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Especial Mentes Revolucionárias da Medicina – Parte 2

Neste especial, trazemos cinco profissionais que, de alguma forma, revolucionaram a Medicina. Nosso segundo entrevistado é Dr. José Pachón Mateos. Nascido em Sevilha, na Espanha (seu nome não nega), o médico e cientista chegou ao Brasil aos 2 anos de idade e, por isso, se considera brasileiro – e com sotaque mineiro.

José Pachón Mateos

José Pachón Mateos
Foto: Juan Cogo

 

Formado pela Faculdade Federal de Medicina do Triângulo Mineiro, especializou-se em Cardiologia pelo Instituto de Cardiologia do Estado de São Paulo e, posteriormente, obteve o doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Estimulados pelo pai arquiteto, que também sempre nutriu interesse pela Eletrônica, seus irmãos e ele investiram na área das arritmias cardíacas, que lida, fundamentalmente, com os problemas de condução elétrica do coração. Nas palavras de Pachón, essa é, “talvez, a área de maior importância na Medicina”.

 Medicina como um estilo de vida

Em São Paulo desde 1979, o médico é, hoje, diretor do Serviço de Marca-Passo do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC) e do Serviço de Arritmias do Hospital do Coração de São Paulo (HCor) e professor de pós-graduação na USP. Sua equipe – composta de profissionais altamente respeitados, incluindo familiares, que também têm no sangue o amor pela Medicina – acompanha-o nos hospitais citados e no Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos, onde exerce o cargo de diretor do Serviço de Arritmias.

Os Pachón são pioneiros. Na década de 1980, quando houve um aumento no interesse mundial em solucionar as arritmias, os irmãos desenvolveram um método de estudo eletrofisiológico, que utiliza como via o esôfago, e patentearam o aparelho que, em seguida, foi fabricado na França e distribuído pelos Estados Unidos e pela Europa. Nomeado cardioestimulador transesofágico, o dispositivo simplificou o diagnóstico e o entendimento de muitas arritmias, permitindo o início dessa especialidade nas regiões mais remotas de nosso país, da América do Sul e da África. Isso só foi possível depois de muitos testes experimentais realizados ainda na época em que o médico estava na universidade.

“Essa era uma área bem pouco desenvolvida. Naquela época não existia, ainda, a internet ou, mesmo, os computadores pessoais, e livros que abordassem a área das arritmias eram extremamente raros. Ainda na faculdade, eu era responsável pelas aulas de Fisiologia Médica e, ao produzir muitas atividades experimentais, principalmente na área da atividade elétrica do coração, consegui desenvolver o aparelho em questão. A partir disso, a área se expandiu rapidamente no Brasil e no exterior. Hoje, nosso país é reconhecido internacionalmente nesse segmento. Parte desse sucesso é oriunda de um grande número de excelentes profissionais, em todas as regiões do país, que descobriram sua aptidão para a eletrofisiologia pelo fato de terem acesso a essa forma simplificada do estudo das arritmias ainda durante a vida acadêmica ou durante a residência”.

Mais tarde, na década de 1990, Pachón desenvolveu o método da estimulação septal em ventrículo direito, amplamente difundido e aplicado até os dias de hoje. Em seguida, antes do advento dos ressincronizadores, a evolução da estimulação septal permitiu o desenvolvimento da estimulação ventricular bifocal direita, técnica utilizada, no mundo todo, para tratar a insuficiência cardíaca. Esse trabalho, inclusive, foi premiado com o Rudolg Virchow International Award, conferido pelo Instituto de Patologia da Universidade de Humboldt, em Berlim.

Além dessas inovações, Pachón desenvolveu, no Serviço de Marca-Passo do IDPC e no HCor, a ablação espectral por radiofrequência da fibrilação atrial, que permitiu identificar o miocárdio compacto, o miocárdio fibrilar e novos mecanismos de arritmias, como a ressonância dos ninhos de FA (AF-Nests) e a taquicardia de background. Esses conceitos são fundamentais para o entendimento da fisiopatologia da fibrilação atrial, mostrando que não é uma arritmia desorganizada, mas um conjunto de arritmias bem definidas e recursivas.

Ainda, o mapeamento espectral identifica os pontos de maior densidade neuronal no endocárdio e permite ablacionar o neurônio pós-ganglionar parassimpático. Isso faz com que a resposta cardioinibitória seja eliminada e abre um novo capítulo na eletrofisiologia: o tratamento da síncope neurocardiogênica e das bradiarritmias funcionais, sem o implante de marca-passo, chamado de cardioneuroablação. Esses conceitos e metodologias resultaram em patentes registradas no United States Patents and Trademark Office. Além disso, compuseram um tema exclusivo nos últimos dos congressos da Heart Rhythm Society, realizados em Boston e São Francisco, nos Estados Unidos.

Porém, na visão de Pachón, o trabalho só começou: “O sentimento é de que estou em um estímulo diário para seguir contribuindo para melhorar a vida dos pacientes e facilitar o trabalho de meus colegas que aderem ao uso das técnicas que desenvolvemos em equipe. Essa atividade precisa ser constantemente alimentada, de maneira árdua e exaustiva, para que possa crescer”.

Reportagem de Bruno Bernardino e Paula Netto
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Especial Mentes Revolucionárias da Medicina – Parte 1

Nesse especial, dividido em cinco partes, vamos trazer entrevistas de cinco médicos. Cinco histórias distintas, mas um detalhe em comum: todos mudaram o jeito de fazer Medicina. Entre cursinhos pré-vestibulares, noites mal dormidas por causa dos estudos e horas trancafiados em laboratórios e hospitais, esses médicos brasileiros desenvolveram trabalhos que fizeram a diferença na vida da sociedade.

