Publicado em

Glosa Médica: como evitá-la?

glosa médica

No dia a dia, os profissionais da Saúde precisam lidar com situações de todos os tipos. Em alguns casos, o paciente chega ao consultório, apresenta a carteira do seu convênio, realiza um procedimento e deixa o consultório com seu problema resolvido. Porém, para o médico, essa não é a realidade.

Ao final do processo, é preciso enviar uma solicitação de prestação de contas para que as operadoras de saúde possam reembolsar o prestador. Nesse trâmite, porém, o médico pode encontrar um obstáculo: a glosa médica.

Glosa é toda cobrança efetuada que não coincide com os acordos e as regras firmadas entre o serviço contratado e a empresa contratante. Na área da Saúde Suplementar, a glosa médica ocorre quando o plano de saúde suspende o pagamento de serviços contratados, como consultas, atendimentos, medicamentos, materiais ou taxas cobradas por hospitais, clínicas, laboratórios ou outros profissionais de saúde conveniados, repassando esse custo para os prestadores do serviço.

Operadora versus prestador de serviço

No geral, a relação entre os planos de saúde e os médicos é complexa, principalmente quando o assunto é glosa médica. Para Marcelo Brito, presidente da Federação Baiana de Saúde (Febase), esse relacionamento se torna conflituoso, pois um dos lados sai perdendo.

“A operadora pede que o médico atenda, mas ela deseja que você não atenda, e se atender, que seja pelo menor custo possível, o que nem sempre é viável, dependendo da doença apresentada pelo beneficiário do plano, para que você possa realizar o tratamento ou a recuperação do estado de saúde desse mesmo usuário. Ou seja, não é uma relação na qual os dois lados ganham: é uma relação que para um ganhar, o outro tem que perder”, analisa.

Ao estabelecer o contrato com médicos autônomos ou clínicas, há uma série de critérios que devem ser estabelecidos. De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), é obrigatório formalizar, em contratos escritos entre operadoras e prestadores de serviços, as obrigações e as responsabilidades entre essas empresas. Caso não existam esses documentos, a ANS poderá aplicar as penalidades previstas na Resolução n° 124/2006.

Segundo Rodrigo Andrade, advogado da Confederação Nacional de Saúde (CNS), em muitos contratos, os critérios não são claros. Com isso, as operadoras se reservam o direito de glosar as contas, muitas vezes sem qualquer justificativa. “Por vezes, as operadoras alegam que o material usado no procedimento é mais caro do que o autorizado, outras vezes não dão explicação. Além disso, os critérios, prazos e procedimentos variam de uma operadora para outra, sendo completamente feitos dentro do seu próprio sistema de informações. Como não há prazo para a conclusão da auditoria, o prestador pode ficar esperando anos pelo pagamento da conta, sem previsão de esclarecimento”, alerta.

Glosa Médica no dia a dia

De acordo com um boletim divulgado pela Federação dos Hospitais, Clínicas, Casas de Saúde, Laboratórios de Pesquisas e Análises Clínicas e Demais Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (Fehoesp), em março de 2018, 90% das clínicas médicas sofreram com glosas praticadas por planos de saúde.

Márcia Massari, gerente de contas médicas do Hospital Prontobaby, no Rio de Janeiro, revela que as glosas mais comuns são as administrativas, pois dependem do correto cadastro do paciente no sistema, como matrícula, solicitações de autorizações e senhas, o que frequentemente gera erros.

“Para evitar essas situações, temos sempre que verificar se todos os dados do paciente estão corretos, além de conferir se as guias estão devidamente assinadas e preenchidas, e enviar também documentação comprovando a realização dos procedimentos cobrados e justificativas técnicas, quando necessário”, resume.

Para Brito, outro tipo de glosa comum é em relação a valores. “Há uma tabela determinada em contrato, e a operadora, por alguma razão, passa a dizer que aquele valor acordado ficou desatualizado. Com isso, ela passa a aplicar um novo valor, sem a concordância nem a aceitação por parte do prestador de serviço”, exemplifica.

A fim de evitar essas situações, o médico aconselha: “O que se pode fazer é ter muito cuidado na confecção da fatura e ter uma equipe absolutamente preparada para isso, além de ter um sistema de informática de faturamento robusto, para que o médico possa apresentar a fatura”.

Segundo Márcia, a agilidade do prestador de serviços também pode auxiliá-lo no ato de recorrer de uma glosa. “Quanto mais rápido ele analisar as glosas e fizer o recurso, mais rápida será a resposta do recurso. Existem várias formas de realizar os recursos, que são determinadas pela operadora: por meio do próprio site da operadora, por planilhas em Excel, por telefone, presencialmente e outros meios”, afirma.

Tecnologia em foco

Usar a tecnologia também tem se mostrado uma ótima forma de evitar as glosas. “Antigamente, os recursos eram, em sua maioria, presenciais. Hoje, com avanço da tecnologia de informação, a maioria dos recursos são feitos pelo site da operadora, ocorrendo mais agilidade e otimizando tempo”, constata Márcia. A tecnologia melhora a troca de informações e ajuda a organizar dados, otimizando a rotina de consultórios. A implantação de prontuários eletrônicos é um bom exemplo dessa ferramenta.

Essas plataformas reduzem de maneira significativa o número de erros e deixa as informações mais claras, além de padronizar os processos. “A própria ANS determinou um critério de apresentação de glosas, um formulário eletrônico padronizadoPorém, a maioria das operadoras não implementou o arquivo. Ou seja, elas não têm interesse em justificar essa glosa, pois permite ao prestador apresentar recursos ou acirrar o relacionamento se a glosa for indevida. Podendo ele exigir o pagamento integral, sob pena até de uma rescisão contratual”, sustenta Brito.

Tipos de Glosa

  • Administrativa: é caracterizada por processos administrativos incorretos, como erros no preenchimento do número da carteira do beneficiário ou do código de um procedimento, realização de um serviço não coberto pelo plano, falta de assinatura do paciente ou do médico na ficha clínica, entre outras situações.
  • Técnica: está associada à necessidade de um auditor para avaliar procedimentos cobrados sem argumentação técnico-científica, como descrição incompleta da assistência de enfermagem prestada no prontuário do paciente, anotações realizadas a lápis e utilização de um procedimento diferente daquele autorizado pelo plano.
  • Linear: são recorrentes de uma postura unilateral dos convênios ou planos de saúde e podem caracterizar prática irregular e possibilitar visita técnica e outras medidas regulatórias por parte da ANS.

Orientação jurídica

Como recorrer de uma glosa médica?

O prestador precisa buscar o Poder Judiciário, para que seja declarado o abuso dessa prática e para a operadora ser condenada a pagar pelos serviços.

É uma situação complicada e nem sempre recomendável, pois as operadoras são verdadeiros gigantes e, na maioria das vezes, a maior parte do faturamento desses profissionais decorre do atendimento pelos planos de saúde. Isso significa que, para o prestador, o vínculo com a operadora faz toda a diferença para sua sobrevivência, mas a recíproca não é verdadeira: a operadora pode descredenciar o profissional quando quiser, e isso não a afetará.

As operadoras descredenciam os médicos devido às glosas?

As operadoras não descredenciam por glosas reiteradas. Para elas, não faz diferença, já que simplesmente suspendem o pagamento e, se pagarem meses depois, não incluirão juros nem atualização financeira. As operadoras apenas ameaçam descredenciar os profissionais se eles questionarem muito ou se buscarem o Judiciário contra elas.

Publicado em

4 motivos para cuidar das finanças do consultório

finanças do consultório

A gestão das finanças do consultório é tão importante quanto de uma multinacional. Por desconhecimento ou por falta de habilidades – e por acreditarem que a gerência financeira se limita a pagar contas e ver quanto sobrou no final do mês –, muitos profissionais não dão o devido valor à atividade em seu consultório.

