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Você sabe como funciona a estrutura da sua sociedade?

Apesar de estarem afiliados a uma sociedade de especialidade, muitos médicos desconhecem a estrutura da própria associação e o que essa estrutura pode trazer de benefícios para sua carreira

Para Vera Fonseca, atualmente presidente da Comissão de Residência Médica da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado do Rio de Janeiro (SGORJ), o grande problema é que muitos profissionais não sabem quais são as funções de uma sociedade de especialidade. “O médico acha que a associação existe só para oferecer um congresso ou um curso e nada mais. As sociedades afiliadas à Associação Médica Brasileira (AMB), que são reconhecidas de fato como tal, têm funções muito importantes”, defende.

Vera, que já presidiu a própria SGORJ e atuou por dez anos como secretária-geral da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), enfatiza que as sociedades existem para garantir o reconhecimento da especialidade e a educação médica continuada. O que acontece, segundo ela, é uma falta de conhecimento do médico quanto a isso. “A gente só ama o que conhece e temos que conhecer o que uma sociedade faz para querer se associar. Com a sociedade, o médico terá sua educação continuada, inclusive em questões como defesa profissional, ética e outros temas”, afirma.

Para cumprir essas funções, as sociedades mantêm estruturas, geralmente, muito parecidas. Abaixo do seu presidente, a sociedade geralmente tem um ou vários vice-presidentes, um secretário-geral (cuja função é ocupada por um médico) e um tesoureiro. De acordo com a estrutura da sociedade, podem existir, ainda, secretários adjuntos e tesoureiros adjuntos. Além disso, há diretores em áreas específicas de atuação da sociedade, como a diretoria científica e a diretoria profissional.

“Todo trabalho que uma sociedade faz é para tentar ajudar o desenvolvimento profissional de seus associados. Por isso, existe uma estrutura organizada. Há um núcleo central, composto pela diretoria, e uma equipe administrativa, formada por profissionais fora da área da Saúde e que garante o funcionamento da entidade. Isso sem falar nas comissões, que se formam para discutir, conversar e propor mudanças sobre um determinado tema, como defesa profissional, eventos, publicações, ética, ensino médico, residência e saúde suplementar”, explica Vera.

Segundo Sergio Meirelles, diretor de Patrimônio da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) e secretário-geral da regional Rio de Janeiro da SBACV, essa estrutura básica se repete em muitas sociedades. “Na SBACV, por exemplo, temos o presidente, o secretário-geral, o tesoureiro-geral e cinco diretores (científico, de Eventos, de Publicações, de Defesa Profissional e de Patrimônio), além de seus respectivos vices”, lista.

O que Meirelles enfatiza, porém, é que, apesar desses cargos serem essenciais para o funcionamento da sociedade, nem todo profissional que assume tais funções está preparado. “Em geral, esses cargos não são remunerados. Essa acaba virando uma atividade totalmente amadora, feita por pessoas não preparadas profissionalmente para isso. O que acontece é um esforço do médico de se adaptar e uma determinação de ser útil para sua sociedade”, acredita.

Estrutura básica das sociedades

Não há um padrão estabelecido que as sociedades de especialidade adotam para definir suas estruturas. Porém, alguns cargos são comuns e podem ser encontrados em grande parte das entidades. São eles:

  • Presidente
  • Vice-presidente (ou vices)
  • Secretário-geral (ou diretor administrativo)
  • Tesoureiro
  • Adjuntos (secretários e tesoureiros)
  • Diretoria Científica
  • Diretoria Profissional (para temas, como defesa profissional, ética e saúde suplementar)
  • Comissões técnicas e científicas
  • Equipe administrativa (secretária e outros profissionais)
  • Assessorias e consultorias externas

Engajamento necessário

Além de conhecer melhor a estrutura da sociedade de especialidade, os dirigentes concordam que há algo que precisa ser mais incentivado junto aos médicos: o engajamento. “Uma sociedade forte enfrenta melhor os diversos desafios que seus sócios encontram no seu dia a dia, principalmente na defesa de seu mercado de trabalho, na luta por honorários médicos dignos junto às fontes pagadoras, em seu aprimoramento científico e no adequado atendimento à população. Mas uma sociedade forte só é possível com o engajamento de quem compõe a sociedade”, defende o diretor da SBACV.

As comissões científicas podem ser uma importante porta de entrada do médico na estrutura da sociedade de especialidade. Muitas entidades precisam de pessoas, principalmente mais jovens, para integrar essas comissões e trazer novas ideias e experiências para debater propostas para serem deliberadas pela diretoria. “Quando se engaja em uma comissão, seja ela técnica ou profissional, o médico tem a oportunidade de participar de um grupo de colegas para uma determinada atividade e, assim, aos poucos, se sente mais capacitado para colaborar com a sua especialidade”, completa Meirelles.

De acordo com o advogado Guilherme Portes, sócio da Portes & Carrada Sociedade de Advogados e responsável pela assessoria de Saúde Suplementar do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o primeiro passo importante para o médico se engajar com a sociedade é, sem dúvida, o conhecimento sobre a própria entidade à qual se associa.

“Na comissão de Saúde Suplementar do CBO, muitas vezes, são encaminhados questionamentos que já foram respondidos no site da entidade. Então, se o associado entrasse no site e entendesse o que faz essa comissão, veria que já existe muita coisa disponível, como pareceres e outros documentos, à disposição dele para consulta.

Nos congressos, tentamos mostrar ao associado o que faz cada comissão do CBO. Mas existe médico associado há 20 anos que nem sabe que existe uma comissão de Saúde Suplementar. Ou seja, as pessoas não usam os recursos simplesmente porque não sabem que eles existem”, lamenta Portes.

Outro ponto que o advogado levanta é em relação às sociedades regionais, cujas estruturas, em geral, são menores que as entidades nacionais. “A experiência que tenho com regionais mostra que muitas não têm autonomia política e econômica para se organizar no mesmo nível da nacional.

Então, a maioria não consegue ter muitos recursos para os associados. Algumas nacionais se aproximam das regionais para oferecer a estrutura que elas não conseguem atender sozinhas. Isso é bom para os dois lados, afinal, a nacional não consegue estar presente o tempo todo em todos os lugares e se faz mais presente por meio das regionais”, explica.

Funções primordiais das sociedades médicas

As sociedades de especialidades possuem funções bem definidas em seus estatutos. Basicamente, toda entidade médica cumpre (ou deveria cumprir) as seguintes obrigações:

  • Ser filiada à AMB;
  • Realizar a prova para conceder o título de especialista;
  • Promover a educação médica continuada;
  • Incentivar o engajamento do associado nas questões relacionados a sua especialidade;
  • Investir no suporte a questões inerentes à prática médica, como defesa profissional e saúde suplementar;
  • Lutar pelos interesses dos seus associados;
  • Realizar periodicamente eventos de atualização, como congressos, simpósios, jornadas e cursos;
  • Quando possível, dar auxílio às sociedades regionais.

Prioridades para os médicos residentes

Não importa se estamos falando de uma sociedade nacional ou regional: o desconhecimento do médico em relação à estrutura das entidades médicas é generalizado. Com isso, falta engajamento de boa parte da classe médica. Uma solução que muitas entidades descobriram e vêm investindo bastante nos últimos anos é no envolvimento maior do jovem médico, ou seja, o profissional que acaba de entrar no mercado de trabalho.

“Essa é uma discussão que se tem e não se encontrou um melhor caminho para isso. Os médicos mais jovens estão interessados em conquistar seu espaço na Medicina. Então, acabam relegando para segundo plano a aproximação com a sociedade de especialidade. Muitas vezes, eles não veem a importância dessas sociedades ou não sabem nem qual é o real papel delas”, critica Guilherme Portes.