Os cardiologistas José Pedro da Silva e José Carlos Pachón Mateos, por exemplo, reinventaram as formas de realizar cirurgias cardíacas. O neurocirurgião Antônio de Salles e o nefrologista José Osmar Medina Pestana criaram, respectivamente, o marca-passo cerebral capaz de controlar a obesidade e a depressão e o maior centro de transplantes do mundo. Já o médico e neurocientista Miguel Nicolelis escolheu o caminho da pesquisa com foco na integração do cérebro humano com máquinas para a reabilitação de pacientes com quadro de paralisia corporal.

Cada um à sua maneira, esses profissionais demonstram que não escolheram o ofício à toa. Suas contribuições para a saúde da humanidade são reconhecidas mundialmente, tornando-os motivo de orgulho para o Brasil. Confira a primeira entrevista da série!

Antônio Afonso Ferreira de Salles

 

Aos 7 anos de idade, Antônio de Salles escolheu a Medicina – ou foi ela que o escolheu? Formado na Universidade Federal de Goiás (UFG), o médico não teve dúvidas de qual especialidade seguir. O limitado conhecimento existente, até então, sobre o cérebro humano foi a mola que impulsionou sua carreira, levando-o a ser considerado uma das referências da Neurocirurgia não só no Brasil, mas no mundo.

Natural de Curitiba (RS), o neurocirurgião fez seus estudos em Goiânia (GO). Após o término da graduação, uma proposta de pesquisa feita pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) levou-o ao doutorado em Biofísica no Medical College of Virginia, nos Estados Unidos. De lá, o médico seguiu para a Universidade de Harvard, onde se especializou em Cirurgia Estereotáxica e Radiocirurgia. Mudou-se para a Suécia dois anos depois, o que lhe possibilitou realizar um treinamento em Neurocirurgia Funcional. A experiência adquirida com a passagem por esses países rendeu-lhe o convite para ser professor na Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles, onde permaneceu por 25 anos. Atualmente aposentado como professor emérito, o médico não esconde o orgulho de ter trabalhado na instituição, em que desenvolveu novos tratamentos para doenças do sistema nervoso.

A volta ao Brasil aconteceu em 2012, com o objetivo de fundar um centro de Neurociências junto ao Hospital do Coração (HCor), em São Paulo. Contando com uma estrutura de ponta, fruto de um planejamento de quatro anos, Salles pôde, efetivamente, trazer ao país as técnicas desenvolvidas durante os 30 anos em que morou fora. A principal delas, o uso de um marca-passo cerebral para o tratamento da obesidade mórbida e depressão severa, posicionando o HCor como um hospital pioneiro nesse tipo de procedimento.

Revolucionário, o marca-passo atua em determinadas partes do cérebro, contribuindo para que ele controle, de maneira adequada, as demais funções do corpo. No tratamento da obesidade, o segredo está no aumento do metabolismo – de maneira similar ao que acontece quando o indivíduo pratica exercícios físicos contínuos –, contribuindo para a perda de peso. Já no caso da depressão, o controle se dá por meio de estímulos elétricos, reduzindo os distúrbios químicos do cérebro provocados pela falta de certos neurotransmissores. Em ambos os casos, o aparelho é implantado por meio de uma cirurgia minimamente invasiva feita na sala de ressonância magnética do HCor.

Outras doenças, como Alzheimer, mal de Parkinson e esclerose lateral amiotrófica (ELA), também são foco dos estudos de Salles. Para o especialista, essas patologias constituem os maiores desafios da especialidade, já que são neurodegenerativas, ou seja, matam as células aos poucos, levando o indivíduo a um definhamento da memória e da parte motora. “Os tratamentos estão avançando, mas ainda falta bastante conhecimento genético para alcançar a cura dessas doenças”, afirma.

Diante de tamanha inovação, as homenagens são mais do que merecidas. Dentre diversos prêmios que ganhou, o médico destaca um ofertado pela Sociedade Mundial de Mapeamento Cerebral, recebido no Canadá, por seu pioneirismo na profissão. Mas nem uma condecoração dessa magnitude é capaz de derrubar sua modéstia. “Os prêmios são passos dentro da carreira e significam um reconhecimento do trabalho. Porém, o que mais me traz felicidade é o agradecimento de cada paciente e cada estudante a quem ensino. Ver a pessoa com depressão severa melhorar com o implante do marca-passo e voltar a trabalhar, a ter um relacionamento melhor com a família, me dá muita alegria. Acredito que esse seja o maior reconhecimento que posso ter como profissional”, declara o médico.

O caminho alternativo que é a escrita

Em meio à rotina agitada, o especialista alimenta outra paixão: a escrita. O neurocirurgião conta que acorda às 5h da manhã e escreve até às 7h, partindo, em seguida, para o hospital. Com oito livros publicados na área de Medicina, Salles revela um desejo: “O que mais gosto de escrever é romance. Então, gostaria de me aposentar e viver disso, escrevendo novelas e romances”.

Para o futuro, o médico tem como plano continuar ensinando os jovens que cursam Neurocirurgia no Brasil, por meio do trabalho desenvolvido no HCor, buscando promover o aprimoramento profissional deles no serviço. Quanto à profissão, de modo geral, Salles é otimista: “Temos bons profissionais, embora a limitação econômica torne o exercício da Medicina mais difícil. Mas ela é um dos maiores suportes que existem para a humanidade. Por isso, temos a obrigação de tentar melhorar sempre o que fazemos, com o desenvolvimento de novas ideias, pesquisas e terapias”.

 

Reportagem de Bruno Bernardino e Paula Netto