Publicado em

O cuidado com a relação médico-paciente

A melhora das habilidades de comunicação do médico com o seu paciente resulta em uma melhor satisfação do mesmo, o que gera uma maior retenção e recomendação de serviços para outros clientes

De acordo com a especialista em marketing e negócios, Rosane Bernardi, a prestação de serviços médicos ocorre em um ambiente onde há competição e disputa por clientes (pacientes), como em qualquer outro mercado, e a melhora da experiência do paciente deve ser vista como um imperativo. “Pacientes insatisfeitos são clientes que abandonam o tratamento, não retornam para novas consultas e fazem comentários negativos sobre os serviços prestados. A satisfação do paciente influencia em seu retorno ao consultório e na recomendação do profissional para outros pacientes”, enfatiza a especialista.

Percebendo a importância da temática, Rosane apresentou um pôster sobre o assunto em um congresso europeu no ano passado. O objetivo era fornecer evidências sobre o impacto positivo da boa comunicação médico-paciente na satisfação do paciente, adesão ao tratamento e lealdade. Entre diversos pontos abordados, ela destacou o fato de a comunicação na assistência médica estar associada a uma maior adesão às recomendações médicas ao tratamento.

Dicas para o dia a dia:

  • Olhe nos olhos do paciente ao falar com ele;
  • Demonstre interesse por sua opinião e sentimentos;
  • Dê informações de qualidade, mas que podem ser compreendidas pelo paciente;
  • Verifique se o paciente entendeu a explicação;
  • Seja gentil e bem-humorado(a);
  • Trabalhe sua imagem nas redes sociais para ser reconhecido(a) como autoridade na especialidade.

O que é marketing de relacionamento?

 O marketing de relacionamento é composto por estratégias que são utilizadas para cuidar da relação entre quem oferece um serviço e quem o consome. As estratégias devem ser aplicadas desde o primeiro contato com o cliente e têm como objetivo principal a sua fidelização.

Marketing de Relacionamento: Como cuidar bem da sua relação médico-paciente.

De acordo com Flávio Muniz, especialista e palestrante nesse assunto, a área da Medicina ainda não vem utilizando o marketing de relacionamento da forma como deveria. “O marketing de relacionamento é algo pouco explorado, principalmente pela área médica, que ainda se comunica de forma precária com seus clientes; no caso, os pacientes”, afirma Muniz. Para o profissional, é preciso ir além do bom atendimento quando se trata de marketing de relacionamento. “Receber um bom atendimento, respeito e atenção é o mínimo que o cliente espera de um atendimento médico. Mas, para fidelizar o cliente, é preciso mais do que isso”, aponta o especialista.

A tecnologia tem evoluído muito e auxiliado no diagnóstico de doenças por meio de equipamentos modernos e altamente especializados. Mas, por outro lado, tem ocorrido uma lacuna entre médico e paciente. “Apesar de tantos avanços, a área médica tem tido seu foco primordial no tratamento e cura de seus pacientes. O médico da família, que acompanhava a todos por vários anos, está quase extinto. Hoje as relações estão muito individualistas e o médico foca mais na doença do que no doente”, ressalta Muniz.

O que todo médico deveria saber na hora de lidar com os pacientes? 

  • Pacientes querem profissionais que os escutem, compreendam e demonstrem preocupação;
  • Esperam receber informações claras sobre sua doença e tratamento;
  • Buscam atenção, respeito e cortesia;
  • Pacientes devem ser tratados como clientes com expectativas a serem atendidas;
  • Pacientes são seres humanos com necessidades individuais.

Excelência do atendimento na prática

De acordo com Muniz, atender a expectativa de pacientes cada vez mais exigentes e com maior acesso à informação é um importante diferencial dos serviços de um profissional, que vai além da competência técnica. Para isso, o médico deve entregar serviços que inspirem confiança, mas precisam, também, ser empáticos e atentos às expectativas dos pacientes em relação à interação com seus médicos. O campo é vasto e as ações em suas especificidades são muitas, mas o relevante sempre será a decisão em estabelecer parceria com o que de melhor o mercado de marketing poderá lhe oferecer.