O exercício da Medicina vem sofrendo diversas mudanças significativas nas últimas décadas. Entre elas, o crescimento do número de pacientes conveniados, o aumento da tecnologia, a exigência cada vez maior dos pacientes, o advento das sub-especialidades e a elevação dos custos da carreira médica.

Esses fatores aumentaram – e muito – a complexidade do mercado. Portanto, para ser um médico bem-sucedido nesse novo cenário, não basta ser apenas competente na técnica, é preciso estar atento às tendências e desenvolver novas habilidades.

Durante o curso da faculdade de Medicina, os futuros médicos não recebem uma formação que os instruam a respeito do gerenciamento financeiro de seus consultórios. E com o aumento cada vez maior no total de profissionais atuando no país, maior é a concorrência no mercado médico, tornando necessário o conhecimento na administração financeira, seja das contas pessoais, seja das do trabalho.

Atualmente, para manter-se no mercado, o médico deve perceber que gerenciar um consultório é ter uma atividade empresarial no ramo da Saúde, com fins lucrativos, para que seja possível manter o negócio em funcionamento, bem como cuidar de questões trabalhistas. E em um cenário de economia inconstante, conhecer um pouco sobre controle financeiro se faz essencial para sobreviver à concorrência. Por este motivo, separamos quatro razões principais para cuidar bem das finanças do consultório:

1. Consultório também é uma empresa

Apesar de suas particularidades, o consultório é uma empresa – possui funcionários, tem gastos com equipamentos e ainda paga tributos. Tal como as demais empresas, o consultório também visa o lucro, renda que arcará com os custos do exercício da atividade. Sendo assim, a boa gestão financeira otimizará o uso dos recursos, trazendo, portanto, melhores resultados.

2. Mais lucros sem comprometer a qualidade de vida

O pensamento comum é o de que para gerar mais lucro deve-se trabalhar mais, reduzir as horas de
sono, ter menos tempo com a família e com os amigos, sacrificar a própria saúde e a qualidade de vida. Mas sabendo gerir as finanças do consultório, o profissional conseguirá administrar seu negócio e sua vida, tendo sucesso em sua carreira médica e melhorando a qualidade de vida.

3. Foco no crescimento profissional

Ganhar tempo e usar esse benefício em prol do crescimento profissional é um dos pontos em que a qualidade na gestão financeira ajuda, além de contribuir para consolidar uma boa reputação. Qualificar-se permitirá a busca por uma remuneração diferenciada, aumentando o retorno sobre as atividades.

4. Criar e manter competitividade

O mercado de trabalho na Medicina está com a concorrência cada vez mais concorrência acirrada. Por isso, é preciso manter-se competitivo, tornar-se autossustentável com o passar do tempo, para que se possa usufruir desse patrimônio futuramente.

 

Publicado em

Lições da Apple para a gestão médica

Steve Jobs também era muito apaixonado pelo que fazia, na mesma proporção que seu nível de exigência. Na época em que esteve à frente da Apple, a corporação funcionava quase como um regime militar, com funções muito bem definidas, pouca tolerância a erros e a exigência da maior discrição possível (e impossível) sobre seus próximos projetos. Para conseguir seu pôr em prática seu intento, Jobs fazia duas reuniões semanais.

Uma às segundas-feiras, para discutia projetos importantes, e outra às quartas-feiras, para lidar com sua equipe de marketing e comunicação. Todos os que participavam dessas conversas saíam das reuniões com uma lista de tarefas e, ao lado de cada atribuição, eram discriminadas as responsabilidades individuais de cada funcionário.

Seria esse controle obsessivo algo prejudicial para o médico que empreende? Não necessariamente. Mas é preciso, contudo, desempenhar a função plenamente, com o máximo de atenção possível. “Quem controla tem que controlar de verdade, sobretudo quando falamos em escolha de fornecedores.

Tenho um colega médico que contratou uma agência de comunicação para fazer um busdoor. Só que a empresa não executou o serviço corretamente, utilizando palavras difíceis de entender. É preciso ter muito conhecimento para montar uma interface com outros profissionais, sejam eles fornecedores ou da própria equipe. Só assim é possível exercer o controle”, acredita D’Aguiar. O grande mérito da Apple é ter a habilidade de dar aos clientes o que eles querem, antes mesmo de saberem que desejam. Isso é o resultado da visão criativa da empresa, aliada a práticas eficazes de gestão. Um exemplo simples – mas bem eficiente – é a receita impressa.

“Os geriatras já partiram para esta ‘inovação’, e costumam fornecer receitas com letras grandes para ajudar não só a leitura do idoso, mas também a do farmacêutico”, exemplifica o médico do trabalho. E você? Já pensou por onde começar? Lembre-se de que não há progresso sem mudança e, o mais importante, não tenha medo dos desafios.

Esse post faz parte da série “Gestão em saúde: Google, Microsoft e Apple“.  Fique atento para acompanhar mais lições destas grandes marcas para as áreas médicas

Publicado em

Telemedicina e o debate sobre o futuro da Saúde

telemedicina

Desde que a tecnologia da informação começou a ganhar espaço em todo o mundo, as distâncias passaram a ser menores. Muitas pessoas imaginam que vivemos, hoje, em uma realidade próxima à dos filmes de ficção científica. Prova disso é que conseguimos falar com quem está distante – até mesmo do outro lado do planeta – em poucos segundos por meio de mensagens, vídeos e áudios em celulares, redes sociais e outros dispositivos digitais.

Já que tudo isso invadiu nosso dia a dia, era de se esperar que também invadisse os consultórios e, de quebra, impactasse na relação médico-paciente. Um termo passou a ser muito falado nos últimos tempos: a Telemedicina.

O debate ganhou mais força depois que uma polêmica resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) foi publicada em 6 de fevereiro. O documento definia o que é a Telemedicina e de que forma ela poderia ser exercida no país, além de regulamentar toda a questão no Brasil.

Porém, a resolução não foi bem recebida pelos conselhos regionais de Medicina (CRMs), que criticaram vários pontos do documento. Devido aos debates que surgiram, o CFM decidiu revogar a resolução em 22 de fevereiro, analisar as sugestões e críticas recebidas e recomeçar o debate para desenvolver um novo documento.

Debate sobre Telemedicina no Brasil

Telemedicina no Brasil

 

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), Sylvio Provenzano, a grande crítica à resolução do CFM é que ela era abrangente demais, sem estabelecer claramente responsabilidades e limites para a Telemedicina.

O Cremerj foi um dos conselhos regionais que mais criticou a resolução. Procurados pela nossa equipe de reportagem, o CFM e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), outro grande crítico ao documento, não quiseram se manifestar, alegando que os debates sobre o tema ainda estão acontecendo.

Provenzano explica que toda a polêmica surgiu porque o CFM publicou a resolução 2.227/2018 sem o parecer dos conselhos regionais. “Havia uma reunião marcada para que os presidentes dos conselhos discutissem a resolução. Mas fomos surpreendidos com a promulgação antes de essa reunião acontecer.

Quando a reunião aconteceu, o que fizemos foi listar uma série de não conformidades que detectamos no texto. Por exemplo: no artigo 4º, não é dito que seria necessária a consulta médica presencial inicial. Então, quem faria essa primeira avaliação? Quem ficaria responsável pelas decisões diagnósticas?”, questiona.

O presidente do Cremerj ressalta que o órgão aceita a Telemedicina como uma realidade já presente na Saúde brasileira e que precisa ser regulamentada o quanto antes. Porém, o que Provenzano defende é que haja um grande debate, envolvendo outros segmentos da sociedade, como advogados, professores e jornalistas.

