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Agressividade e preconceito no consultório médico

morte

O trabalho do médico engloba vários desafios e situações desgastantes. Muitas vezes, o profissional deve encarar longas jornadas de trabalho sem interrup­ções, o que demanda muita paciência e disposição. Além disso, é preciso ter ha­bilidades que permitam um bom relacionamento com os pacientes.

No entanto, nem sempre isso é possível. Infelizmente, os casos de agressão e preconceito contra profissionais da saúde são mais frequentes durante a carreira médica do que se possa imaginar. Esses episódios normalmente envolvem impaciência por parte dos pacientes, quando exige-se do médico mais do que ele pode realizar.

Preconceito por ser jovem 

Atualmente com 30 anos, a pediatra Beatriz Menezes afirma ter passado situa­ções de preconceito por ser muito jovem durante sua atuação como residente. “Por diversas vezes, as mães dos meus pacientes me perguntavam se eu ainda estava na faculdade e se seus filhos seriam mesmo atendidos por uma médica tão jovem. In­clusive, uma vez, uma mãe chegou a duvidar da minha conduta por me achar muito nova”, relata.

Beatriz conta que a maneira que encontrou para lidar com a situação foi explicar para as mães dos pacientes que não estava mais estudando, pois já era formada na especialidade. “A maioria ficava tranquila, com um sorriso e aceitava a conduta”, declara.

Quando o médico sofre ameaças

Psiquiatra da rede municipal de Santos, em São Paulo, Hélio Rocha Neto afirma já ter passado por situações em que pacientes agiram de forma violenta durante o atendimento, por não aceitarem sua conduta ou, simplesmente, por não terem seus pedidos atendidos.

Em um desses episódios, o psiquiatra conta que atendia pacientes em uma sala de suturas, onde muitas pessoas aguardavam pelo atendimento. Na fila de espera, o pai de um menino de 10 anos, que apresentava um corte no pé, exigia que o filho fosse atendido imediatamente, queixando-se da demora.

“Infelizmente, ele havia chegado depois de cinco pessoas e não havia porque ter o direito de passar na frente delas. Ao ser informado sobre isso, ele ficou ainda mais furioso, chegando a investir contra a porta quando ela foi fechada”, detalha Neto.

O psiquiatra relata que a equipe de segurança teve que intervir, expulsando o indivíduo do local. Contudo, o pai do paciente saiu do hospital afirmando que voltaria para “acertas as contas” com os funcionários. Aos profissionais da Saúde, Hélio re­comenda que, ao passar por situações semelhantes, é essencial manter a calma e ser cortês. “Sua segurança é primor­dial, tanto para a sua saúde, quanto para a do paciente”, acrescenta.

O impacto da agressão verbal

Juan Félix Costa é médico recém-for­mado e se especializa em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital dos Servidores do Estado de São Paulo. Mesmo estando no início de sua trajetória profissional, o médico relata já ter passado por um epi­sódio em que foi agredido verbalmente, sofrendo ameaças de perseguição duran­te um atendimento.

“O paciente não compreendeu minha conduta em meio ao caos da unidade de atendimento na qual nos encontrávamos. Exigente, ele não percebia que eu estava com minhas mãos atadas, não podendo fazer mais do que o mínimo para garantir o seu bem-estar”, descreve.

A situação chegou a causar, no profissional, medo de retornar à ati­vidade normal. “Mas não me deixei abater por esse episódio único e voltei outras vezes à unidade, com o objeti­vo de exercer meu sonho de menino de ser médico e ajudar as pessoas da maneira mais digna possível”, resume.

Como melhorar a relação médico-paciente?

Por parte do médico:

  • Prestar um atendimento humanizado, marcado pelo bom relacionamento pes­soal e pela dedicação de tempo e aten­ção necessários;
  • Saber ouvir o paciente, esclarecendo dúvidas e compreendendo suas expecta­tivas, com registro adequado de todas as informações no prontuário;
  • Explicar detalhadamente, de forma simples e objetiva, o diagnóstico e o tra­tamento para que o paciente entenda a doença, os benefícios do tratamento e, também, as possíveis complicações e prognósticos;
  • Estar disponível nas situações de ur­gência, sabendo que essa disponibili­dade requer administração flexível das atividades.