Para Sergio Meirelles, é primordial que as sociedades invistam, cada vez mais, no esclarecimento do jovem médico. “É preciso explicar, principalmente, a importância de uma sociedade que defenda sua especialidade e, consequentemente, o defenda em sua prática profissional. Ele deve entender a importância de participar ativamente dessa luta, independentemente se ocupa um cargo”, ressalta.

Vera Fonseca acredita que o jovem médico promove uma “oxigenação” na sociedade médica. Afinal, as cabeças pensantes, em algum momento, precisam sair da diretoria da associação, e elas dão espaço, justamente, para os mais jovens. “O que o médico tem que pensar é o seguinte: de onde vêm as pessoas que chegam à diretoria da sociedade? Pois é: começam como um simples associado, que depois de um tempo começa a doar parte do seu tempo em prol do bem-comum dos seus colegas de especialidade”, diz.

Para o jovem médico, Vera gosta de contar sua própria história de vida para exemplificar. “Recém-formada, me associei e fui chamada para participar de uma comissão. Depois, coordenei uma comissão, fui secretária-geral e presidente de uma sociedade regional, até chegar a ser diretora administrativa de uma sociedade nacional. Tudo isso começou quando entendi que aquele meu trabalho poderia beneficiar muitos colegas e, por consequência, um grande número de pacientes”, resume.

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Telemedicina e o debate sobre o futuro da Saúde

telemedicina

Desde que a tecnologia da informação começou a ganhar espaço em todo o mundo, as distâncias passaram a ser menores. Muitas pessoas imaginam que vivemos, hoje, em uma realidade próxima à dos filmes de ficção científica. Prova disso é que conseguimos falar com quem está distante – até mesmo do outro lado do planeta – em poucos segundos por meio de mensagens, vídeos e áudios em celulares, redes sociais e outros dispositivos digitais.

Já que tudo isso invadiu nosso dia a dia, era de se esperar que também invadisse os consultórios e, de quebra, impactasse na relação médico-paciente. Um termo passou a ser muito falado nos últimos tempos: a Telemedicina.

O debate ganhou mais força depois que uma polêmica resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) foi publicada em 6 de fevereiro. O documento definia o que é a Telemedicina e de que forma ela poderia ser exercida no país, além de regulamentar toda a questão no Brasil.

Porém, a resolução não foi bem recebida pelos conselhos regionais de Medicina (CRMs), que criticaram vários pontos do documento. Devido aos debates que surgiram, o CFM decidiu revogar a resolução em 22 de fevereiro, analisar as sugestões e críticas recebidas e recomeçar o debate para desenvolver um novo documento.

Debate sobre Telemedicina no Brasil

Telemedicina no Brasil

 

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), Sylvio Provenzano, a grande crítica à resolução do CFM é que ela era abrangente demais, sem estabelecer claramente responsabilidades e limites para a Telemedicina.

O Cremerj foi um dos conselhos regionais que mais criticou a resolução. Procurados pela nossa equipe de reportagem, o CFM e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), outro grande crítico ao documento, não quiseram se manifestar, alegando que os debates sobre o tema ainda estão acontecendo.

Provenzano explica que toda a polêmica surgiu porque o CFM publicou a resolução 2.227/2018 sem o parecer dos conselhos regionais. “Havia uma reunião marcada para que os presidentes dos conselhos discutissem a resolução. Mas fomos surpreendidos com a promulgação antes de essa reunião acontecer.

Quando a reunião aconteceu, o que fizemos foi listar uma série de não conformidades que detectamos no texto. Por exemplo: no artigo 4º, não é dito que seria necessária a consulta médica presencial inicial. Então, quem faria essa primeira avaliação? Quem ficaria responsável pelas decisões diagnósticas?”, questiona.

O presidente do Cremerj ressalta que o órgão aceita a Telemedicina como uma realidade já presente na Saúde brasileira e que precisa ser regulamentada o quanto antes. Porém, o que Provenzano defende é que haja um grande debate, envolvendo outros segmentos da sociedade, como advogados, professores e jornalistas.

“A nossa preocupação é com o comprometimento do ato médico. Hoje, o médico é o grande responsável por guardar as informações do paciente. E, na Telemedicina, isso ficaria sob responsabilidade de uma empresa de tecnologia. Como fica o sigilo? Um hacker pode invadir e colocar tudo na rede”, alerta.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde (ABTms), Humberto Serra, a resolução do CFM representaria um grande avanço para a Saúde no Brasil, ampliando o acesso dos serviços médicos à população. “Toda mudança de paradigma tem suas resistências e não seria diferente com a classe médica. Acho que faltam esclarecimentos para romper essas resistências. De qualquer maneira, assim como o Conselho Federal de Psicologia (CFP) já fez, regulamentando o atendimento à distância, essa é uma iniciativa esperada por todos os conselhos da área da Saúde”, afirma Serra, que também é coordenador do Núcleo Estadual de Telessaúde do Maranhão.

Luiz Ary Messina, coordenador nacional da Rede Universitária de Telemedicina (Rute), acredita que a regulamentação do CFM seria uma tranquilidade para um setor que já existe no país há pelo menos 15 anos.

“Como não foi assim, vejo esse momento como uma oportunidade para a classe médica ser confrontada com uma questão ainda pendente. Na década de 1970, isso aconteceu com os bancos, com a automação de processos. O mesmo aconteceu, nas décadas seguintes, com as indústrias. Está na hora de acontecer com a Saúde”, destaca.

Contribuições para o futuro da Medicina

A Telemedicina é definida pela resolução do CFM como o exercício da Medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, educação, pesquisa, prevenção de doenças e de lesões e promoção da saúde.

“Nos tempos atuais, é importante registrar que a Telemedicina é a ferramenta com maior potencial para agregar novas soluções em saúde e que muitos dos procedimentos e atendimentos presenciais poderão ser substituídos por interações intermediadas por tecnologias.

Porém, não se deve esperar que se torne um remédio para todos os problemas de assistência à saúde”, explica Aldemir Humberto Soares, conselheiro-relator da resolução 2.227/2018, em texto publicado em anexo ao documento do CFM.

No mesmo documento, Soares ressalta o quanto a Telemedicina pode contribuir para o atendimento das demandas por saúde em lugares remotos do país “A Telemedicina foi originalmente criada como uma forma de atender pacientes situados em locais remotos, longe das instituições de saúde ou em áreas com escassez de profissionais médicos. Enquanto ela ainda é usada para resolver esses tipos de problemas, ao mesmo tempo vem se tornando cada vez mais uma ferramenta para cuidados médicos. A Telemedicina é uma evolução natural dos cuidados de saúde no mundo digital. A cada dia, torna-se mais indiscutível a capacidade que ela tem de melhorar a qualidade, a equidade e a acessibilidade”, afirma o relator.

Humberto Serra concorda que a Telemedicina tem potencial para solucionar grandes problemas da Saúde no Brasil. “Nos países em desenvolvimento, ela pode ampliar o acesso aos serviços médicos especializados em locais que não contam com especialistas ou serviços especializados.

Também pode atuar na melhoria da qualidade da atenção à saúde, na redução do tempo gasto entre o diagnóstico e a terapia, na racionalização de custos e no apoio à vigilância epidemiológica, auxiliando na identificação e no rastreamento de problemas de saúde pública”, lista o presidente da ABTms.