“A nossa preocupação é com o comprometimento do ato médico. Hoje, o médico é o grande responsável por guardar as informações do paciente. E, na Telemedicina, isso ficaria sob responsabilidade de uma empresa de tecnologia. Como fica o sigilo? Um hacker pode invadir e colocar tudo na rede”, alerta.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde (ABTms), Humberto Serra, a resolução do CFM representaria um grande avanço para a Saúde no Brasil, ampliando o acesso dos serviços médicos à população. “Toda mudança de paradigma tem suas resistências e não seria diferente com a classe médica. Acho que faltam esclarecimentos para romper essas resistências. De qualquer maneira, assim como o Conselho Federal de Psicologia (CFP) já fez, regulamentando o atendimento à distância, essa é uma iniciativa esperada por todos os conselhos da área da Saúde”, afirma Serra, que também é coordenador do Núcleo Estadual de Telessaúde do Maranhão.

Luiz Ary Messina, coordenador nacional da Rede Universitária de Telemedicina (Rute), acredita que a regulamentação do CFM seria uma tranquilidade para um setor que já existe no país há pelo menos 15 anos.

“Como não foi assim, vejo esse momento como uma oportunidade para a classe médica ser confrontada com uma questão ainda pendente. Na década de 1970, isso aconteceu com os bancos, com a automação de processos. O mesmo aconteceu, nas décadas seguintes, com as indústrias. Está na hora de acontecer com a Saúde”, destaca.

Contribuições para o futuro da Medicina

A Telemedicina é definida pela resolução do CFM como o exercício da Medicina mediado por tecnologias para fins de assistência, educação, pesquisa, prevenção de doenças e de lesões e promoção da saúde.

“Nos tempos atuais, é importante registrar que a Telemedicina é a ferramenta com maior potencial para agregar novas soluções em saúde e que muitos dos procedimentos e atendimentos presenciais poderão ser substituídos por interações intermediadas por tecnologias.

Porém, não se deve esperar que se torne um remédio para todos os problemas de assistência à saúde”, explica Aldemir Humberto Soares, conselheiro-relator da resolução 2.227/2018, em texto publicado em anexo ao documento do CFM.

No mesmo documento, Soares ressalta o quanto a Telemedicina pode contribuir para o atendimento das demandas por saúde em lugares remotos do país “A Telemedicina foi originalmente criada como uma forma de atender pacientes situados em locais remotos, longe das instituições de saúde ou em áreas com escassez de profissionais médicos. Enquanto ela ainda é usada para resolver esses tipos de problemas, ao mesmo tempo vem se tornando cada vez mais uma ferramenta para cuidados médicos. A Telemedicina é uma evolução natural dos cuidados de saúde no mundo digital. A cada dia, torna-se mais indiscutível a capacidade que ela tem de melhorar a qualidade, a equidade e a acessibilidade”, afirma o relator.

Humberto Serra concorda que a Telemedicina tem potencial para solucionar grandes problemas da Saúde no Brasil. “Nos países em desenvolvimento, ela pode ampliar o acesso aos serviços médicos especializados em locais que não contam com especialistas ou serviços especializados.

Também pode atuar na melhoria da qualidade da atenção à saúde, na redução do tempo gasto entre o diagnóstico e a terapia, na racionalização de custos e no apoio à vigilância epidemiológica, auxiliando na identificação e no rastreamento de problemas de saúde pública”, lista o presidente da ABTms.

Dúvidas sobre Telemedicina

O presidente do Cremerj ressalta que a Telemedicina seria uma grande contribuição, sem dúvidas, para a Saúde no país, se houvesse estrutura para tal. “Como posso fazer Telemedicina em lugares remotos do país, onde certamente há dificuldade de conseguir uma banda larga suficiente para compartilhar essas informações em tempo hábil? Se em uma cidade como o Rio de Janeiro, a segunda maior do país, temos problemas com a internet, onde a banda larga fica ‘estreita’ demais e cai, como seria isso no Oiapoque (AP), em Santarém (PA) ou em Quixadá (CE)?”, questiona Sylvio Provenzano.

O dirigente destaca que não se trata apenas de melhorar a estrutura tecnológica, mas questões jurídicas e práticas precisam ser definidas e regulamentadas para que a Telemedicina possa se tornar viável no país.

“Há questões legais e de bioética que vêm sendo discutidas com advogados. Outro ponto: de quem é a responsabilidade e quem recebe por determinados procedimentos? Vou dar um exemplo: especialistas se reúnem em um hospital em São Paulo para assessorar um procedimento de cirurgia robótica em um lugar remoto.

O responsável é o médico que está a distância, disponibilizando conhecimento, tempo e experiência, ou o que está presencialmente assistindo o paciente? Como será o pagamento desses médicos? Quem fica responsável pela segurança das informações? Essas são algumas das perguntas ainda sem resposta”, afirma.

Perguntas sem respostas não vêm apenas do presidente do Cremerj. Para o coordenador da Rute, Luiz Ary Messina, a maioria da classe médica no Brasil não sabe o que é a Telemedicina. “As pessoas têm que ser treinadas sobre isso.

Entre as faculdades de Medicina, você conta nos dedos as que têm alguma disciplina que trata sobre a Telemedicina na graduação. Ou seja, falta conhecimento. Soma-se a isso outras razões, como o receio de parte da classe médica de perder espaço para grandes corporações, muito mais bem preparadas tecnologicamente”, acredita.

Messina, porém, ressalta que a Telemedicina já é uma realidade e cabe ao médico correr atrás para entender melhor sobre o assunto. “O desconhecimento é um problema que pode ser resolvido à medida que os médicos tomem ciência do que se trata e se informem, lendo ou participando de congressos.

A Telemedicina já é uma realidade. As pessoas que não querem entender como é esse processo acabam atropeladas. Em países continentais, como Brasil, Rússia, China, Índia, Estados Unidos e Canadá, é impossível ter um especialista em todas as cidades. Isso é possível com a Telemedicina, mesmo que à distância”, defende.

Modalidades de Telemedicina

  • Teleconsulta: consulta médica remota, com médico e paciente em diferentes espaços geográficos.
  • Telediagnóstico: emissão de laudo ou parecer de exames, com envio de imagens e dados pela internet.
  • Teleinterconsulta: troca de informações e opiniões entre médicos, com ou sem a presença do paciente.
  • Telecirurgia: procedimento feito por robô, manipulado por um médico que está em outro local.
  • Teleconferência: grupo de médicos que se reúne para receber e debater sobre imagens, dados e áudios.
  • Teletriagem: avaliação a distância de sintomas para direcionar o paciente ao tipo de assistência necessária.
  • Teleorientação: declaração para contratação ou adesão a plano de saúde.
  • Teleconsultoria: troca de informações entre médicos e gestores sobre procedimentos de saúde.
  • Telemonitoramento: avaliação da saúde do paciente, evitando ida ao pronto-socorro ou casa de repouso.

História da Telemedicina no Brasil e no mundo

Idade Média – Na Europa, por conta da peste que devasta o continente, é registrado o primeiro caso de Telemedicina da história. Um médico se isola na margem de um rio para atender a distância os pacientes na margem oposta.

Século XIX – Com a invenção do telégrafo e do telefone, o envio de laudos de exames se torna realidade.

1910 – Em Londres, SG Brown inventa o estetoscópio eletrônico, capaz de transmitir sinais por até 50 milhas de distância.

Segunda Guerra Mundial (1939-1945) – Durante o conflito, rádios são utilizados para conectar médicos em diferentes lugares, trocando informações.

Década de 1960 – É criado, na cidade de Norfolk, nos Estados Unidos, um sistema de comunicação entre hospitais. O sistema permite, ainda, a realização de videoconferências entre pacientes e familiares, que muitas vezes estão em lugares distantes.

Década de 1970 – Surge a transmissão de dados para diagnósticos. Um exemplo é a criação de um serviço na Groenlândia para receber suporte de saúde de hospitais da Dinamarca.

1993 – Criada a Associação Americana de Telemedicina (ATA), entidade pioneira do tema no mundo.

Década de 1990 – Surgem as primeiras iniciativas de Telemedicina no Brasil, com realização de laudos de exames a distância e videoconferências.