Por parte do paciente:

  • Lembrar-se de que, como qualquer outro ser humano, o médico tem virtudes e defeitos, observando que o trabalho médico é uma atividade naturalmente desgastante;
  • Não exigir o impossível do médico, que só pode oferecer o que a ciência e a M­edicina desenvolveram. Da mesma forma, jamais culpar o médico pela doença;
  • Não exigir dos médicos exames e me­dicamentos desnecessários, lembrando que o sucesso do tratamento está mui­to mais na relação de confiança que se pode estabelecer com o médico;
  •  Seguir as prescrições médicas (reco­mendações, dosagens, horários etc.) e evitar a automedicação.
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Primeiros passos da carreira: sociedades auxiliando na formação de jovens médicos

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As sociedades de especialidades médicas possuem um papel importante quando se trata de auxiliar os médicos recém-formados e os que estão iniciando suas carreiras. Algumas instituições produzem e oferecem conteúdo on-line para ajudar o médico no momento em que ele entra no mercado de trabalho, disponibilizando conteúdos científicos atualizados, para cada área de especialização, com o intuito de auxiliar o profissional a sentir-se mais seguro para exercer a profissão.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) é um exemplo de entidade com esse tipo de iniciativa, pois oferece cursos on-line por meio de uma universidade corporativa. De acordo com Eduardo Nagib, coordenador da Universidade Corporativa da SBC, os cursos contemplam desde o médico recém-formado, que deseja conseguir seu título de especialista, ao profissional já especializado, mas que precisa de atualização.

“Os cursos e aulas a distância permitem o aprendizado, a atualização e o preparo para a obtenção do título de especialista em Cardiologia”, afirma. Segundo Nagib, a SBC oferta, atualmente, dez cursos, alguns com mais de mil inscrições. Também estão disponíveis aulas com conteúdo de livre acesso. “Queremos aumentar, cada vez mais, o conteúdo da Universidade Corporativa, pois somos 14 mil sócios no Brasil inteiro.

Logo, o curso presencial é difícil para quem mora longe. Dessa forma, a gente facilita a atualização desse médico, independentemente de onde ele estiver. Ele pode acessar a aula a qualquer momento e quantas vezes quiser”, declara.

Outra iniciativa com o mesmo objetivo foi criada pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), o Programa Jovem Gastro (PJG). Nelma Pereira, coordenadora da comissão responsável pelo programa, conta que a iniciativa fornece diversos conteúdos relacionados à Gastroenterologia, orientando residentes e pós-graduandos na escolha do caminho dentro da carreira.

PJG oferece aulas, cursos, casos clínicos, resumos comentados, guidelines atualizadas e os últimos consensos das doenças do aparelho digestivo. “Aqueles que tenham concluído o curso médico são elegíveis para ingressar no PJG, em especial residentes e pós-graduandos nas áreas de Clínica Geral, Gastroenterologia Clínica ou Cirúrgica, Hepatologia e Endoscopia Digestiva.

É permitido usufruir do programa por quatro anos, com extensão para mais dois, desde que o aluno comprove matrícula em especialização na área ou sua atuação em algum setor da Gastroenterologia”, explica.

A Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) também investe na orientação dos médicos mais jovens, com a Universidade do Reumatologista. Cesar Emile Baaklin, membro da SBR, explica que a iniciativa reúne cursos on-line para promover a atualização científica e oferecer informações sobre o mercado de trabalho. Para Baaklin, o jovem médico precisa se atualizar para exercer sua atividade com competência.

A SBR conta com quase 1.200 membros, atualmente, e todos têm acesso ao conteúdo da Universidade de Reumatologista. Entre os cursos mais procurados, estão os sobre artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico. “Isso acontece porque os cursos abordam doenças complexas e de difícil manejo, cujos conhecimentos são atualizados muito rapidamente”, afirma o especialista.

Reforçando o aprendizado médico

 Apesar de já possuir uma formação, o jovem médico precisa exercitar o que aprendeu durante a graduação e aprimorar seus conhecimentos, ainda insuficientes para exercer plenamente a especialidade.

As sociedades de especialidades médicas acabam exercendo o papel de orientar e auxiliar esse profissional no caminho entre a sala de aula e o mundo real. Conforme Nagib, apesar de, hoje, a residência ser o fator de maior importância para o aprendizado, a queda na qualidade dos cursos de Medicina faz com que as sociedades precisem suprir  uma necessidade do aprendizado.

“A gente sabe que, ao longo desses últimos anos, o ensino médico teve uma queda de qualidade, que é compensada pelos cursos e pelas residências. O papel da SBC é ampliar o conhecimento do profissional na área da Cardiologia, atualizar e preparar os profissionais para uma ótima prática”, expõe.

Para Baaklin, o número excessivo de faculdades de Medicina e a falta de uma infraestrutura adequada para formação de médicos resultam na formação de profissionais carentes de conhecimento.

“A criação de um número enorme de faculdades de Medicina, que funcionam sem uma infraestrutura adequada e sem profissionais aptos a exercer a docência, associada a uma política que considera educação e saúde como subprodutos de desenvolvimento, com baixo investimento nessas áreas, teve como consequência a formação de profissionais que não atendem às necessidades da população. A SBR, juntamente com sociedades, deve lutar pela implantação de políticas que atendam às reais necessidades da população brasileira”, afirma.