Dúvidas sobre Telemedicina

O presidente do Cremerj ressalta que a Telemedicina seria uma grande contribuição, sem dúvidas, para a Saúde no país, se houvesse estrutura para tal. “Como posso fazer Telemedicina em lugares remotos do país, onde certamente há dificuldade de conseguir uma banda larga suficiente para compartilhar essas informações em tempo hábil? Se em uma cidade como o Rio de Janeiro, a segunda maior do país, temos problemas com a internet, onde a banda larga fica ‘estreita’ demais e cai, como seria isso no Oiapoque (AP), em Santarém (PA) ou em Quixadá (CE)?”, questiona Sylvio Provenzano.

O dirigente destaca que não se trata apenas de melhorar a estrutura tecnológica, mas questões jurídicas e práticas precisam ser definidas e regulamentadas para que a Telemedicina possa se tornar viável no país.

“Há questões legais e de bioética que vêm sendo discutidas com advogados. Outro ponto: de quem é a responsabilidade e quem recebe por determinados procedimentos? Vou dar um exemplo: especialistas se reúnem em um hospital em São Paulo para assessorar um procedimento de cirurgia robótica em um lugar remoto.

O responsável é o médico que está a distância, disponibilizando conhecimento, tempo e experiência, ou o que está presencialmente assistindo o paciente? Como será o pagamento desses médicos? Quem fica responsável pela segurança das informações? Essas são algumas das perguntas ainda sem resposta”, afirma.

Perguntas sem respostas não vêm apenas do presidente do Cremerj. Para o coordenador da Rute, Luiz Ary Messina, a maioria da classe médica no Brasil não sabe o que é a Telemedicina. “As pessoas têm que ser treinadas sobre isso.

Entre as faculdades de Medicina, você conta nos dedos as que têm alguma disciplina que trata sobre a Telemedicina na graduação. Ou seja, falta conhecimento. Soma-se a isso outras razões, como o receio de parte da classe médica de perder espaço para grandes corporações, muito mais bem preparadas tecnologicamente”, acredita.

Messina, porém, ressalta que a Telemedicina já é uma realidade e cabe ao médico correr atrás para entender melhor sobre o assunto. “O desconhecimento é um problema que pode ser resolvido à medida que os médicos tomem ciência do que se trata e se informem, lendo ou participando de congressos.

A Telemedicina já é uma realidade. As pessoas que não querem entender como é esse processo acabam atropeladas. Em países continentais, como Brasil, Rússia, China, Índia, Estados Unidos e Canadá, é impossível ter um especialista em todas as cidades. Isso é possível com a Telemedicina, mesmo que à distância”, defende.

Modalidades de Telemedicina

  • Teleconsulta: consulta médica remota, com médico e paciente em diferentes espaços geográficos.
  • Telediagnóstico: emissão de laudo ou parecer de exames, com envio de imagens e dados pela internet.
  • Teleinterconsulta: troca de informações e opiniões entre médicos, com ou sem a presença do paciente.
  • Telecirurgia: procedimento feito por robô, manipulado por um médico que está em outro local.
  • Teleconferência: grupo de médicos que se reúne para receber e debater sobre imagens, dados e áudios.
  • Teletriagem: avaliação a distância de sintomas para direcionar o paciente ao tipo de assistência necessária.
  • Teleorientação: declaração para contratação ou adesão a plano de saúde.
  • Teleconsultoria: troca de informações entre médicos e gestores sobre procedimentos de saúde.
  • Telemonitoramento: avaliação da saúde do paciente, evitando ida ao pronto-socorro ou casa de repouso.

História da Telemedicina no Brasil e no mundo

Idade Média – Na Europa, por conta da peste que devasta o continente, é registrado o primeiro caso de Telemedicina da história. Um médico se isola na margem de um rio para atender a distância os pacientes na margem oposta.

Século XIX – Com a invenção do telégrafo e do telefone, o envio de laudos de exames se torna realidade.

1910 – Em Londres, SG Brown inventa o estetoscópio eletrônico, capaz de transmitir sinais por até 50 milhas de distância.

Segunda Guerra Mundial (1939-1945) – Durante o conflito, rádios são utilizados para conectar médicos em diferentes lugares, trocando informações.

Década de 1960 – É criado, na cidade de Norfolk, nos Estados Unidos, um sistema de comunicação entre hospitais. O sistema permite, ainda, a realização de videoconferências entre pacientes e familiares, que muitas vezes estão em lugares distantes.

Década de 1970 – Surge a transmissão de dados para diagnósticos. Um exemplo é a criação de um serviço na Groenlândia para receber suporte de saúde de hospitais da Dinamarca.

1993 – Criada a Associação Americana de Telemedicina (ATA), entidade pioneira do tema no mundo.

Década de 1990 – Surgem as primeiras iniciativas de Telemedicina no Brasil, com realização de laudos de exames a distância e videoconferências.

Décadas de 2000 e 2010 – Cresce a Telemedicina no Brasil e no mundo. Com a evolução tecnológica, criação de dispositivos móveis e democratização da internet, a Telemedicina ganha força para atender, principalmente, pacientes em lugares remotos.

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Telemedicina: tecnologia no diagnóstico médico

O termo telemedicina foi cunhado na segunda metade do século passado, mais especificamente nos anos 1970. Contudo, não é bem demarcado o momento em que as telecomunicações foram empregadas, pela primeira vez, na assistência de Saúde. Sabe-se, porém, que não é um conceito novo – pelo contrário: com a invenção do telefone, conversar à distância com outros profissionais ou obter informações sobre o paciente já eram possibilidades.

Contudo, apesar dos avanços da Medicina e das telecomunicações, ainda há muito campo a ser conquistado nessa área, conforme Frederic Lievens, vice-diretor executivo da International Society for Telemedicine and eHealth (ISfTeH), no ramo há duas décadas. “Mas, mesmo agora, 20 anos depois, a telemedicina ainda não está totalmente integrada à prática médica de rotina em todos os níveis. Então, sim, ainda é parcialmente um conceito do futuro”, analisa. Nesse contexto, é vital a atuação de entidades como a ISfTeH, que visa facilitar a disseminação de conhecimento e experiência em telemedicina e telessaúde mundo afora. Confira a entrevista completa.

Universo DOC: Alguns dizem que telemedicina é um conceito do futuro. Isto é correto, ou podemos dizer que já é uma parte importante do presente? Por quê?

Frederic Lievens: Quando comecei a me envolver no campo da telemedicina, no fim dos anos 1990, dizia-se que a telemedicina estava “bem na esquina” e era “a próxima grande coisa na área da assistência em Saúde”. Mas, mesmo agora, 20 anos depois, a telemedicina ainda não está totalmente integrada à prática médica de rotina em todos os níveis. Então, sim, ainda é parcialmente um conceito do futuro. Naturalmente, muito aconteceu nos últimos 20 anos e tem havido muito progresso, apoiado pelo uso mais extensivo e disponibilidade da internet, dispositivos móveis, conectividade móvel etc.

Temos visto muitos sistemas de Saúde (nacionais) e/ou provedores e instituições de Saúde implementando uma infraestrutura de eHealth (registros eletrônicos de Saúde, prescrição eletrônica etc.). Mas a construção de verdadeiros serviços de telemedicina com base nessa infraestrutura eletrônica ainda não se concretizou completamente. Algumas das razões pelas quais isso não está acontecendo têm a ver com desafios em torno de financiamento e reembolso, questões técnicas (interoperabilidade) e incertezas jurídicas/regulatórias (ou falta de estruturas jurídicas adequadas).

No lado positivo, há lugares onde os serviços de telemedicina já estão sendo oferecidos com sucesso. Essa também é a boa notícia e a boa prática que estamos buscando compartilhar por meio da nossa rede global da ISfTeH, para que outras pessoas possam aprender com isso e usar essas experiências positivas para apoiar novos desenvolvimentos em seus próprios sistemas de Saúde.