Ainda segundo o especialista, um diagnóstico correto é importante, mas os pacientes valorizam muito um bom atendimento. Quando um profissional médico dá o diagnóstico correto, mas não é sensível na maneira de transmiti-lo, poderá perder o cliente, que não vai querer voltar a ser atendido por esse médico, pois não vai ter boas lembranças do momento do anúncio do diagnóstico e do pouco vínculo que esse relacionamento lhe proporcionou. “Ele vai se sentir como mais um paciente, com uma doença que precisa ser curada e não como um ser humano em especial que está enfrentando um sério problema e precisa de apoio”, explica Muniz.

Publicado em

Formação médica brasileira: há cursos demais?

Desde a criação da primeira escola de Medicina no Brasil, em 1808, pelo príncipe regente Dom João, muita coisa mudou na educação médica do país. Atualmente, a Medicina brasileira é considerada uma das mais avançadas no mundo, sendo o Brasil o país responsável pela criação de vários programas de saúde reconhecidos Internacionalmente, como o Mais Médicos, Saúde da Família e o Programa Nacional de Imunização. Porém quando o assunto é ensino, a carreira médica brasileira ainda é pauta de discussão.

Decisão do Governo Federal

Em abril de 2018, o Governo Federal suspendeu a abertura de novos cursos de Medicina no país nos próximos cinco anos. A medida foi solicitada pela Associação Médica Brasileira (AMB) e por outras entidades médicas, sob a legação de baixa qualidade na formação do jovem médico.

Segundo o presidente da AMB, Lincoln Ferreira, com a mudança, o país irá ganhar tempo para pensar em soluções para os problemas do ensino médico brasileiro. “Na questão da moratória de abertura dos cursos de Medicina com o Governo Federal, também foi instituída uma comissão – da qual a AMB faz parte – que estudará a reorganização da formação médica nestes próximos cinco anos,  propondo todos os requisitos necessários para o funcionamento de uma escola médica nos termos adequados no Brasil, como a exigência de hospitais-escolas e ambulatórios próximos ao ensino”, resume.

Mais quantidade, menos qualidade

Atualmente, existem 303 escolas de Medicina no Brasil, um número consideravelmente alto, quando comparado aos de países como a China, que possui 150 faculdades para 1,3 bilhão de pessoas. No ranking, o país só perde para a Índia, que possui 381 escolas médicas para uma população de mais de um bilhão de pessoas.

Pelas projeções de novos formandos no Brasil, o índice de novos diplomados deve crescer nos próximos anos e, em 2020, chegar a 15 médicos por 100 mil habitantes. Porém, apesar do crescimento do número de escolas, a qualidade do ensino não acompanhou esse quadro.

Os resultados dos últimos exames realizados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) revelam despreparo por parte dos jovens médicos. Em 12 das 13 edições do exame, mais da metade dos participantes acertaram menos de 50% das questões.

Dos 2.636 médicos que realizaram a prova, 88% dos recém-formados não sabiam interpretar o resultado de uma mamografia, enquanto 78% erraram o diagnóstico de diabetes. Para Ferreira, as notas do exame são uma evidência objetiva da atual situação do ensino médico brasileiro. “A qualidade do ensino é a questão chave desse despreparo.

Por isso, a AMB demandou do Governo Federal a interrupção do processo de abertura irrefletida de novas escolas médicas. Nenhum país, não só o Brasil, consegue formar mestres e doutores na velocidade em que foram abertas essas escolas médicas”, argumenta.

Por outro lado, o Governo alega que a abertura de cursos de Medicina é necessária devido à falta de médicos no Brasil, que possui uma das menores médias de médicos por habitantes entre os países: 2,1 médicos a cada mil habitantes. Segundo o presidente da AMB, o problema não está na falta de médicos e sim na ausência de uma política de fixação de médicos.

“Para um médico trabalhar, é necessária uma estrutura, pois, sem condições de trabalho, ele se vê reduzido à condição de uma testemunha privilegiada e absolutamente angustiada do comportamento humano. Ele vai presenciar mortes e doenças evitáveis, sequelas e sofrimento, sem dispor das condições adequadas de trabalho”, argumenta.

