissional, comentando em suas redes sociais. Lembre-se de que, nas mídias digitais, a função do médico é educacional e de esclarecimento”, destaca.

Entre as redes disponíveis, destacam-se quatro: Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn. Porém, apesar da variedade, cada uma delas apresenta uma proposta diferente e tudo depende do objetivo do usuário. “Acredito que o mais importante é o médico identificar com qual rede social ele prefere trabalhar, em qual se sente mais à vontade.

Entendendo que seja algo de relacionamento mais profissional, o LinkedIn acaba sendo o mais indicado. O Facebook é mais popular, com uma liberdade maior para escrever dicas, orientações, além de permitir a introdução de links.

Já o Instagram é mais usado visualmente, com imagens coloridas e rápidas para orientar a população com uma linguagem mais simples e visual”, orienta. Apesar de não ser um fator determinante, Gomes Pinto acredita que o poder das redes agrega valor ao trabalho do médico.

“Quando um indivíduo tem um problema de saúde, ele quer ser bem atendido, quer atenção, quer um profissional que saiba o que está fazendo, que ofereça a ele a possibilidade de melhora. É claro, no entanto, que todos gostam de informação e as mídias sociais oferecem essa possibilidade de informação organizada, gratuita e de valor”, justifica.

Estar presente ativamente nas redes sociais também é uma vantagem para chamar a atenção do público jovem. Uma pesquisa realizada no ano passado pela ONG Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia) revela que 70% dos jovens quase não vão ao médico, por isso é tão importante criar maneiras de captar a atenção dessa parcela da população.

“O público mais jovem entende que, se o médico está inserido no meio midiático, ele sabe do que está acontecendo, dos problemas, das dificuldades e das curiosidades, ou seja, está sempre atualizado e, com isso, seu interesse aumenta”, acredita Gomes Pinto.

Desafios das mídias digitais

Com as tecnologias, a relação médico-paciente tem se tornado cada vez mais complexa. Atualmente, há a presença do chamado “paciente expert”, termo que se refere ao paciente que busca ativamente informações sobre sua doença. De acordo com Gomes Pinto, a liberdade de acesso é uma faca de dois gumes, que pode auxiliar ou atrapalhar o médico em diversos momentos.

“A educação do paciente faz toda a diferença. Hoje, ele pode fazer uma busca sobre sua enfermidade. Porém, não tendo um editor, pela questão da liberdade de acesso aos buscadores como Google, o paciente, muitas vezes, tem acesso a informações falsas ou que não se aplicam a ele ou a seus familiares. Então, o paciente está educado, entendendo que há esse acesso livre à informação, mas que, por vezes, quem dirá qual é a informação correta que se aplica ao caso dele é o profissional da Saúde. Isso é o que faz a diferença”, ressalta o neurocirurgião.

Como se posicionar nas redes sociais?

Como se posicionar nas redes sociais?

Para alcançar seu público-alvo e levar informação de maneira eficiente aos seus pacientes, confira, abaixo, uma série de dicas para se posicionar da melhor forma nas redes sociais.

  1. Fotos e vídeos do ambiente são fundamentais: publicar fotos do consultório e da recepção é fundamental para mostrar ao paciente a estrutura do local. Fotos da equipe e do próprio médico também são bem-vindas. Para o paciente, é muito importante conhecer a aparência do local e de quem vai atendê-lo, pois é uma forma de se identificar com o profissional ou não.
  2. Verifique a fonte de suas postagens: antes de publicar qualquer conteúdo nas redes, é fundamental checar sua fonte para não divulgar notícias falsas. Além disso, esteja atento aos direitos autorais, pois o compartilhamento de vídeos ou fotos de terceiros pode violar os direitos do autor.
  3. Produza conteúdo breve e relevante: para que o paciente entenda o conteúdo com mais facilidade, publique postagens simples e objetivas. Ao utilizar uma linguagem muito técnica, ele pode perder o interesse ou ter dificuldade em entender os termos. Caso queira usar palavras estrangeiras, o melhor é destacar a expressão e logo em seguida traduzi-la.
  4. Fique atento à qualidade da imagem: nas redes sociais profissionais, a qualidade da imagem é fundamental. O Instagram, por exemplo, utiliza imagens como destaque, por isso seus conteúdos devem ser de alta qualidade para que a imagem fale por si só. Da mesma forma, os vídeos também precisam ter uma ótima produção, a fim de passar profissionalismo ao seu potencial paciente e, assim, conquistar a sua confiança para realizar um procedimento ou consulta.
  5. Faça marketing de conteúdo: não adianta aparecer sem ter um bom conteúdo. Produzir conteúdo de qualidade, de forma a se posicionar como especialista dentro de um segmento, é grande a chance de conseguir captar mais pacientes interessados naquela especialidade.