UD: No curto e médio prazos, quais são as mudanças que a telemedicina vai trazer para a prática médica diária, além das que já estão em curso?

FL: Ao longo desse mesmo período de 20 anos, uma incrível (r)evolução ocorreu no varejo, bancos, mídia e indústria de viagens, com uma ampla gama de opções online disponíveis e, em alguns casos, sendo o principal canal usado pelos consumidores para acessar ou comprar esses serviços.
Acredito que veremos isso acontecer na área da Saúde. Em alguns casos e países, será impulsionado pela demanda do usuário/consumidor e pela busca por mais conveniência ou melhor acessibilidade. Em algumas outras regiões, isso acontecerá (e já está acontecendo) devido à grande necessidade por causa do afastamento geográfico e da falta de clínicos gerais ou especialistas locais.

Naturalmente, as questões que apontei anteriormente, em torno de financiamento/reembolso e estruturas legais, precisam ser abordadas. Também as preocupações éticas (em relação à privacidade, segurança etc.) são obviamente diferentes quando se recebe aconselhamento médico online, em comparação à compra de um novo par de calças ou a reserva de um hotel. Então, diretrizes claras precisam ser organizadas ao oferecer serviços e consultas médicas online, para que os usuários possam confiar na qualidade e confiabilidade desses serviços.

UD: Quais são as principais atividades da ISfTeH, atualmente? Ainda há muitos médicos e instituições de Saúde, mundo afora, que não estão familiarizados com o conceito de telemedicina?

FL: A ISfTeH é uma “associação de networking”, com o objetivo de reunir interessados ​​(profissionais e instituições de Saúde, representantes da indústria, legisladores, pesquisadores) de todo o mundo para compartilhar seus conhecimentos e experiências no campo da telemedicina e eHealth. Compartilhar esse conhecimento e essas experiências pode ajudar a acelerar a aceitação e a implementação da telemedicina por colegas em outros países onde a telemedicina pode ainda não ser tão comum. Também estamos procurando fornecer mais orientações e diretrizes sobre como implementar serviços de telemedicina, acerca de aspectos legais, e mais.A maioria dos médicos e instituições de Saúde estão cientes, pelo menos, do básico da telemedicina. Mas é importante fornecer informações claras e trabalhar em parceria com médicos e outros profissionais de Saúde. Os médicos precisam saber como a tecnologia afetará seu trabalho. Não se trata apenas de adicionar algo a uma carga de trabalho já pesada, nem substituir médicos por tecnologia. É mais sobre o uso de novas ferramentas e soluções, que possam dar suporte aos médicos, que possam mudar as rotinas diárias e proporcionar melhor acessibilidade ou mais conveniência a usuários/pacientes.Em nossa rede da ISfTeH temos muitos pioneiros que estão “praticando” a telemedicina, alguns deles já há mais de 20 anos. Eles são os melhores defensores para promover a telemedicina entre seus pares e colegas.

UD: Sobre o uso e a tecnologia da própria telemedicina, o que é esperado que melhore/mude no futuro?

FL: Algumas das evoluções importantes para o futuro são big data, inteligência artificial, machine learning (aprendizado de máquina) e blockchain (protocolo da confiança). Essas tecnologias certamente terão um impacto no diagnóstico médico, no apoio à decisão, na troca segura de informações, nos testes clínicos etc.Com relação ao uso, estou convencido de que as futuras gerações (muito mais do que as do início deste século) impulsionarão automaticamente a demanda por serviços de telemedicina e atendimento online/virtual. Para eles, será tão normal como comprar um novo par de calças online.

Telemedicina ou telessaúde?

A adoção do termo telessaúde (em inglês, telehealth) reflete a expansão do conceito. Embora, por vezes, seja tratado como sinônimo de telemedicina (a própria Organização Mundial de Saúde faz uso desse expediente no documento Telemedicine opportunities and developments in member states), abarca um conceito mais amplo. Isto é: o uso dessas tecnologias, na área da Saúde, está disseminado para além dos médicos, e já faz parte da realidade e das perspectivas de outros profissionais, como enfermeiras e farmacêuticos.

Definição da OMS

A Organização Mundial de Saúde (OMS) adota a seguinte definição para telemedicina/telessaúde:

“A prestação de serviços de Saúde na qual a distância é um fator crítico, por todos os profissionais de Saúde, utilizando tecnologias de informação e comunicação para o intercâmbio de informações válidas para diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças e lesões, pesquisa e avaliação, e para a educação continuada dos prestadores de cuidados de Saúde, tudo no interesse do avanço da Saúde de indivíduos e suas comunidades.”

Quatro fatores essenciais na telemedicina:

  1. A finalidade é fornecer suporte clínico;
  2. Destina-se a superar barreiras geográficas, conectando usuários que não estejam na mesma localização física;
  3. Envolve o uso de vários tipos de tecnologia da informação e comunicação;
  4. O objetivo é melhorar os resultados da Saúde.

Reportagem por Andre Klodja

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Como contratar uma boa recepcionista

Uma secretária qualificada e bem orientada é uma excelente aliada profissional. Na maioria dos casos, ela é a responsável por administrar não apenas a agenda do profissional, mas também o consultório como um todo.

Por essa razão, alguns médicos consideram suas secretárias seus “braços-direitos”, pessoas em quem confiam a organização de boa parte das atividades relativas ao funcionamento do consultório ou da clínica.

A recepcionista possui também um papel importante no processo de conquista dos pacientes. Ela é quem estará na linha de frente, lidando diretamente com o público.

Quando esta profissional não desempenha seu papel com seriedade e competência, pode prejudicar a imagem do médico e afastar os pacientes.

Tanta credibilidade e responsabilidade demonstram que, para que a relação seja bem construída, é preciso saber escolher de maneira adequada a sua equipe, seja apenas uma secretária ou um grupo de colaboradores.

Para o médico recém-formado, a seleção de uma recepcionista para o consultório pode parecer algo bastante complicado. Afinal, ele ainda não possui a experiência adequada para saber de quais habilidades essa profissional necessita para fazer bem o seu trabalho.

Antes de iniciar a seleção de quem vai ocupar a recepção de seu consultório, o médico deve avaliar se conhece as funções que sua secretária terá. Somente assim poderá ter certeza de que alguma candidata tem o perfil desejado para o cargo.

Muitos médicos acreditam que a função de atendente em um consultório não exige muito esforço de um profissional e, por isso, fazem uma seleção com pouco critério.

Essa atitude, em médio ou longo prazo, pode custar mais caro do que se imagina. Na verdade, para que uma recepcionista atenda bem os pacientes, é necessário que ela tenha características específicas, tanto técnicas quanto comportamentais.

Habilidades necessárias para uma recepcionista

Uma boa recepcionista deve possuir tanto habilidades técnicas quanto habilidades comportamentais.

Nas habilidades técnicas estão as competências relacionadas às rotinas de trabalho, procedimentos de convênios e funções diretas do cargo, como conhecimento de informática, dos equipamentos médicos e da rotina burocrática e, se necessário, domínio de idiomas.

As características comportamentais incluem todas as aptidões mentais exigidas, como experiência anterior, boa comunicação, capacidade de concentração, aparência, persuasão, dicção e capacidade de organização. A conjunção dessas duas habilidades, a técnica e a comportamental, constrói um perfil adequado ao cargo.

Foco no processo de contratação

Em consultórios ou em clínicas de pequeno porte, dificilmente encontraremos profissionais específicos atuando com recursos humanos. Logo, essas funções serão desempenhadas, de forma consciente ou não, pelo médico responsável.