Décadas de 2000 e 2010 – Cresce a Telemedicina no Brasil e no mundo. Com a evolução tecnológica, criação de dispositivos móveis e democratização da internet, a Telemedicina ganha força para atender, principalmente, pacientes em lugares remotos.

Publicado em

Auditoria médica: saiba tudo sobre essa função

A auditoria médica pode ser compreendida como o processo que, dentro de princípios éticos e legais, se propõe a assegurar a qualidade dos serviços profissionais e institucionais, preservando o uso adequado dos recursos destinados à Saúde, visando a assegurar o máximo de benefício, com menor risco e maior eficiência possível.

Considerando que a auditoria se caracteriza como um ato médico, de acordo com Reinaldo Ramalho, consultor em Gestão Estratégica em Oftalmologia e coordenador do Comitê de Diretrizes do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o médico que desempenha a função de auditor de convênios deve apresentar conhecimento técnico, pleno e integrado da profissão. “Dessa forma, em razão do grande avanço tecnológico observado nas diversas áreas médicas, identifica-se no exercício da função, cada vez mais, a figura do auditor especialista”, define.

Além de garantir a qualidade no atendimento, evitando desperdícios e auxiliando no controle de custos, o especialista ressalta que o auditor também tem a função de monitorar periodicamente os resultados dessas ações. “Nessas circunstâncias,o principal desafio para um auditor médico em sua área de atuação é manter-se sempre atualizado frente ao avanço médico-tecnológico, além de construir um bom relacionamento com os prestadores de serviços médicos e buscar a otimização dos processos regulatórios na análise de procedimentos médicos”, avalia.

Modalidades da auditoria médica

Auditoria preventiva: também conhecida como auditoria prévia, tem como finalidade auditar os procedimentos antes que aconteçam, a fim de prevenir não conformidades e glosas posteriores.

Auditoria operacional (concorrente): é aquela que se efetua in loco, ou seja, no próprio prestador. Nesse tipo de auditoria, os procedimentos são auditados durante e após terem acontecido.

Auditoria de contas: é parte integrante da auditoria operacional e caracteriza-se por ser um processo minucioso, realizado, atualmente, por equipes de profissionais multidisciplinares, para a avaliação de diversas informações, como indicação clínica, procedimentos realizados, exames e seus respectivos laudos e/ou imagens e relação de materiais e  medicamentos gastos, e também a avaliação de pertinência de utilização de dispositivos médico-implantáveis (DMI) e/ou materiais especiais.

Auditoria analítica: compreende as atividades de análise dos dados levantados pelas auditorias preventiva e operacional, e sua comparação com os indicadores gerenciais locais e de outras organizações.

O que diz o CFM?

O parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM) 11/1999 define a auditoria médica como o conjunto de atividades e ações de fiscalização, de controle e de avaliação dos processos e procedimentos adotados, assim como o atendimento prestado, objetivando sua melhor adequação e qualidade, detectando e saneando-lhes eventuais distorções e propondo medidas para o seu melhor desempenho e resolubilidade.

O CFM tem o entendimento pacificado de que não pode tolerar qualquer forma de intervenção, seja de quem for, que venha a restringir ou limitar o trabalho assistencial do médico, sob pena de grave infração do Código de Ética Médica e dos princípios fundamentais que os norteiam. Por outro lado, a entidade reconhece que existem distorções, fraudes e desobediências de regras básicas perpetradas por muitos profissionais e instituições que prestam assistência à Saúde.

Na prática: qual o papel do auditor?

Ramalho explica que o auditor recebe a guia de solicitação com a relação de procedimentos médicos solicitados. De posse de tais dados, deve, antes de mais nada, verificar se há cobertura contratual assegurada. Cumprida essa premissa,passa, então, a analisar a indicação clínica (quando registrada) confrontando com o(s) evento(s) listado(s).

A partir daí, existem três situações possíveis:os elementos encaminhados são insuficientes para subsidiar a análise, não justificam a solicitação dos procedimentos ou justificam parte dos procedimentos solicitados.

O auditor, por fim, encaminha seu parecer para o conhecimento do prestador solicitante para as considerações cabíveis. Segundo o especialista, mesmo em caso de divergência técnica, o auditor jamais pode negar o(s) procedimento(s),caso eles possuam cobertura contratual assegurada.

Nessa situação, considerando a resolução normativa 424/2017 da ANS, que dispõe sobre critérios para a realização de junta médica ou odontológica formada para dirimir divergência técnico-assistencial acerca de indicação clínica do profissional assistente que foi objeto de contestação pelo auditor contratado pela operadora, o caso deverá ser conduzido para avaliação de profissional desempatador, com emissão de parecer fundamentado por respostas e quesitos técnicos formulados para o caso em questão.

O médico e o auditor médico

Segundo Breno Caiafa, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular – regional Rio de Janeiro (SBACV-RJ), enquanto o médico assistente promove a atenção direta ao paciente, o auditor médico fica encarregado de avaliar a adequação e o custo dos serviços médicos, o que se concretiza pela análise do cumprimento dos protocolos e das diretrizes médicas emanadas pelas sociedades de especialidades vinculadas à Associação Médica Brasileira (AMB), bem como pelo preenchimento das regras internas das operadoras.

O especialista complementa que, assim como o médico assistente, o auditor médico deve prezar pelo integral cumprimento das normas que regem o exercício da Medicina no Brasil, sob pena de responsabilização nas esferas ética, civil e criminal. “Os profissionais devem, sobretudo, respeitar a autonomia um do outro, sempre com vistas ao bem-estar do paciente. Também é necessário esclarecer que a atuação dos dois profissionais não é conflitante. Pelo contrário: é subsidiária uma a outra, de modo a garantir o equilíbrio do setor e uma atenção à saúde digna para todos”, define Caiafa.

Ramalho avalia que a relação entre o médico prestador de serviços e o auditor médico é pacífica. Todavia, não é raro observar situações de animosidade nesse processo.“O que deve ficar claro, antes de mais nada, é que a auditoria médica não se trata de técnica utilizada para policiamento das atividades dos profissionais da Saúde. Ao contrário, justifica-se como um estímulo à melhoria do padrão de atendimento”, ressalta.

Relação com as operadoras de Saúde

Atualmente,a relação entre médicos e operadoras é complexa. Caiafa analisa que o diálogo entre as duas partes pode ser dificultado pelo excesso de burocracia e, até mesmo, por um sentimento de desconfiança mútuo. Contudo, a manutenção de um relacionamento com as operadoras permite, segundo o especialista, obter a solução de eventuais conflitos de forma mais eficaz, seja pelo contato direto com os auditores ou mesmo com os responsáveis pelos setores de negociação.

Para Ramalho, o que se observa, na prática, é que a maioria dos prestadores de serviços não detém o conhecimento legal necessário em sua área de atuação,sendo leigos no que compete ao conhecimento de normativas, resoluções de processos-consulta e leis que regulamentam o setor de saúde suplementar.

“Por outro lado, de posse de tais conhecimentos, esses profissionais passariam a solicitar ao convênio procedimentos de maneira adequada, acompanhados de contexto clínico necessário ao exercício do processo de auditoria, sendo inclusive capazes de orientar adequadamente seus pacientes em situações de ausência de cobertura”, considera.No caso do paciente,o esforço conjunto do médico assistente com a operadora permite que asa provações das autorizações sejam muito mais céleres e que o trâmite seja mais transparente.