5 motivos para ser digital:

  • Oportunidade de visibilidade;
  • Atingir novos nichos;
  • Interagir e tirar dúvidas dos pacientes;
  • Passar credibilidade e confiança aos usuários por meio de conteúdos e avaliações;
  • Gerar tráfego para o site da instituição.

Ética médica nas mídias sociais

Apesar de ser um ótimo espaço para divulgar seu serviço, as redes sociais possuem regras de uso, permitindo e proibindo algumas atividades. Confira a lista com algumas das permissões e das proibições, de acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM):

É permitido:

  • Publicar foto com seus grupos de trabalho e sua equipe médica;
  • Publicar, de forma comedida, que participou de cursos e de congressos, desde que possa comprovar;
  • Publicar seu endereço de consultório ou clínica, desde que não em matérias científicas e de esclarecimentos da coletividade;
  • Publicar que realiza procedimentos, desde que reconhecidos cientificamente e ligados a sua especialidade;
  • Fazer orientações gerais sobre doenças, sem, no entanto, prescrever ou direcionar suas informações a casos detectáveis.

É proibido:

  • Publicar foto de seu paciente ou em conjunto com o mesmo, fazendo referência a esse vínculo (quebra de sigilo);
  • Publicar foto de “antes e depois” (promessa de resultado);
  • Publicar foto de paciente na sala cirúrgica, relatando o que será realizado ou o que acabou de acontecer (quebra de sigilo, autopromoção e concorrência desleal);
  • Publicar que não existem complicações em seus procedimentos ou que todos os seus pacientes estão satisfeitos (promessa de resultado, sensacionalismo, autopromoção e concorrência desleal);
  • Publicar figuras de modelos ou artistas, vinculando-os ao nome do médico ou à clínica (autopromoção, sensacionalismo e quebra de sigilo).

Raio-X das mídias digitais

WhatsApp: com 1,2 bilhão de usuários no mundo e sendo uma das mídias digitais mais usadas no Brasil, é uma forma de se comunicar com pacientes e com profissionais da área, servindo como uma ferramenta de troca de informações.

Facebook: atualmente, é a maior rede social do Brasil e do mundo, somando mais de 2 bilhões de usuários, sendo 130 milhões apenas no nosso país. Essa é uma das redes mais importantes para sua clínica ou seu consultório se fazer presente.

YouTube: sendo a maior plataforma de vídeos do mundo, o YouTube possui 98 milhões de usuários no país. Como muitas pessoas preferem ver vídeos a ler conteúdos, produzi-los pode ser uma boa estratégia para impactar seus pacientes em potencial.

Instagram: com quase 60 milhões de usuários no Brasil e com o maior índice de engajamento entre as redes sociais, o Instagram é o aplicativo que mais cresce no mundo. A rede é uma plataforma visual, sendo uma oportunidade de postar fotos sobre os bastidores, dia a dia, dos funcionários do consultório ou clínica.

Twitter: a rede, caracterizada por textos curtos e atualizações sobre notícias e novidades em tempo real, reúne 30 milhões de usuários no Brasil.

Snapchat: hoje com 187 milhões de usuários em todo o mundo, a plataforma se destaca pela instantaneidade. Nela, você pode postar vídeos e imagens que ficam no ar por apenas 24 horas.

LinkedIn: é a maior rede social corporativa do mundo e conta com 29 milhões de usuários brasileiros. Por meio dela, é possível criar um forte networking profissional, além de melhorar seu marketing pessoal.