Entender as funções e as atividades de RH é o primeiro passo para a criação de um ambiente de alto desempenho. E a formação desse ambiente começa no processo de seleção. No que tange a gestão de pessoal, o médico deve estar atento às seguintes etapas:

  • Recrutamento e seleção – Convocar e selecionar funcionários, de acordo com os pré-requisitos de cada cargo.
  • Descrição dos cargos – Determinar as atividades, as responsabilidades e a qualificação necessária de cada cargo.
  • Treinamento – Orientar o colaborador sobre como executar as atividades do seu cargo. Desenvolver, no curso de seu trabalho, competências técnicas e humanas
  • Acompanhamento e motivação – Coordenar as tarefas dos funcionários e executar ações para motivá-los e comprometê-los com o resultado do trabalho.

Todas essas funções são vitais. Por meio delas, consegue-se definir as atividades que cada colaborador deve realizar: conscientizar cada pessoa do seu papel; transmitir o que se espera do trabalho de cada um; selecionar pessoas com o perfil (técnico e comportamental) adequado para exercer determinada função; orientar, treinar e desenvolver o potencial de cada membro da equipe; e criar mecanismos para que os funcionários sintam-se motivados a exercer o trabalho.

Recrutamento e seleção

O processo de recrutamento e seleção não deve ser feito sem critério. Para alcançar bons resultados, algumas etapas e regras devem ser respeitadas.

Mesmo para o cargo de recepcionista, hoje se exige muito mais conhecimento e habilidades do que há alguns anos. Portanto, selecionar pessoas sem critério e cuidados para funções consideradas “simples” pode gerar prejuízo e retrabalho.

As responsabilidades de uma recepcionista, por exemplo, vão além de atender as pessoas: mandar e-mails, fazer serviços administrativos e financeiros, criar bancos de dados em computador e redigir documentos são apenas algumas das novas funções que essa profissional deve exercer.

Portanto, o processo seletivo é uma etapa importante para a construção de uma equipe que agregue valor ao trabalho do médico, ajudando-o a criar um nome forte e pacientes embaixadores.

Relacionamento com a equipe

Além desses cuidados na hora da contratação, o médico deve estar consciente de que deverá investir constantemente para manter uma boa relação com seus funcionários.

Mas por que essa relação é importante? Em serviços de saúde, a interação com o cliente passa por diversos momentos. O paciente tem somente um único momento de interação direta com o médico.

Em todos os demais momentos, seja antes ou após um procedimento, o diálogo acontece entre o paciente e um funcionário do consultório ou clínica (possivelmente a recepcionista ou alguém com função similar).

Após algum tempo, a rotina de um consultório médico pode se tornar entediante para a recepcionista que, todos os dias, é obrigada a exercer as mesmas ações e tarefas.

Garantir que seus colaboradores não vão ficar desmotivados é uma atitude que o médico deve pôr em prática.

Se essa pessoa não estiver absolutamente preparada para lidar com os pacientes ou tratá-los da maneira adequada, e transmitir nestes diálogos os valores e metodologias que o médico quer associar a sua imagem, todo o trabalho e investimento poderão se perder.

Recepcionista: o “radar” do médico

A recepcionista também pode atuar como uma espécie de “radar” do médico. Ou seja, alguém que está próxima do público e que poderá detectar tanto problemas quanto excelentes oportunidades.

Uma profissional atenta poderá perceber, por exemplo, elementos do ambiente que estão incomodando ou mesmo dificultando a passagem dos pacientes pelo local.

Esses e outros dados, aos quais o médico normalmente não tem acesso, podem muito bem ser detectados pelos funcionários da linha de frente. Isso não significa que a recepcionista precisa bisbilhotar sobre tudo o que se passa na sala de espera.

Mas o médico deve orientá-la para que esteja atenta até mesmo aos comentários feitos pelos pacientes ao saírem do atendimento. Quando estão insatisfeitos, os pacientes tendem a se queixar com outras pessoas no local e até com a própria funcionária.

Quando percebe a insatisfação, a recepcionista pode agir de maneira a reverter a percepção negativa e alertar o especialista sobre o problema.

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Padronizar ou personalizar: o que é melhor?

paciente

Durante uma consulta, o atendi­mento ao paciente pode ser feito de forma personalizada ou padronizada. Na forma padrão, um “roteiro” é se­guido pelo médico, que trata todos os pacientes da mesma forma, indepen­dentemente de suas necessidades.

Uma característica negativa desse tipo de atendimento é que pode levar o pacien­te a sentir-se desvalorizado. Já na forma personalizada, o cliente é atendido pelo médico de maneira mais pessoal, sendo tratado com mais exclusividade e, assim, sente-se especial e importante. Esse tipo de atendimento vem sendo cada vez mais procurado, atualmente.

Na Medicina, é muito alegada a necessidade da padronização, porque o atendimento precisa seguir um ro­teiro pré-estabelecido, baseado nas diretrizes estipuladas pelas sociedades de especialidades médicas.

Contudo, também é importante personalizar, ou seja, tratar o paciente como uma pessoa única e não apenas como mais um portador de uma doença. Esse equilíbrio entre padronizar e personalizar não é fácil, mas faz-se necessário durante a carreira médica. Se o atendimento é pa­dronizado demais, tende a ser robotizado, impessoal e frio.

Já no caso de ser personalizado além do ideal, há uma forte tendência a ficar desorganizado e gerar pouca confiança nos pacientes.

Consulta padronizada para atingir o objetivo

Pediatra do Rio de Janeiro, Paulo Abrahão conta que, desde a criação das escolas médicas, existe uma disciplina de Clínica Médica que ensina aos for­mandos a correta abordagem dos pa­cientes para obter, de maneira objetiva, todo o histórico e a evolução das quei­xas que motivaram a consulta.

“Por meio de uma sequência de perguntas que tentam estabelecer uma cronologia entre a queixa principal e sua evolução e a história da doença atual, o médico tem como chegar às hipóteses diagnós­ticas. Após um exame físico protocolar, ele estabelece, por fim, as diretrizes li­gadas ao diagnóstico e aos possíveis tra­tamentos”, explica.

Segundo o especialista, essa padro­nização deve ser seguida à risca, pois é importante para garantir tranquilidade ao paciente e evitar a insatisfação.

“Se todos os médicos seguissem, roboti­camente, todos os passos que foram exaustivamente ensinados nas escolas médicas, os índices de insatisfação despencariam e os pacientes se sentiriam mais seguros e assistidos”, defende.

Personalizar e identificar o perfil do paciente

Cirurgião plástico do Rio Gran­de do Sul, João Samuel acredita que o bom atendimento começa ao identificar o perfil de cada paciente para atendê-lo da melhor forma pos­sível. “Há alguns procedimentos na anamnese e no exame físico que são de rotina, mas, mesmo assim, sua execu­ção deve acontecer de forma individu­alizada”, opina.

Segundo o médico, o fato de o pa­ciente voltar ou não pode acontecer por vários motivos, e a consulta personaliza­da acaba ajudando a construção de uma boa relação médico-paciente e mostran­do o comprometimento do profissional com aquele caso específico. “Para cada paciente, seu caso é o mais especial, e é assim que o médico deve encarar cada um”, define.

Quanto à importância da primeira consulta, o cirurgião plástico acredita que é a base de todo o tratamento. É a partir dela que se conhecem os motivos pelos quais o paciente procurou o aten­dimento e, também, é onde o médico faz a história clínica pregressa e atual do paciente.