De acordo com José Octávio Costa, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), além da política de fixação de médicos, é importante que seja garantido o acesso de qualidade ao atendimento primário à saúde à população em geral.

“Entendo que a criação de novos cursos de Medicina venha acompanhada de avaliações periódicas das ferramentas de ensino, grade curricular atualizada com o mercado, capacitação de docentes e estudantes e alunos egressos, para que progressos possam ser feitos e a prioridade seja a prestação de serviço de alto nível”, pondera.

Outro fator que deve ser considerado é a desigualdade na distribuição geográfica. No Brasil, a Região Sudeste concentra a maior parte das escolas médicas, com 134 instituições, já o Norte possui apenas 27. Consequentemente, o Sudeste reúne 55% dos médicos especialistas do país, e menos da metade dos médicos brasileiros são responsáveis pelo atendimento dos outros 5.543 municípios do país.

Situação das residências médicas

No início de 2018, o Jornal da Medicina, publicado pelo CFM, revelou que 40% das vagas de residências médicas (RM) estão desocupadas. Segundo a publicação, dois fatores são responsáveis por esse quadro.

O primeiro é a desvalorização do posto de preceptor nos programas de RM, que não são remunerados para exercer a função. A segunda questão é o valor da bolsa do residente, considerado baixo, levando em conta o esforço despendido pelo profissional.

De acordo com o MEC, o aumento expressivo das vagas de cursos de Medicina trará um reflexo na maior procura por residências médicas. “Em 2011, tínhamos 13.768 vagas para residentes do primeiro ano (R1) e, atualmente, estamos com 23.137.

O crescimento foi ordenado e de acordo com critérios de regulação estabelecidos pela legislação brasileira, primando pelo princípio da qualidade a ser oferecida pelo programa autorizado”, informa. Segundo o órgão, a taxa de ocupação varia conforme os programas.

“São mais de 100 especialidades oferecidas. Dessa forma, temos programas como os de Pediatria, com taxa de ocupação superior aos 90%, mas outras especialidades pouco passam de 60%. Inúmeros fatores são contribuintes para uma procura maior ou menor por determinada área, desde vocação dos estudantes até apelos do mercado, que variam com o passar dos anos”, sustenta.

Politização do ensino

Atualmente, certos especialistas afirmam que as universidades têm tratado os alunos como uma forma de negócio, priorizando os lucros e não a educação, caracterizando a “politização do ensino”.

Para Lincoln Ferreira, o capitalismo se sobrepôs à qualidade do ensino. “A verdade é que o ensino virou um balcão de negócios com o aval dos governos que administraram o Brasil nos últimos 20 anos, e a qualidade ficou em segundo lugar.

Temos 60% das escolas médicas particulares, cobrando alto por aluno”, resume. Com mensalidades que variam de R$3.700 a R$12.200, as escolas médicas oferecem estrutura precária, que não justifica o valor cobrado.

Ferreira acredita que o problema não está em obter lucro com as escolas, mas, sim, em não oferecer a estrutura adequada aos profissionais. “São mensalidades bastante caras, um investimento alto, essencialmente, sem ter compromisso com o ensino, para que um médico seja formado adequadamente, do ponto de vista técnico, ou seja, capaz de exercer a profissão, do ponto de vista ético, isto é, usar seus conhecimentos para o bem do ser humano e, finalmente, no âmbito humanístico, já que do outro lado há um ser humano que tem necessidades próprias e que merece ser tratado adequadamente”, define.

Segundo Costa, alguns cursos estão localizados em cidades distantes de centros de referência em ensino ou saúde e não possuem infraestrutura adequada para que o aluno realize o estágio probatório, sem ter certeza sequer de uma supervisão contínua de avaliação do estágio alinhada com o currículo acadêmico.

“E se a pessoa paga altas prestações por alguns anos e, depois, a faculdade não vai para frente? Os valores cobrados são muito altos pela prestação de serviço acadêmico improfícua ofertada. Tenho receio sobre qual será a formação recebida por esses futuros médicos”, analisa.