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Telemedicina: tecnologia no diagnóstico médico

O termo telemedicina foi cunhado na segunda metade do século passado, mais especificamente nos anos 1970. Contudo, não é bem demarcado o momento em que as telecomunicações foram empregadas, pela primeira vez, na assistência de Saúde. Sabe-se, porém, que não é um conceito novo – pelo contrário: com a invenção do telefone, conversar à distância com outros profissionais ou obter informações sobre o paciente já eram possibilidades.

Contudo, apesar dos avanços da Medicina e das telecomunicações, ainda há muito campo a ser conquistado nessa área, conforme Frederic Lievens, vice-diretor executivo da International Society for Telemedicine and eHealth (ISfTeH), no ramo há duas décadas. “Mas, mesmo agora, 20 anos depois, a telemedicina ainda não está totalmente integrada à prática médica de rotina em todos os níveis. Então, sim, ainda é parcialmente um conceito do futuro”, analisa. Nesse contexto, é vital a atuação de entidades como a ISfTeH, que visa facilitar a disseminação de conhecimento e experiência em telemedicina e telessaúde mundo afora. Confira a entrevista completa.

Universo DOC: Alguns dizem que telemedicina é um conceito do futuro. Isto é correto, ou podemos dizer que já é uma parte importante do presente? Por quê?

Frederic Lievens: Quando comecei a me envolver no campo da telemedicina, no fim dos anos 1990, dizia-se que a telemedicina estava “bem na esquina” e era “a próxima grande coisa na área da assistência em Saúde”. Mas, mesmo agora, 20 anos depois, a telemedicina ainda não está totalmente integrada à prática médica de rotina em todos os níveis. Então, sim, ainda é parcialmente um conceito do futuro. Naturalmente, muito aconteceu nos últimos 20 anos e tem havido muito progresso, apoiado pelo uso mais extensivo e disponibilidade da internet, dispositivos móveis, conectividade móvel etc.

Temos visto muitos sistemas de Saúde (nacionais) e/ou provedores e instituições de Saúde implementando uma infraestrutura de eHealth (registros eletrônicos de Saúde, prescrição eletrônica etc.). Mas a construção de verdadeiros serviços de telemedicina com base nessa infraestrutura eletrônica ainda não se concretizou completamente. Algumas das razões pelas quais isso não está acontecendo têm a ver com desafios em torno de financiamento e reembolso, questões técnicas (interoperabilidade) e incertezas jurídicas/regulatórias (ou falta de estruturas jurídicas adequadas).

No lado positivo, há lugares onde os serviços de telemedicina já estão sendo oferecidos com sucesso. Essa também é a boa notícia e a boa prática que estamos buscando compartilhar por meio da nossa rede global da ISfTeH, para que outras pessoas possam aprender com isso e usar essas experiências positivas para apoiar novos desenvolvimentos em seus próprios sistemas de Saúde.

UD: No curto e médio prazos, quais são as mudanças que a telemedicina vai trazer para a prática médica diária, além das que já estão em curso?

FL: Ao longo desse mesmo período de 20 anos, uma incrível (r)evolução ocorreu no varejo, bancos, mídia e indústria de viagens, com uma ampla gama de opções online disponíveis e, em alguns casos, sendo o principal canal usado pelos consumidores para acessar ou comprar esses serviços.
Acredito que veremos isso acontecer na área da Saúde. Em alguns casos e países, será impulsionado pela demanda do usuário/consumidor e pela busca por mais conveniência ou melhor acessibilidade. Em algumas outras regiões, isso acontecerá (e já está acontecendo) devido à grande necessidade por causa do afastamento geográfico e da falta de clínicos gerais ou especialistas locais.

Naturalmente, as questões que apontei anteriormente, em torno de financiamento/reembolso e estruturas legais, precisam ser abordadas. Também as preocupações éticas (em relação à privacidade, segurança etc.) são obviamente diferentes quando se recebe aconselhamento médico online, em comparação à compra de um novo par de calças ou a reserva de um hotel. Então, diretrizes claras precisam ser organizadas ao oferecer serviços e consultas médicas online, para que os usuários possam confiar na qualidade e confiabilidade desses serviços.

UD: Quais são as principais atividades da ISfTeH, atualmente? Ainda há muitos médicos e instituições de Saúde, mundo afora, que não estão familiarizados com o conceito de telemedicina?