Nesse contexto, quando o médico e a operadora estão em sintonia, o paciente se sente mais confiante em relação ao cuidado assistencial. “Cumpre ressaltar que a proximidade entre o médico, as operadoras e os pacientes colabora para evitar os crescentes casos de judicialização na esfera da Saúde – suplementar e pública –, que, em sua maioria, são decorrentes da insuficiência de informação”, sustenta o presidente da SBACV-RJ

Solicitação de procedimentos e glosas

Caiafa relata que uma das principais dificuldades enfrentadas pelo médico em relação à solicitação de um procedimento é a multiplicidade de regras existentes junto às diferentes operadoras. “Em que pese a edição de normas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para disciplinar as regras gerais aplicáveis nas relações entre médicos e operadoras, inclusive no tocante à formalização dos contratos e da transmissão de informações, fato é que cada operadora ainda mantém regras próprias em seus respectivos manuais”, analisa.

Ainda de acordo com o presidente da SBACV-RJ, a existência de diferentes sistemas, regras e referenciais prejudica o bom funcionamento do setor de saúde suplementar. “No tocante aos procedimentos contratados, verifica-se que são adotados referenciais que muitas vezes estão em desacordo com os procedimentos reconhecidos pela especialidade”, complementa.

Nesse cenário, o especialista também destaca os tipos de glosas mais comuns e como é possível evitá-las. “Enquanto as glosas administrativas e técnicas podem ser evitadas ao conferir mais cuidado no preenchimento das informações e na adoção dos procedimentos autorizados pelas operadoras, as glosas lineares apresentam hipótese distinta, na qual o prestador está à mercê das operadoras, mesmo que tenha cumprido todas as exigências contratuais e regulamentares”, explica.

Em todo caso, Caiafa reforça que é preciso compreender que algumas operadoras incluem, nos contratos, descontos pré-estipulados sobre a fatura, o que deve ser evitado sempre que possível, visto que a resistência das operadoras é algo esperado. Também deve ser observado se o contrato prevê a forma do faturamento e os procedimentos efetivamente acordados entre as partes.

Publicado em

O impacto financeiro dos convênios médicos

Quando se fala de finanças nos consultórios, o que vem à mente de vários médicos, logo de início, é a fatia do faturamento que depende, exclusivamente, dos convênios.

Muitos profissionais têm sofrido per­das e diminuição em suas rendas devido à relação cada mais vez mais conflituosa com os planos de saúde. São procedimentos glosados, baixos valores pagos pelas consultas e pelos exames e a ameaça, muitas vezes presente, de descredenciamento.

Rodrigo Aguiar, diretor de Desenvol­vimento Setorial da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), afirma que a instituição reconhece que o prestador de serviço é peça fundamental na saúde suplementar e entende que é necessário pro­mover mudanças no modelo de remuneração dos profissionais da Saú­de, incluindo os médicos.

“A agência vem trabalhando na criação de mecanismos regulatórios para incentivar a adoção de boas práticas na atenção à saúde. O desenvolvimento de novos modelos assistenciais e de remuneração de prestadores também é essencial para garantir o equilíbrio e a sustentabilidade do setor”, defende Rodrigo Aguiar.

Grupo de Trabalho de Remuneração

Para isso, foi criado, em 2016, o Grupo de Trabalho de Remuneração, com o objetivo de debater um modelo de financiamento e remune­ração sustentável para o setor.

O grupo de trabalho é formado por representantes de todos os segmentos da Saúde Suplementar: presta­dores de serviços, operadoras, representantes de sociedades médicas e entidades representativas de profissionais de saúde.

“A implemen­tação de novos modelos de gestão, de remuneração de prestadores e de assistência aos beneficiários é discutida em grupos e câmaras téc­nicas, consultas e audiências públicas e nos diversos comitês criados pela ANS.

O grupo de trabalho, especificamente, tem alcançado seu principal objetivo, que é tornar-se um fórum de discussão sobre o tema na Saúde Suplementar, com a participação dos principais atores envolvidos, além de compartilhar as experiências em curso no Brasil”, avalia Rodrigo Aguiar.

Publicado em

Ergonomia unindo ciência e praticidade

A Ergonomia é classificada pela Associação Internacional de Ergonomia (IEA, na sigla em Inglês) como “a disciplina científica relacionada ao entendimento das interações entre seres humanos e outros elementos de um sistema”.

De forma prática, é uma ciência que visa adequar o trabalhador às condições laborais, buscando o conforto e diminuindo os riscos de acidentes e doenças do trabalho. Por isso, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) implementou a Norma Regulamentadora (NR-17) que instrui as empresas a terem uma análise ergonômica do trabalho (AET) por meio de um profissional que possa indicar quais melhorias devem ser implementadas.

Com base nisso, além de empresas, é fundamental que os processos ergonômicos sejam aplicados nos consultórios médicos, pois são locais que impactam não só a vida do médico e de seus funcionários, mas, também, de seus pacientes.

Para isso, a organização do espaço deve levar em conta questões como a iluminação, os ruídos e a temperatura, que são os principais causadores de problemas.

Apesar de existir medidas como essas, é de extrema importância contratar um profissional capacitado para auxiliar nas adaptações ergonômicas necessárias, sempre levando em consideração a singularidade de cada caso, como destaca Luiz Germano Gehrke, pós-graduado em Análise Ergonômica do Trabalho pela Unirriter e diretor médico na ExperMed Perícias Médicas.

“Cada profissional é único e as adaptações do seu ambiente laboral devem considerar a sua estrutura corporal, bem como as atividades que são praticadas em seu consultório”.

Nesse cenário, outro elemento importante é o paciente, que é determinante na hora de fazer as alterações. “O perfil dos pacientes também deve ser considerado. Um cirurgião do aparelho digestivo, por exemplo, deve ter em seu consultório cadeiras mais largas, adaptadas para receber pessoas obesas.

Enquanto o consultório de um geriatra deve ser equipado com barras de apoio em suas paredes, proporcionando maior segurança aos pacientes. Resumindo, cada profissional deve ser olhado como único e seu ambiente de trabalho adaptado para suas atividades”, analisa Gehrke.

Ergonomia como investimento

Sendo assim, os profissionais da área destacam os benefícios por trás dessa ciência, e como ela tem se consolidado como um verdadeiro investimento. “Um programa de Ergonomia adequado deve gerar diminuição dos custos relacionados à saúde ocupacional.

Uma vez que os gestores compreendem esta questão, a Ergonomia passa a ser encarada como um investimento, podendo, inclusive, ser mensurado por meio de metodologias adequadas”, relata o fisioterapeuta Rodrigo Arend, especialista em Fisioterapia do Trabalho pelo CBES.

Para Gehrke, o caráter preventivo que esses métodos possuem e como eles impactam diretamente na produtividade e no lucro: “As principais vantagens são bem-estar, segurança e produtividade com qualidade. A falta de ambiente ergonomicamente adequado, pode acarretar prejuízo em curto, médio e longo prazo, dependendo das particularidades de cada indivíduo”.

Os três pilares da Ergonomia

A Ergonomia se baseia em três pilares básicos: conforto, segurança e eficiência. Esses fatores estão ligados diretamente com a saúde e a performance de qualquer profissional. Em busca desse ambiente ideal, algumas dicas são importantes:

– Quem trabalha em computador, como as secretárias em consultórios médicos, deve mantê-lo entre 45 e 70cm de distância da sua linha de visão. O teclado tem que ser regulável e estar alinhado aos cotovelos;

– Em relação a cadeira, seja trabalhando em computador ou não, ela deve oferecer suporte para lombar e ter uma adaptação confortável para região pélvica. É importante, também, investir em estruturas que sejam ajustáveis, ofereçam conforto aos joelhos e que garantam que os pés encostem no chão ou em algum suporte apropriado;

– No local separado para realizar procedimentos no consultório, é importante ter fácil acesso à ferramenta e aos medicamentos, procurar automatizar os processos, acrescentando botões e pedais que facilitem movimentos otimizados, e, dependendo do caso, contratar um profissional para auxiliar;

– Em termos de decoração, é preciso pensar na funcionalidade dos móveis para cada especialidade, na iluminação adequada e na sonorização do local, recorrendo, quando necessário, a uma música ambiente.