Nelma Pereira acredita que, hoje, não basta contar com o que foi aprendido na sala de aula, pois o médico precisa buscar o aperfeiçoamento, estudando sempre e adquirindo conhecimento teórico e prático. “O mercado de trabalho mudou e se impõe ao exigir um novo perfil de profissional: aquele que está em constante mutação. É fundamental para o jovem médico buscar um novo modelo de carreira que o prepare para o futuro, que já bate à porta.

O profissional disputado pelas grandes instituições de atendimento é o que consegue ser multitarefa e tem alta qualificação e especializações em um mercado em frequente mudança”, avalia.

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A insegurança no exercício da Medicina

Os médicos, como todas as pessoas que têm de vivenciar a realidade urbana brasileira diariamente, estão à mercê da falta de segurança que impera em diversas localidades do país. Não têm sido raros os casos em que a violência, em suas mais diferentes formas, acontece dentro do próprio estabelecimento de saúde. Essa realidade é problema estrutural que afeta diferentes regiões do Brasil e até ao redor do mundo.

Os médicos e a violência urbana

De acordo com Rogério Aguiar, presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), em Porto Alegre, a realidade não tem sido diferente daquela que assola outros grandes centros. “Estamos vivendo, de maneira bastante frequente, situações de risco para os profissionais de saúde ao chegarem e saírem de seus locais de trabalho – e também dentro deles”, relata.

Aguiar explica que há uma resposta do poder público relacionada à questão, mas, depois de algum tempo, as medidas acabam sendo relaxadas. “Surgem outros problemas de segurança, e o contingente de policiais tem que ser deslocado para outros locais e as mesmas situações voltam a se repetir nos mesmos lugares”, lamenta.

Paulo de Argollo Mendes, presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), também destaca a ação conjunta com o poder público para combater o problema e destaca progressos já conquistados. “Avançamos ao criar um grupo de trabalho ligado à segurança pública estadual, no qual temos assento, ao lado dos principais órgãos de segurança estaduais e municipais. Hoje, temos celulares, estamos em grupos de WhatsApp da polícia militar, e eles chegam bem mais rápido aos locais do que em anos anteriores”, informa.

A violência na relação médico-paciente

O contato constante com o público faz com que a Medicina também ofereça riscos comuns às práticas dessa natureza. De acordo com Argollo, as agressões verbais e/ou físicas são uma constante, e o procedimento do Simers nessas situações, que mantém um plantão 24 horas para ser acionado, é ir ao local com um diretor, advogado e jornalistas. “Apoiamos no que for preciso. Podemos pressionar para suspender o atendimento caso não haja condição de manter”, declara.

Os presidentes do Cremers e Simers enxergam a situação como fruto de problemas mais amplos. “Acredito que a Saúde está precariamente atendida, em comparação com a demanda”, argumenta Aguiar. Para o especialista, a insatisfação gerada pelas más condições e pelos atrasos acaba tendo que ser enfrentada pelos profissionais de saúde.

“Isso afeta a relação médico-paciente, porque, quando a pessoa consegue ser atendida, já está revoltada”, completa. A descrição do cenário é corroborada por Argollo: “Não podemos mais aceitar que o médico e outros profissionais paguem a conta da ineficiência dos governos”.

Emergência versus ambulatório

A questão pode ser agravada pelo comportamento de boa parte da população, que se dirige a unidades de emergências sem necessidade, apenas em busca de atendimento imediato – e, por vezes, quando não o consegue, torna-se agressiva. “A emergência é o cenário mais hostil, onde há confusão envolvendo pacientes quase todos os dias”, afirma Hélio Rocha Neto, psiquiatra da rede municipal de Santos (SP).

Como psiquiatra em emergência, ele relata já ter sido agredido verbalmente diversas vezes ao se recusar a fornecer receita azul, laudos e medicamentos controlados. “O problema é quando a pessoa tenta coagir você, violentamente, a fazer o que ela quer. Em uma noite, cheguei a ser ameaçado de morte duas vezes por me recusar a fornecer receitas”, conta.

A chave para evitar a revolta do paciente, segundo Hélio, é assumir uma postura de compreensão e fomentar o diálogo: “Nesses casos, mesmo que a pessoa saia contrariada, a beligerância diminui”. Quanto ao regime ambulatorial, o psiquiatra esclarece que esses problemas são, muitas vezes, causados por má prática do próprio médico, que marca o mesmo horário para todos os pacientes e, então, atende por ordem de chegada. “No ambulatório, marco um horário para cada paciente. Por causa dessa prática, nunca sofri agressão, nem verbal”, afirma.

Reportagem por Andre Klojda com colaboração de Bárbara Mello