FL: A ISfTeH é uma “associação de networking”, com o objetivo de reunir interessados ​​(profissionais e instituições de Saúde, representantes da indústria, legisladores, pesquisadores) de todo o mundo para compartilhar seus conhecimentos e experiências no campo da telemedicina e eHealth. Compartilhar esse conhecimento e essas experiências pode ajudar a acelerar a aceitação e a implementação da telemedicina por colegas em outros países onde a telemedicina pode ainda não ser tão comum. Também estamos procurando fornecer mais orientações e diretrizes sobre como implementar serviços de telemedicina, acerca de aspectos legais, e mais.A maioria dos médicos e instituições de Saúde estão cientes, pelo menos, do básico da telemedicina. Mas é importante fornecer informações claras e trabalhar em parceria com médicos e outros profissionais de Saúde. Os médicos precisam saber como a tecnologia afetará seu trabalho. Não se trata apenas de adicionar algo a uma carga de trabalho já pesada, nem substituir médicos por tecnologia. É mais sobre o uso de novas ferramentas e soluções, que possam dar suporte aos médicos, que possam mudar as rotinas diárias e proporcionar melhor acessibilidade ou mais conveniência a usuários/pacientes.Em nossa rede da ISfTeH temos muitos pioneiros que estão “praticando” a telemedicina, alguns deles já há mais de 20 anos. Eles são os melhores defensores para promover a telemedicina entre seus pares e colegas.

UD: Sobre o uso e a tecnologia da própria telemedicina, o que é esperado que melhore/mude no futuro?

FL: Algumas das evoluções importantes para o futuro são big data, inteligência artificial, machine learning (aprendizado de máquina) e blockchain (protocolo da confiança). Essas tecnologias certamente terão um impacto no diagnóstico médico, no apoio à decisão, na troca segura de informações, nos testes clínicos etc.Com relação ao uso, estou convencido de que as futuras gerações (muito mais do que as do início deste século) impulsionarão automaticamente a demanda por serviços de telemedicina e atendimento online/virtual. Para eles, será tão normal como comprar um novo par de calças online.

Telemedicina ou telessaúde?

A adoção do termo telessaúde (em inglês, telehealth) reflete a expansão do conceito. Embora, por vezes, seja tratado como sinônimo de telemedicina (a própria Organização Mundial de Saúde faz uso desse expediente no documento Telemedicine opportunities and developments in member states), abarca um conceito mais amplo. Isto é: o uso dessas tecnologias, na área da Saúde, está disseminado para além dos médicos, e já faz parte da realidade e das perspectivas de outros profissionais, como enfermeiras e farmacêuticos.

Definição da OMS

A Organização Mundial de Saúde (OMS) adota a seguinte definição para telemedicina/telessaúde:

“A prestação de serviços de Saúde na qual a distância é um fator crítico, por todos os profissionais de Saúde, utilizando tecnologias de informação e comunicação para o intercâmbio de informações válidas para diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças e lesões, pesquisa e avaliação, e para a educação continuada dos prestadores de cuidados de Saúde, tudo no interesse do avanço da Saúde de indivíduos e suas comunidades.”

Quatro fatores essenciais na telemedicina:

  1. A finalidade é fornecer suporte clínico;
  2. Destina-se a superar barreiras geográficas, conectando usuários que não estejam na mesma localização física;
  3. Envolve o uso de vários tipos de tecnologia da informação e comunicação;
  4. O objetivo é melhorar os resultados da Saúde.

Reportagem por Andre Klodja

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Agressividade e preconceito no consultório médico

morte

O trabalho do médico engloba vários desafios e situações desgastantes. Muitas vezes, o profissional deve encarar longas jornadas de trabalho sem interrup­ções, o que demanda muita paciência e disposição. Além disso, é preciso ter ha­bilidades que permitam um bom relacionamento com os pacientes.

No entanto, nem sempre isso é possível. Infelizmente, os casos de agressão e preconceito contra profissionais da saúde são mais frequentes durante a carreira médica do que se possa imaginar. Esses episódios normalmente envolvem impaciência por parte dos pacientes, quando exige-se do médico mais do que ele pode realizar.