Sérias consequências e olhares ainda desconfiados

Muitos profissionais possuem uma resistência em relação a essa ciência, ainda vista com uma certa desconfiança, no entanto, essa postura, principalmente na área da Saúde, afeta diferentes pessoas e setores, como o financeiro, por exemplo.

“Em longo prazo, um profissional médico que não possua móveis ergonomicamente adequados, pode vir a sofrer de problemas na coluna, podendo, inclusive, inviabilizar a realização de diversos movimentos que inferirão diretamente na qualidade e eficiência do seu trabalho”, afirma Gehrke.

O médico completa, ressaltando de que maneira esses problemas também alcançam os pacientes: “Da mesma forma, caso não exista ambiente adequado para os pacientes – a ponto de gerar eventuais constrangimentos ou, até mesmo, situações de risco –, o profissional médico pode comprometer não só a qualidade de vida, como a evolução profissional”.

Na percepção do fisioterapeuta Rodrigo Arend, a desinformação é a grande responsável pela resistência que persiste quando o assunto é Ergonomia.

“Algumas pessoas têm um entendimento errado do que seria a Ergonomia, como se ela impusesse limitações aos trabalhadores e, consequentemente, diminuísse a produtividade ou aumentasse os custos. Entretanto, um bom programa de Ergonomia deve ter como objetivo, além da melhora da qualidade de vida e da saúde geral dos trabalhadores, uma otimização dos processos de trabalho”, declara.

Nesse sentindo, é primordial que os profissionais da área da saúde percebam como essa ciência visa os mesmo resultados, que é o bem-estar das pessoas. Por isso, ao invés de adversária, a Ergonomia deve ser vista como uma aliada na prevenção de doenças, manutenção da saúde e na segurança de todos os envolvidos.

Muito além de algo teórico, o método pode impactar, de forma prática, a vida desses profissionais, desde o planejamento dos consultórios e clínicas até o contato com o seu paciente.

 

Reportagem  por Laís Mathias
Publicado em

Como contratar uma boa recepcionista

Uma secretária qualificada e bem orientada é uma excelente aliada profissional. Na maioria dos casos, ela é a responsável por administrar não apenas a agenda do profissional, mas também o consultório como um todo.

Por essa razão, alguns médicos consideram suas secretárias seus “braços-direitos”, pessoas em quem confiam a organização de boa parte das atividades relativas ao funcionamento do consultório ou da clínica.

A recepcionista possui também um papel importante no processo de conquista dos pacientes. Ela é quem estará na linha de frente, lidando diretamente com o público.

Quando esta profissional não desempenha seu papel com seriedade e competência, pode prejudicar a imagem do médico e afastar os pacientes.

Tanta credibilidade e responsabilidade demonstram que, para que a relação seja bem construída, é preciso saber escolher de maneira adequada a sua equipe, seja apenas uma secretária ou um grupo de colaboradores.

Para o médico recém-formado, a seleção de uma recepcionista para o consultório pode parecer algo bastante complicado. Afinal, ele ainda não possui a experiência adequada para saber de quais habilidades essa profissional necessita para fazer bem o seu trabalho.

Antes de iniciar a seleção de quem vai ocupar a recepção de seu consultório, o médico deve avaliar se conhece as funções que sua secretária terá. Somente assim poderá ter certeza de que alguma candidata tem o perfil desejado para o cargo.

Muitos médicos acreditam que a função de atendente em um consultório não exige muito esforço de um profissional e, por isso, fazem uma seleção com pouco critério.

Essa atitude, em médio ou longo prazo, pode custar mais caro do que se imagina. Na verdade, para que uma recepcionista atenda bem os pacientes, é necessário que ela tenha características específicas, tanto técnicas quanto comportamentais.

Habilidades necessárias para uma recepcionista

Uma boa recepcionista deve possuir tanto habilidades técnicas quanto habilidades comportamentais.

Nas habilidades técnicas estão as competências relacionadas às rotinas de trabalho, procedimentos de convênios e funções diretas do cargo, como conhecimento de informática, dos equipamentos médicos e da rotina burocrática e, se necessário, domínio de idiomas.

As características comportamentais incluem todas as aptidões mentais exigidas, como experiência anterior, boa comunicação, capacidade de concentração, aparência, persuasão, dicção e capacidade de organização. A conjunção dessas duas habilidades, a técnica e a comportamental, constrói um perfil adequado ao cargo.

Foco no processo de contratação

Em consultórios ou em clínicas de pequeno porte, dificilmente encontraremos profissionais específicos atuando com recursos humanos. Logo, essas funções serão desempenhadas, de forma consciente ou não, pelo médico responsável.

Entender as funções e as atividades de RH é o primeiro passo para a criação de um ambiente de alto desempenho. E a formação desse ambiente começa no processo de seleção. No que tange a gestão de pessoal, o médico deve estar atento às seguintes etapas:

  • Recrutamento e seleção – Convocar e selecionar funcionários, de acordo com os pré-requisitos de cada cargo.
  • Descrição dos cargos – Determinar as atividades, as responsabilidades e a qualificação necessária de cada cargo.
  • Treinamento – Orientar o colaborador sobre como executar as atividades do seu cargo. Desenvolver, no curso de seu trabalho, competências técnicas e humanas
  • Acompanhamento e motivação – Coordenar as tarefas dos funcionários e executar ações para motivá-los e comprometê-los com o resultado do trabalho.

Todas essas funções são vitais. Por meio delas, consegue-se definir as atividades que cada colaborador deve realizar: conscientizar cada pessoa do seu papel; transmitir o que se espera do trabalho de cada um; selecionar pessoas com o perfil (técnico e comportamental) adequado para exercer determinada função; orientar, treinar e desenvolver o potencial de cada membro da equipe; e criar mecanismos para que os funcionários sintam-se motivados a exercer o trabalho.

Recrutamento e seleção

O processo de recrutamento e seleção não deve ser feito sem critério. Para alcançar bons resultados, algumas etapas e regras devem ser respeitadas.

Mesmo para o cargo de recepcionista, hoje se exige muito mais conhecimento e habilidades do que há alguns anos. Portanto, selecionar pessoas sem critério e cuidados para funções consideradas “simples” pode gerar prejuízo e retrabalho.

As responsabilidades de uma recepcionista, por exemplo, vão além de atender as pessoas: mandar e-mails, fazer serviços administrativos e financeiros, criar bancos de dados em computador e redigir documentos são apenas algumas das novas funções que essa profissional deve exercer.

Portanto, o processo seletivo é uma etapa importante para a construção de uma equipe que agregue valor ao trabalho do médico, ajudando-o a criar um nome forte e pacientes embaixadores.

Relacionamento com a equipe

Além desses cuidados na hora da contratação, o médico deve estar consciente de que deverá investir constantemente para manter uma boa relação com seus funcionários.

Mas por que essa relação é importante? Em serviços de saúde, a interação com o cliente passa por diversos momentos. O paciente tem somente um único momento de interação direta com o médico.

Em todos os demais momentos, seja antes ou após um procedimento, o diálogo acontece entre o paciente e um funcionário do consultório ou clínica (possivelmente a recepcionista ou alguém com função similar).

Após algum tempo, a rotina de um consultório médico pode se tornar entediante para a recepcionista que, todos os dias, é obrigada a exercer as mesmas ações e tarefas.

Garantir que seus colaboradores não vão ficar desmotivados é uma atitude que o médico deve pôr em prática.

Se essa pessoa não estiver absolutamente preparada para lidar com os pacientes ou tratá-los da maneira adequada, e transmitir nestes diálogos os valores e metodologias que o médico quer associar a sua imagem, todo o trabalho e investimento poderão se perder.

Recepcionista: o “radar” do médico

A recepcionista também pode atuar como uma espécie de “radar” do médico. Ou seja, alguém que está próxima do público e que poderá detectar tanto problemas quanto excelentes oportunidades.