“É na primeira consulta que o paciente tem a impressão de como será seu tratamento. Os recursos para personalizar o atendimento devem ser utilizados não só na primeira, mas em todas as consultas, para incrementar o atendimento cada vez mais”, avalia.

Um pouco de cada

Para o otorrinolaringologista Rafael Costa, de São Paulo, cada indivíduo tem necessidades distintas, portanto, necessita de um tratamento diferen­ciado e específico, fazendo com que a personalização do atendimento tenha um poder maior de cativar e fidelizar o paciente. De acordo com o médico, é na primeira consulta que são ide­tificadas as principais características de cada paciente.

“É ali que vemos o que pode ou não funcionar para cada um. Certamente, é nesse momento que o profissional consegue angariar dados para personalizar seu atendimento”, explica.

Costa acredita que todo atendimen­to deve seguir uma rotina, um proce­dimento padrão, para que o problema de saúde do paciente – o que realmente importa – seja identificado e conduzi­do.

“Essa parte é padrão, deve seguir uma rotina e ser bem direcionada. A personalização entra no meio disso e não necessariamente vai gerar uma per­da de tempo muito grande”, analisa.

Padronização na consulta

Vantagens:

  • Rotina executada com mais segurança e precisão;
  • Menos possibilidades de falhas e erros no atendimento;
  • Quando na medida certa, permite a individualização do atendimento

Desvantagens:

  • Tendência à robotização e à falta de empatia;
  • Falta de flexibilização nos processos como um todo;
  • Quando em excesso, dificulta a individualização do atendimento.

Personalização na consulta

Vantagens:

  • O paciente é visto como indivíduo e não como portador de doença;
  • Aumento das chances de fidelização do paciente ao consultório;
  • Mais possibilidades para melhorar a relação médico-paciente.

Desvantagens:

  • Quando em excesso, aumenta risco de falhas no atendimento;
  • Pacientes podem sentir-se incomodados ao dar muitas informações pessoais ao médico;
  • Aumento do tempo de consulta, impactando na prestação do serviço como um todo.

Reportagem por Clara Magalhães

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4 passos para construir um bom relacionamento com o paciente

paciente

O relacionamento entre médico e paciente, muito diferente do que se imagina, não existe apenas no momento em que ambos estão frente a fren­te. Essa relação é construída desde o momento em que o paciente decide por qual médico ele será atendido até o pós-atendimento, consistindo em cinco momentos:

Primeiro momento

É o contato inicial. O paciente não conhece o médico, e decide se interessar em ser atendido ou não. O principal atuante nessa fase é o médico, que chama a atenção do paciente através da propaganda, principalmente a partir do “boca a boca”.

Aqui, a relação pode desencadear em uma percepção negativa, em que há a desistência do paciente, ou positiva, que o encaminha para o segundo momento.

Interesse pelo profissional

Apenas o paciente atua. É ele que, em geral, liga para o consultório para agendar a consulta. Porém, muitos bus­cam referências, conversando com quem já foi atendido por aquele médico ou, ainda, verificam se o profissional é credenciado ao seu plano de saúde.

Se o paciente não for bem atendido na hora de marcar a consulta ou descobrir que o médico não atende ao seu convênio ou, ainda, se outro paciente lhe contar algo negativo sobre o profissio­nal, pode haver desistência.

Atendimento médico

Qualquer falha nesse momento pode prejudicar toda a avaliação que o paciente fará posteriormente.

O médico precisa ser sim­pático e cortês, ouvir com atenção, falar de maneira clara, oferecer um atendimento humanizado e individualizado, ter segurança e precisão com o diagnóstico, mostrar-se atualizado com as tecnologias e inovações da Medicina e, principalmente, demonstrar que o paciente é importante.

Qualidade percebida do serviço

Após o atendimento, o paciente analisa falhas e acertos, tanto do médico quanto de sua equipe, e forma sua opi­nião sobre o serviço.

Depois dessa etapa, o paciente to­mará uma de duas atitudes: retornar ao médico quando for preciso ou desistir de um possível retorno, buscando outras alternativas.

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O que o paciente espera do médico?

fidelização do paciente

O conhecimento científico é de suma importân­cia na carreira médica para os profissionais da Medicina na hora de diagnosticar uma doença e indicar um trata­mento, mas para o paciente esse não é o único atributo esperado de um serviço médico.

Esse profissional é visto como aquele que tem o poder da cura, entretanto, no lado oposto, temos o paciente, um indivíduo fragilizado por sua condição adoentada, mas que espera também o que John Coulehan e Marian Block, autores do livro “A entre­vista Médica”, classificam como as “Três habilidades im­portantes que intensificam a comunicação entre o médico e o paciente”.

Respeito com o paciente

Aceitar o paciente do jeito que ele é. Cada pessoa é única, com suas peculiaridades que devem ser toleradas e valorizadas, mesmo quando há situações em que as ati­tudes sejam hostis ou partindo de uma teimosia por crer que seu problema de saúde não esteja relacionado com seu estilo de vida.

É preciso ter cautela e compreender a situação desse paciente, que nesse momento ele está fragilizado e pode não aceitar a sua condição. Em vez de focar diretamente nos sintomas, buscar o interesse nos sentimentos do paciente quanto a esses sintomas, o que é uma forma de demonstrar respeito por ele e, com isso, aproveitar para coletar dados mais precisos e uteis para conseguir o diagnóstico.

Ouça tudo o que o paciente tem a dizer com bastante atenção. Tal atitude demonstra ao paciente uma posição de igualdade para com ele. Demonstre também preocupação com o bem-estar dele, avisando-o sobre possíveis dores ou desconfortos na realização de um procedimento.

Sinceridade no atendimento

Seja como pessoa, seja como profissional, ser sincero é um ato autêntico. O médico está ali na condição de profis­sional que detém o conhecimento científico, mas a sinceri­dade o coloca no patamar de ser humano, tornando capaz a aproximação do paciente e maior aceitação pelo mesmo, o que também favorece a uma comunicação mais eficaz.

No entanto, ser sincero não significa ser transparente em todos os seus sentimentos. Por exemplo, o médico não deve demonstrar sua irritação caso o paciente se atrase a uma consulta. O profissional deve demonstrar compreen­são. Por estar o paciente em uma situação problematizada, ele exigirá do médico compreensão e paciência.

E se for o médico a atrasar seu atendimento, o pedido de desculpas se torna um ato de sinceridade e de respeito. É possível explicar ao paciente que nem sempre é possí­vel seguir a agenda à risca. Nesse momento, a humildade em reconhecer a irritação do indivíduo em não ter sido atendido no horário combinado muda a configuração da relação, permitindo que o paciente reconheça a boa inten­ção do médico.

Coloque-se no lugar do paciente

 Ter “capacidade de perceber com exatidão a experiên­cia e os sentimentos do paciente e de comunicar-lhe essa compreensão” é a definição dos autores para empatia. É ouvir o paciente em sua fala, postura, gesto e sentimentos, permitindo-o que perceba isso. É, antes de tudo, colocar-se no lugar do outro: o médico se põe na condição do paciente que está sendo atendido e é capaz de sentir suas emoções, dúvidas e frustrações.

Dessa forma, o médico permitirá a criação das con­dições propícias para um clima favorável na obtenção de uma história mais precisa e honesta por parte do pacien­te.

Sendo empático, o profissional tem a possibilidade de identificar quando uma pessoa exagera na descrição dos seus sintomas ou aquela que minimiza sua situação.

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Formação médica brasileira: há cursos demais?