Publicado em

Do hospital ao touchdown

A história do médico apaixonado por futebol americano

Além de ser residente de Pediatria do Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, São Paulo, Elimar Rodrigues Filho ainda divide sua rotina com os treinos de futebol americano. O ex-jogador e atual head coach (treinador principal) do time Santos Tsunami começou a acompanhar o esporte aos 12 anos de idade. Para Elimar, a Medicina e o futebol americano foram paixões à primeira vista, das quais ele não pensa em desistir.

DOC Academy – Como foi seu primeiro contato com o futebol americano?

Elimar Filho – Eu acompanho o esporte desde os 12 anos, quando comecei a assistir as transmissões pela TV a cabo. A oportunidade de participar de uma equipe só veio em 2009, com um grupo de amigos que começou a jogar na praia de Santos.

DOC – Como você concilia a carreira médica com o trabalho de head coach?

EF – Tento organizar minha agenda, mesmo que, às vezes, seja um pouco complicado. Procuro usar bem o tempo livre para estudar e me preparar. Assim, quando o momento chega, tudo funciona mais rapidamente e o tempo é mais bem utilizado.

DOC – Qual é a reação de seus pacientes e colegas ao saberem sobre sua outra profissão?

EF – Muitos ainda desconhecem que o esporte é praticado no Brasil. Os que conhecem e sabem sobre o meu papel de treinador do Tsunami comentam sobre os jogos e perguntam se ganhamos ou como está a preparação para o campeonato. A receptividade é muito boa, pois acredito que os valores ligados ao esporte ainda sejam muito bem vistos pela sociedade.

DOC – Como a experiência em uma profissão pode ajudar no dia a dia da outra carreira?

EF – Apesar de parecerem totalmente opostas, as duas funções têm muito em comum: ambas exigem muito estudo e dedicação para procurar as novidades e as descobertas mais recentes e nos levam a buscar sempre um jeito melhor de executar as ações. No futebol americano, aprendi que a preparação é a chave do sucesso e levo isso comigo a todo momento.

DOC – Qual foi sua trajetória dentro do esporte até se tornar head coach?

EF – Depois de começar a jogar com amigos na praia de Santos, nos organizamos, em 2010, e fechamos a parceria com o Santos Futebol Clube, de onde nasceu o Santos Tsunami. Joguei até o final do ano, porém, sofri uma lesão e não conseguia atuar bem. Como sempre me interessei pela parte técnica e tática, acabei assumindo como coordenador de defesa. Permaneci nessa função até outubro de 2014, quando nosso head coach teve que se afastar e, então, assumi o posto, no qual estou até hoje.

DOC – Você precisou fazer alguma especialização para se tornar head coach?

EF – Não há um caminho específico para se tornar head coach – especialmente no Brasil, onde o esporte ainda cresce. Eu, particularmente, sempre gostei de estudar as táticas e, desde 2011, faço cursos e participo de eventos sobre o esporte. Tenho alguns certificados de cursos ministrados por entidades americanas, realizados on-line, que foram de grande ajuda para meu desenvolvimento no esporte.

DOC – Você abriria mão de uma profissão para exercer a outra?

EF – Com certeza, não. Eu sei das dificuldades de conciliar as duas profissões, mas tanto a Medicina quanto o futebol americano foram amor à primeira vista. Desde que tive o primeiro contato, assistindo aos jogos e logo que entrei na faculdade, soube que eu ia ter uma paixão eterna e que não conseguiria mais ficar sem essas duas atividades em minha vida.

DOC – Sente-se realizado exercendo as duas profissões ou existe outra atividade que gostaria de realizar além dessas?

EF A realização vem de saber que estou dando meu melhor nas duas profissões. Tenho muito interesse por outros assuntos, principalmente música e artes, mas sei que, por enquanto, essas áreas precisam se manter como hobbies para que eu possa continuar fazendo o máximo na Medicina e no time.

 

Por Luan Sicchierolli com colaboração de Bruno Bernardino