Uma profissional atenta poderá perceber, por exemplo, elementos do ambiente que estão incomodando ou mesmo dificultando a passagem dos pacientes pelo local.

Esses e outros dados, aos quais o médico normalmente não tem acesso, podem muito bem ser detectados pelos funcionários da linha de frente. Isso não significa que a recepcionista precisa bisbilhotar sobre tudo o que se passa na sala de espera.

Mas o médico deve orientá-la para que esteja atenta até mesmo aos comentários feitos pelos pacientes ao saírem do atendimento. Quando estão insatisfeitos, os pacientes tendem a se queixar com outras pessoas no local e até com a própria funcionária.

Quando percebe a insatisfação, a recepcionista pode agir de maneira a reverter a percepção negativa e alertar o especialista sobre o problema.

Publicado em 1 comentário

O perigo da síndrome de burnout ao longo da carreira médica

Nos últimos anos, a saúde mental dos médicos é um tema de grande preocupação para as entidades profissionais. Nesse cenário, o estresse é algo muito inerente na carreira médica, pois a rotina agitada do profissional envolve, entre outros fatores, longas jornadas de trabalho.

Além disso, o médico lida com diversas frustrações, como a inexistência de cura para certas doenças, o sofrimento alheio, a morte e o fato de que, conforme o seu local de trabalho, não são disponibilizados recursos para que suas funções sejam adequadamente realizadas.

O psiquiatra e psicoterapeuta Wimer Bottura Junior, presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (ABMP) e do Comitê Multidisciplinar de Adolescência da Associação Paulista de Medicina (APM), avalia que a sobrecarga decorrente da profissão começa já na preparação para o vestibular.

Essa situação se estende, posteriormente, para o dia a dia na faculdade, na residência e na atividade profissional em si, quando pode ser acentuada. “Um fator de agravo importante é a responsabilidade do profissional em relação à vida das pessoas.

Além das cobranças externas, o próprio médico também se cobra muito quanto a essa responsabilidade. Depois da judicialização da prática médica e da transformação de uma relação pessoal em uma de consumo, esse cenário piorou muito”, considera.

Nessas circunstâncias, Wimer explica que os médicos estão expostos a dois problemas muito comuns relacionados à saúde mental: a ansiedade e o estresse. “Em determinadas áreas da prática médica, esses riscos são aumentados, como em intensivistas e em profissionais de pronto atendimento, em virtude da sobrecarga de trabalho e de responsabilidade”, complementa.

Leonardo Luz, psiquiatra e conselheiro efetivo do Conselho Federal de Medicina (CFM), pontua que as situações que geram o estresse variam de acordo com cada profissional. “Alguns profissionais conseguem trabalhar durante 40 ou 50 horas, mas outras pessoas podem considerar que esse seja um tempo muito prolongado.

Contudo, o médico vem sofrendo as alterações próprias do mercado, ultimamente, pois tem que trabalhar cada vez mais para atingir uma renda que não é a mesma que tinha no passado”, argumenta. E as consequências do quadro profissional acabam refletindo no âmbito pessoal.

Como exemplo, Leonardo cita que os impactos causados pela sobrecarga profissional podem influenciar o tempo reservado para o convívio familiar, o autocuidado, a realização de atividades físicas e outros aspectos.

“Além disso, os profissionais costumam ter dificuldade para pedir ajuda e sair do ‘papel de médico’. Isso porque eles estão mais acostumados a assumir a posição de cuidar do que de serem cuidados”, acrescenta.

Síndrome de Burnout na carreira médica

Caracterizada pelo esgotamento físico e mental intensos, a síndrome de burnout afeta muitos médicos. De acordo com Wimer, essa condição pode interferir na saúde mental do profissional e até refletir na saúde física, gerando sintomas semelhantes aos da depressão.

A condição pode afetar profissionais de qualquer área, mas, de acordo com Leonardo, os médicos são os que mais sofrem com o burnout. “As mudanças no mercado de trabalho fazem com que o médico tenha que lidar com uma alta demanda, não apenas em relação à quantidade de pacientes, mas também quanto à atualização de conteúdo.

Atualmente, com a velocidade com que as informações circulam, a Medicina muda muito mais rápido. A sobrecarga do profissional também pode ser agravada pela falta de reconhecimento e por dificuldades no gerenciamento de agenda. Todos esses fatores podem gerar um grau de insatisfação que reflete, inclusive, na qualidade do atendimento prestado pelo médico”, define o conselheiro do CFM.

Pessoal versus profissional

Muitas vezes, o médico tem dificuldade em desvincular o que é vivido no âmbito profissional de sua vida particular. Essa situação, que pode interferir na saúde mental do profissional, é observada até mesmo na Psiquiatria.

“A maior fonte de sobrecarga na Psiquiatria é o risco de suicídio, que, infelizmente, tem apresentado um aumento significativo nos últimos anos. Além disso, os quadros de depressão, pânico e transtornos de ansiedade são frequentes. Em contrapartida, temos, hoje, um grande índice de acerto nos tratamentos”, destacaWimer.

Há quase cinco anos, o especialista viu-se intensamente afetado, quando perdeu um paciente por suicídio. “A primeira coisa que me perguntei foi: onde errei? Não dá para negar que, como profissionais, carregamos conosco a dor das pessoas e que nos preocupamos com elas.

Mas, durante esse período, pude contar com a ajuda de bons amigos e terapeutas. Por isso, meu conselho é: peça ajuda e, principalmente, aceite ajuda”, declara.

Leonardo Luz também acredita que as situações presenciadas no trabalho causam impactos na sua vida pessoal. “Considero que eu mesmo, como psiquiatra, sou um exemplo disso, especialmente por escutar diferentes histórias de vida todos os dias. É difícil chegar em casa e ‘desligar o botão’.

Por isso, o psiquiatra costuma ter dificuldade para relaxar, mas não pode deixar o que acontece no trabalho afetar a vida pessoal”, analisa.

O psiquiatra considera que músicas, leituras, filmes e conversas com amigos e familiares podem ajudar a amenizar essa situação. Além disso, o especialista cita que outra atividade vantajosa, mas pouco realizada pelos médicos devido à falta de tempo, é a prática de exercícios físicos.

Apoio psicológico e tratamento

O acompanhamento psicológico proporciona benefícios e mais qualidade de vida aos médicos que apresentam problemas de saúde mental. No entanto, cabe ao profissional procurar ajuda caso experimente situações como estresse, ansiedade e até mesmo depressão. “Essa é uma iniciativa muito importante, mas é alvo de resistência por boa parte da classe, visto que muitos médicos consideram que não precisam de ajuda”, observa Wimer.

Leonardo garante que o acompanhamento realizado nesses casos é o mesmo que seria direcionado a outros pacientes. Com o auxílio de um especialista adequado, dentro dos prazos estabelecidos e com a medicação apropriada, o psiquiatra afirma que resultados positivos podem ser observados.

“Nesse processo, é importante que exista o incentivo de atividades físicas e psicoterapia. Além disso, o profissional que passa por essa situação precisa refletir sobre seu estilo de vida, para que possa analisar quais melhorias podem ser feitas”, aconselha o especialista.

Mindfulness na Medicina

Existem duas aplicações principais das técnicas de Atenção Plena na Medicina. A primeira é direcionada ao médico, um dos profissionais que está mais sujeito ao burnout, que é o esgotamento profissio­nal. “Ao praticar as técnicas de Mindful­ness, o médico pode administrar melhor o estresse do trabalho e ter mais qualida­de de vida.

Além disso, como está mais equilibrado, do ponto de vista pessoal, o profissional consegue melhorar sua re­lação com o paciente”, avalia Demarzo. Nesse processo, o paciente também é in­diretamente beneficiado, pois o médico mais atento está menos sujeito a erros e pode realizar diagnósticos mais precisos.