Desde a criação da primeira escola de Medicina no Brasil, em 1808, pelo príncipe regente Dom João, muita coisa mudou na educação médica do país. Atualmente, a Medicina brasileira é considerada uma das mais avançadas no mundo, sendo o Brasil o país responsável pela criação de vários programas de saúde reconhecidos Internacionalmente, como o Mais Médicos, Saúde da Família e o Programa Nacional de Imunização. Porém quando o assunto é ensino, a carreira médica brasileira ainda é pauta de discussão.

Decisão do Governo Federal

Em abril de 2018, o Governo Federal suspendeu a abertura de novos cursos de Medicina no país nos próximos cinco anos. A medida foi solicitada pela Associação Médica Brasileira (AMB) e por outras entidades médicas, sob a legação de baixa qualidade na formação do jovem médico.

Segundo o presidente da AMB, Lincoln Ferreira, com a mudança, o país irá ganhar tempo para pensar em soluções para os problemas do ensino médico brasileiro. “Na questão da moratória de abertura dos cursos de Medicina com o Governo Federal, também foi instituída uma comissão – da qual a AMB faz parte – que estudará a reorganização da formação médica nestes próximos cinco anos,  propondo todos os requisitos necessários para o funcionamento de uma escola médica nos termos adequados no Brasil, como a exigência de hospitais-escolas e ambulatórios próximos ao ensino”, resume.

Mais quantidade, menos qualidade

Atualmente, existem 303 escolas de Medicina no Brasil, um número consideravelmente alto, quando comparado aos de países como a China, que possui 150 faculdades para 1,3 bilhão de pessoas. No ranking, o país só perde para a Índia, que possui 381 escolas médicas para uma população de mais de um bilhão de pessoas.

Pelas projeções de novos formandos no Brasil, o índice de novos diplomados deve crescer nos próximos anos e, em 2020, chegar a 15 médicos por 100 mil habitantes. Porém, apesar do crescimento do número de escolas, a qualidade do ensino não acompanhou esse quadro.

Os resultados dos últimos exames realizados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) revelam despreparo por parte dos jovens médicos. Em 12 das 13 edições do exame, mais da metade dos participantes acertaram menos de 50% das questões.

Dos 2.636 médicos que realizaram a prova, 88% dos recém-formados não sabiam interpretar o resultado de uma mamografia, enquanto 78% erraram o diagnóstico de diabetes. Para Ferreira, as notas do exame são uma evidência objetiva da atual situação do ensino médico brasileiro. “A qualidade do ensino é a questão chave desse despreparo.

Por isso, a AMB demandou do Governo Federal a interrupção do processo de abertura irrefletida de novas escolas médicas. Nenhum país, não só o Brasil, consegue formar mestres e doutores na velocidade em que foram abertas essas escolas médicas”, argumenta.

Por outro lado, o Governo alega que a abertura de cursos de Medicina é necessária devido à falta de médicos no Brasil, que possui uma das menores médias de médicos por habitantes entre os países: 2,1 médicos a cada mil habitantes. Segundo o presidente da AMB, o problema não está na falta de médicos e sim na ausência de uma política de fixação de médicos.

“Para um médico trabalhar, é necessária uma estrutura, pois, sem condições de trabalho, ele se vê reduzido à condição de uma testemunha privilegiada e absolutamente angustiada do comportamento humano. Ele vai presenciar mortes e doenças evitáveis, sequelas e sofrimento, sem dispor das condições adequadas de trabalho”, argumenta.

De acordo com José Octávio Costa, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), além da política de fixação de médicos, é importante que seja garantido o acesso de qualidade ao atendimento primário à saúde à população em geral.

“Entendo que a criação de novos cursos de Medicina venha acompanhada de avaliações periódicas das ferramentas de ensino, grade curricular atualizada com o mercado, capacitação de docentes e estudantes e alunos egressos, para que progressos possam ser feitos e a prioridade seja a prestação de serviço de alto nível”, pondera.

Outro fator que deve ser considerado é a desigualdade na distribuição geográfica. No Brasil, a Região Sudeste concentra a maior parte das escolas médicas, com 134 instituições, já o Norte possui apenas 27. Consequentemente, o Sudeste reúne 55% dos médicos especialistas do país, e menos da metade dos médicos brasileiros são responsáveis pelo atendimento dos outros 5.543 municípios do país.

Situação das residências médicas

No início de 2018, o Jornal da Medicina, publicado pelo CFM, revelou que 40% das vagas de residências médicas (RM) estão desocupadas. Segundo a publicação, dois fatores são responsáveis por esse quadro.

O primeiro é a desvalorização do posto de preceptor nos programas de RM, que não são remunerados para exercer a função. A segunda questão é o valor da bolsa do residente, considerado baixo, levando em conta o esforço despendido pelo profissional.

De acordo com o MEC, o aumento expressivo das vagas de cursos de Medicina trará um reflexo na maior procura por residências médicas. “Em 2011, tínhamos 13.768 vagas para residentes do primeiro ano (R1) e, atualmente, estamos com 23.137.

O crescimento foi ordenado e de acordo com critérios de regulação estabelecidos pela legislação brasileira, primando pelo princípio da qualidade a ser oferecida pelo programa autorizado”, informa. Segundo o órgão, a taxa de ocupação varia conforme os programas.

“São mais de 100 especialidades oferecidas. Dessa forma, temos programas como os de Pediatria, com taxa de ocupação superior aos 90%, mas outras especialidades pouco passam de 60%. Inúmeros fatores são contribuintes para uma procura maior ou menor por determinada área, desde vocação dos estudantes até apelos do mercado, que variam com o passar dos anos”, sustenta.

Politização do ensino

Atualmente, certos especialistas afirmam que as universidades têm tratado os alunos como uma forma de negócio, priorizando os lucros e não a educação, caracterizando a “politização do ensino”.

Para Lincoln Ferreira, o capitalismo se sobrepôs à qualidade do ensino. “A verdade é que o ensino virou um balcão de negócios com o aval dos governos que administraram o Brasil nos últimos 20 anos, e a qualidade ficou em segundo lugar.

Temos 60% das escolas médicas particulares, cobrando alto por aluno”, resume. Com mensalidades que variam de R$3.700 a R$12.200, as escolas médicas oferecem estrutura precária, que não justifica o valor cobrado.

Ferreira acredita que o problema não está em obter lucro com as escolas, mas, sim, em não oferecer a estrutura adequada aos profissionais. “São mensalidades bastante caras, um investimento alto, essencialmente, sem ter compromisso com o ensino, para que um médico seja formado adequadamente, do ponto de vista técnico, ou seja, capaz de exercer a profissão, do ponto de vista ético, isto é, usar seus conhecimentos para o bem do ser humano e, finalmente, no âmbito humanístico, já que do outro lado há um ser humano que tem necessidades próprias e que merece ser tratado adequadamente”, define.

Segundo Costa, alguns cursos estão localizados em cidades distantes de centros de referência em ensino ou saúde e não possuem infraestrutura adequada para que o aluno realize o estágio probatório, sem ter certeza sequer de uma supervisão contínua de avaliação do estágio alinhada com o currículo acadêmico.

“E se a pessoa paga altas prestações por alguns anos e, depois, a faculdade não vai para frente? Os valores cobrados são muito altos pela prestação de serviço acadêmico improfícua ofertada. Tenho receio sobre qual será a formação recebida por esses futuros médicos”, analisa.

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Processo contra o médico: como se resguardar?

Todo processo judicial tem início com a visita de um oficial de justiça, o que significa para muitos médicos uma dor de cabeça que po­derá durar meses. De início, vem ao profissional uma sensação ruim em relação ao paciente.