Preconceito por ser jovem 

Atualmente com 30 anos, a pediatra Beatriz Menezes afirma ter passado situa­ções de preconceito por ser muito jovem durante sua atuação como residente. “Por diversas vezes, as mães dos meus pacientes me perguntavam se eu ainda estava na faculdade e se seus filhos seriam mesmo atendidos por uma médica tão jovem. In­clusive, uma vez, uma mãe chegou a duvidar da minha conduta por me achar muito nova”, relata.

Beatriz conta que a maneira que encontrou para lidar com a situação foi explicar para as mães dos pacientes que não estava mais estudando, pois já era formada na especialidade. “A maioria ficava tranquila, com um sorriso e aceitava a conduta”, declara.

Quando o médico sofre ameaças

Psiquiatra da rede municipal de Santos, em São Paulo, Hélio Rocha Neto afirma já ter passado por situações em que pacientes agiram de forma violenta durante o atendimento, por não aceitarem sua conduta ou, simplesmente, por não terem seus pedidos atendidos.

Em um desses episódios, o psiquiatra conta que atendia pacientes em uma sala de suturas, onde muitas pessoas aguardavam pelo atendimento. Na fila de espera, o pai de um menino de 10 anos, que apresentava um corte no pé, exigia que o filho fosse atendido imediatamente, queixando-se da demora.

“Infelizmente, ele havia chegado depois de cinco pessoas e não havia porque ter o direito de passar na frente delas. Ao ser informado sobre isso, ele ficou ainda mais furioso, chegando a investir contra a porta quando ela foi fechada”, detalha Neto.

O psiquiatra relata que a equipe de segurança teve que intervir, expulsando o indivíduo do local. Contudo, o pai do paciente saiu do hospital afirmando que voltaria para “acertas as contas” com os funcionários. Aos profissionais da Saúde, Hélio re­comenda que, ao passar por situações semelhantes, é essencial manter a calma e ser cortês. “Sua segurança é primor­dial, tanto para a sua saúde, quanto para a do paciente”, acrescenta.

O impacto da agressão verbal

Juan Félix Costa é médico recém-for­mado e se especializa em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital dos Servidores do Estado de São Paulo. Mesmo estando no início de sua trajetória profissional, o médico relata já ter passado por um epi­sódio em que foi agredido verbalmente, sofrendo ameaças de perseguição duran­te um atendimento.

“O paciente não compreendeu minha conduta em meio ao caos da unidade de atendimento na qual nos encontrávamos. Exigente, ele não percebia que eu estava com minhas mãos atadas, não podendo fazer mais do que o mínimo para garantir o seu bem-estar”, descreve.

A situação chegou a causar, no profissional, medo de retornar à ati­vidade normal. “Mas não me deixei abater por esse episódio único e voltei outras vezes à unidade, com o objeti­vo de exercer meu sonho de menino de ser médico e ajudar as pessoas da maneira mais digna possível”, resume.

Como melhorar a relação médico-paciente?

Por parte do médico:

  • Prestar um atendimento humanizado, marcado pelo bom relacionamento pes­soal e pela dedicação de tempo e aten­ção necessários;
  • Saber ouvir o paciente, esclarecendo dúvidas e compreendendo suas expecta­tivas, com registro adequado de todas as informações no prontuário;
  • Explicar detalhadamente, de forma simples e objetiva, o diagnóstico e o tra­tamento para que o paciente entenda a doença, os benefícios do tratamento e, também, as possíveis complicações e prognósticos;
  • Estar disponível nas situações de ur­gência, sabendo que essa disponibili­dade requer administração flexível das atividades.

Por parte do paciente:

  • Lembrar-se de que, como qualquer outro ser humano, o médico tem virtudes e defeitos, observando que o trabalho médico é uma atividade naturalmente desgastante;
  • Não exigir o impossível do médico, que só pode oferecer o que a ciência e a M­edicina desenvolveram. Da mesma forma, jamais culpar o médico pela doença;
  • Não exigir dos médicos exames e me­dicamentos desnecessários, lembrando que o sucesso do tratamento está mui­to mais na relação de confiança que se pode estabelecer com o médico;
  •  Seguir as prescrições médicas (reco­mendações, dosagens, horários etc.) e evitar a automedicação.