A segunda aplicação envolve pro­gramas voltados aos pacientes, pois o Mindfulness é uma opção terapêutica para casos de ansiedade, doenças crôni­cas ou condições crônicas relacionadas ao estresse, como hipertensão, diabetes e doenças inflamatórias ou intestinais.

“Pacientes com distintas condições clí­nicas podem se beneficiar com a apren­dizagem de Atenção Plena, participando de programas específicos que ajudam a amenizar determinados sintomas dessas condições”, sustenta.

Publicado em

Formação médica brasileira: há cursos demais?

Desde a criação da primeira escola de Medicina no Brasil, em 1808, pelo príncipe regente Dom João, muita coisa mudou na educação médica do país. Atualmente, a Medicina brasileira é considerada uma das mais avançadas no mundo, sendo o Brasil o país responsável pela criação de vários programas de saúde reconhecidos Internacionalmente, como o Mais Médicos, Saúde da Família e o Programa Nacional de Imunização. Porém quando o assunto é ensino, a carreira médica brasileira ainda é pauta de discussão.

Decisão do Governo Federal

Em abril de 2018, o Governo Federal suspendeu a abertura de novos cursos de Medicina no país nos próximos cinco anos. A medida foi solicitada pela Associação Médica Brasileira (AMB) e por outras entidades médicas, sob a legação de baixa qualidade na formação do jovem médico.

Segundo o presidente da AMB, Lincoln Ferreira, com a mudança, o país irá ganhar tempo para pensar em soluções para os problemas do ensino médico brasileiro. “Na questão da moratória de abertura dos cursos de Medicina com o Governo Federal, também foi instituída uma comissão – da qual a AMB faz parte – que estudará a reorganização da formação médica nestes próximos cinco anos,  propondo todos os requisitos necessários para o funcionamento de uma escola médica nos termos adequados no Brasil, como a exigência de hospitais-escolas e ambulatórios próximos ao ensino”, resume.

Mais quantidade, menos qualidade

Atualmente, existem 303 escolas de Medicina no Brasil, um número consideravelmente alto, quando comparado aos de países como a China, que possui 150 faculdades para 1,3 bilhão de pessoas. No ranking, o país só perde para a Índia, que possui 381 escolas médicas para uma população de mais de um bilhão de pessoas.

Pelas projeções de novos formandos no Brasil, o índice de novos diplomados deve crescer nos próximos anos e, em 2020, chegar a 15 médicos por 100 mil habitantes. Porém, apesar do crescimento do número de escolas, a qualidade do ensino não acompanhou esse quadro.

Os resultados dos últimos exames realizados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) revelam despreparo por parte dos jovens médicos. Em 12 das 13 edições do exame, mais da metade dos participantes acertaram menos de 50% das questões.

Dos 2.636 médicos que realizaram a prova, 88% dos recém-formados não sabiam interpretar o resultado de uma mamografia, enquanto 78% erraram o diagnóstico de diabetes. Para Ferreira, as notas do exame são uma evidência objetiva da atual situação do ensino médico brasileiro. “A qualidade do ensino é a questão chave desse despreparo.

Por isso, a AMB demandou do Governo Federal a interrupção do processo de abertura irrefletida de novas escolas médicas. Nenhum país, não só o Brasil, consegue formar mestres e doutores na velocidade em que foram abertas essas escolas médicas”, argumenta.

Por outro lado, o Governo alega que a abertura de cursos de Medicina é necessária devido à falta de médicos no Brasil, que possui uma das menores médias de médicos por habitantes entre os países: 2,1 médicos a cada mil habitantes. Segundo o presidente da AMB, o problema não está na falta de médicos e sim na ausência de uma política de fixação de médicos.

“Para um médico trabalhar, é necessária uma estrutura, pois, sem condições de trabalho, ele se vê reduzido à condição de uma testemunha privilegiada e absolutamente angustiada do comportamento humano. Ele vai presenciar mortes e doenças evitáveis, sequelas e sofrimento, sem dispor das condições adequadas de trabalho”, argumenta.

De acordo com José Octávio Costa, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), além da política de fixação de médicos, é importante que seja garantido o acesso de qualidade ao atendimento primário à saúde à população em geral.

“Entendo que a criação de novos cursos de Medicina venha acompanhada de avaliações periódicas das ferramentas de ensino, grade curricular atualizada com o mercado, capacitação de docentes e estudantes e alunos egressos, para que progressos possam ser feitos e a prioridade seja a prestação de serviço de alto nível”, pondera.

Outro fator que deve ser considerado é a desigualdade na distribuição geográfica. No Brasil, a Região Sudeste concentra a maior parte das escolas médicas, com 134 instituições, já o Norte possui apenas 27. Consequentemente, o Sudeste reúne 55% dos médicos especialistas do país, e menos da metade dos médicos brasileiros são responsáveis pelo atendimento dos outros 5.543 municípios do país.

Situação das residências médicas

No início de 2018, o Jornal da Medicina, publicado pelo CFM, revelou que 40% das vagas de residências médicas (RM) estão desocupadas. Segundo a publicação, dois fatores são responsáveis por esse quadro.

O primeiro é a desvalorização do posto de preceptor nos programas de RM, que não são remunerados para exercer a função. A segunda questão é o valor da bolsa do residente, considerado baixo, levando em conta o esforço despendido pelo profissional.

De acordo com o MEC, o aumento expressivo das vagas de cursos de Medicina trará um reflexo na maior procura por residências médicas. “Em 2011, tínhamos 13.768 vagas para residentes do primeiro ano (R1) e, atualmente, estamos com 23.137.

O crescimento foi ordenado e de acordo com critérios de regulação estabelecidos pela legislação brasileira, primando pelo princípio da qualidade a ser oferecida pelo programa autorizado”, informa. Segundo o órgão, a taxa de ocupação varia conforme os programas.

“São mais de 100 especialidades oferecidas. Dessa forma, temos programas como os de Pediatria, com taxa de ocupação superior aos 90%, mas outras especialidades pouco passam de 60%. Inúmeros fatores são contribuintes para uma procura maior ou menor por determinada área, desde vocação dos estudantes até apelos do mercado, que variam com o passar dos anos”, sustenta.

Politização do ensino

Atualmente, certos especialistas afirmam que as universidades têm tratado os alunos como uma forma de negócio, priorizando os lucros e não a educação, caracterizando a “politização do ensino”.

Para Lincoln Ferreira, o capitalismo se sobrepôs à qualidade do ensino. “A verdade é que o ensino virou um balcão de negócios com o aval dos governos que administraram o Brasil nos últimos 20 anos, e a qualidade ficou em segundo lugar.

Temos 60% das escolas médicas particulares, cobrando alto por aluno”, resume. Com mensalidades que variam de R$3.700 a R$12.200, as escolas médicas oferecem estrutura precária, que não justifica o valor cobrado.

Ferreira acredita que o problema não está em obter lucro com as escolas, mas, sim, em não oferecer a estrutura adequada aos profissionais. “São mensalidades bastante caras, um investimento alto, essencialmente, sem ter compromisso com o ensino, para que um médico seja formado adequadamente, do ponto de vista técnico, ou seja, capaz de exercer a profissão, do ponto de vista ético, isto é, usar seus conhecimentos para o bem do ser humano e, finalmente, no âmbito humanístico, já que do outro lado há um ser humano que tem necessidades próprias e que merece ser tratado adequadamente”, define.

Segundo Costa, alguns cursos estão localizados em cidades distantes de centros de referência em ensino ou saúde e não possuem infraestrutura adequada para que o aluno realize o estágio probatório, sem ter certeza sequer de uma supervisão contínua de avaliação do estágio alinhada com o currículo acadêmico.

“E se a pessoa paga altas prestações por alguns anos e, depois, a faculdade não vai para frente? Os valores cobrados são muito altos pela prestação de serviço acadêmico improfícua ofertada. Tenho receio sobre qual será a formação recebida por esses futuros médicos”, analisa.