Uma dica para o médico é: caso, no início da relação com o paciente, ele desconfie de algo que poderá prejudicá-lo fu­turamente, o profissional pode fazer um desenho ou uma marca­ção diferenciada no prontuário do paciente, com o objetivo de indicar que esse cliente merece atenção especial.

Se o paciente faltar à consulta, o médico pode enviar um te­legrama convocando-o a voltar. Além disso, tudo o que for dito durante a consulta precisa ser anotado no prontuário.

O médico também pode utilizar o Termo de Consenti­mento, e precisa evitar a criação de falsas esperanças, sendo o mais realista possível.

Ação cível

O paciente que se sentir prejudicado pelo resultado de um determinado procedimento poderá ajuizar uma ação cível, com o objetivo de ser ressarcido financeiramente pelos gastos com a cirurgia e pelo custo de uma nova cirurgia reparadora se for o caso, além de medicamentos, fisioterapia e próteses.

Ele pode ainda reclamar uma indenização por dano moral, caso tenha ficado com alguma deformidade física (chamado dano estético) ou por haver sofrido algum tipo de constrangimento.

Ação penal

A ação penal, por sua vez, visa a punir o agente que comete um fato previamente definido como crime. Aqui, a ví­tima é a sociedade como um todo. O paciente pode, em tese, propor uma ação penal de lesão corporal contra o médico se algum procedimento vier a causar um dano físico desnecessá­rio, por imperícia, imprudência ou negligência do profissional.

Nesse tipo de ação, também cabe um acordo financei­ro entre as partes, pondo fim à ação. O acordo deverá ser proposto no Juizado Especial Criminal, podendo a pena de prisão ser convertida em serviços comunitários ou auxílio a entidades assistenciais.

De qualquer forma, deverá ser com­provada a culpa do profissional para que haja sua conde­nação. No caso de morte do paciente, o médico poderá ser processado pelos familiares tanto cível como criminalmente.

Procure auxílio de um advogado

Sendo o médico citado pelo oficial de justiça, deverá imediatamente procurar um advogado. Agora, o tempo é seu maior inimigo, já que, na maioria das ações, o prazo para responder será de 15 dias.

Em casos assim, o médico deve buscar um profis­sional com especialização em Responsabilidade Civil, e dentre esses, um que atue na área médica, devido a sua intrínseca especialização.

Quais são as provas?

Nesse momento, é hora de notar a função de um bom prontuário médico e um Termo de Consentimento Infor­mado. Nada que se faça poderá impedir o paciente de ajui­zar uma ação. Porém, caso ele entre com o processo, toda a documentação servirá de base para a defesa do médico.

Por exemplo: a cópia do telegrama enviado para o pa­ciente retornar ao tratamento é prova bastante de que o médico não lhe deu alta, bem como o Termo de Consen­timento Informado caracteriza quais eram as expectativas reais no tratamento. Dessa maneira, o juiz ficará bem à vontade para julgar que a ação não procede, inocentando o médico no processo.

Não faça acordos sem um processo judicial

Um acordo poderá ou não fazer parte da estratégia de defesa. Porém, o que não se pode concordar, em hipótese alguma, é a celebração de um acordo sem a existência de um processo judicial.

Caso contrário, feito o acordo de qualquer valor com o paciente, ele poderá mesmo assim ajuizar a ação, alegando ao juiz que o médico reconheceu o erro ao devolver o dinheiro e que, apesar de o dano ma­terial ter sido ressarcido, falta ainda o dano moral.

Nessa situação, a defesa fica completamente prejudicada. Embora a lei assim não o considere formalmente, o acordo sempre implica perante a opinião pública uma confissão de culpa por parte do réu. Por isso, muitas ve­zes, é preferível que o acordo seja evitado, principalmente quando as chances de vitória são razoáveis.

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Ética na comunicação do médico

Uma palavra com apenas cinco le­tras, que está por todos os can­tos: ética. O Brasil vive um momento único. Chegamos ao fundo do poço e podemos, pela primeira vez, enterrar de vez o ‘jeitinho’ que sempre foi tão característico de nosso povo, mas que, disseminado em todos os setores e na sociedade, trouxe junto a corrupção generalizada e sistematizada. Serão novos ventos que trarão novos tem­pos? Só o futuro dirá.

O Médico e o Jornalista – afinal a im­prensa não é nenhum monstro uma pu­blicação da DOC Content, que tive o prazer de escrever, juntamente com o também jornalista Cacá Amadei, e que acaba de ser lançada – traz um capítulo inteiro dedicado à ética na comunica­ção. Mas como a comunicação é apenas o reflexo de atitudes conjuntas de uma empresa, clínica ou consultório, o capítulo é, na verdade, um ensaio sobre a própria vida.

Não é possível ser ético apenas ao comunicar. A ética tem que estar em todos os processos e a comunicação será apenas consequência. No capítulo mencionado, convidamos a psicóloga Deborah Bretas, que é uma estudiosa em Comunicação, para auxiliar em um entendimento mais amplo do tema. “A Ética é o exercício individual de refle­xão sobre os conteúdos morais codificados por uma certa sociedade, em um dado momento histórico. Ela pressu­põe a sustentação da vida em comuni­dade”, contextualizou Deborah.

A especialista ainda foi além: “em última instância, a Ética busca reconhecer quais aspectos de uma dada moralidade favorecem a sustentação do que chamamos a vida humana e os que a ameaçam. Reconhece a alteridade como base da vida social. O ‘Eu’ e ‘Outro’ e a sua interdependência. Podemos entender que o ser humano é basicamente dependente. Estabelece relações com o mundo além de sua individualidade. Precisa do ar, da água, do alimento e da influência do outro para edificar e sustentar aquilo que chamamos de vida humana. Nessa compreensão surge o sentido de alteridade. ‘Eu’ e o ‘Outro’. Emerge o campo

das relações, onde se estabelece a neces­sidade da reflexão ética. Daquilo que devo, posso e quero fazer e daquilo que não devo, não posso e não quero fazer. Comunicar com ética é praticar essa re­flexão todos os dias”.

A comunicação ética é consequência de todo um processo global e não um ato isolado. Caso contrário, será um discurso vazio, um ato forjado que, em algum momento, será desnudado. Um bom exemplo é o Ética Saúde – acor­do setorial de iniciativa da Associação Brasileira de Importadores e Distribui­dores de Implantes (Abraidi) e do Ins­tituto Ethos – que se tornou um divisor de águas, inicialmente no mercado de Dispositivos Médicos Implantáveis, e hoje é uma referência em todo o seg­mento da Saúde.

O Ética Saúde é o maior exemplo de que é possível fazer diferente e que é in­sustentável, nestes novos tempos, agir de forma diversa. Não é por acaso que até as pequenas empresas do setor de Saúde têm estruturado departamentos de compliance e vêm buscando as rela­ções éticas nos negócios.

A Ética não pode ser um discurso, caso contrário cairá como um castelo de cartas. Não faltam exemplos para olhar­mos em todos os setores da sociedade que se apropriaram do discurso ético, mas, na prática, agiam ou ainda agem na escuridão.

Como escreveu o filósofo alemão Immanuel Kant: “Tudo o que não puder contar como o fez, não faça!”. É evidente que o filósofo não está fa­lando contra a privacidade, mas em relação a algo que, ao ser feito, causará vergonha, que é antiético. Ético é ser ético. Cinco letras apenas, mas que fa­zem todo o sentido nas atitudes e não somente nas palavras.

Voltando ao artigo que encerra o livro O Médico e o Jornalista cito Bob Marley, que, de forma conclusiva, um dia afir­mou: “São as atitudes e não as circuns­tâncias que determinam o valor de cada um. O que você diz, com todo o respei­to, é apenas o que você diz”.