Publicado em Deixe um comentário

Especial Dia do Psiquiatra: veja panorama da especialidade

Dia do psiquiatra

No passado, os portadores de doenças mentais viviam de forma excluída na sociedade por serem considerados incapazes de exercer seus direitos e deveres. Posteriormente, essa situação se modificou, graças ao trabalho incansável dos psiquiatras contra o estigma e a favor do progresso dos recursos diagnósticos e das abordagens terapêuticas da especialidade. No Brasil, como forma de agregar os profissionais da área, em 13 de agosto de 1966, foi criada a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), no Rio de Janeiro.

Hoje, o número de pessoas com transtornos mentais aumenta no mundo inteiro. De acordo com uma estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão afeta 300 milhões de pessoas; o transtorno afetivo bipolar, 60 milhões; a esquizofrenia, 23 milhões; e a demência, cerca de 50 milhões de indivíduos. Essa realidade aplica grande impacto no dia a dia da Psiquiatria, que precisa se adaptar a esse cenário e passa por um momento de grande demanda na área.

Para comemorar o Dia do Psiquiatra, confira, a seguir, o panorama sobre a especialidade.

A Psiquiatria representa 2,7% dos médicos brasileiros e, de acordo com a Demografia Médica 2018, corresponde a 4,1% das vagas ocupadas de residência médica

 

Publicado em

Psiquiatria e filosofia: uma combinação que dá certo

Compreender as grandes questões da humanidade era outro alvo de interesse para o médico, o que provocava constantes questionamentos acerca dos fatos que testemunhava. A leitura de obras de renomados filósofos reforçou o encanto já existente e serviu como estímulo para que o psiquiatra tomasse uma nova decisão. Para aprofundar seu conhecimento, Loch também decidiu cursar Filosofia.

Em meio a tantas atividades inerentes da Medicina, Loch é autor de diversas publicações científicas na área da Saúde Mental, possui dois romances que tratam das relações humanas, Bile Negra e Laplatia, e mantém um blog atualizado semanalmente sobre temas variados. Em entrevista ao DOC Academy, o médico-filósofo conta um pouco mais sobre seus gostos e como harmoniza suas duas paixões: Medicina e Filosofia.

Universo DOC: O que veio primeiro em sua vida? A Medicina ou a Filosofia?

Alexandre Loch: A Medicina. Sempre quis uma profissão em que pudesse ajudar aos outros e entendia que o sofrimento mental era uma das piores formas de sofrimento. Isso me levou a cursar Medicina e, depois, Psiquiatria. Além disso, sempre tive muita curiosidade em saber como o cérebro e a mente funcionam. Já a Filosofia surgiu do desejo de entender mais o mundo. Quando alguém se propõe a tratar o lado mental de uma pessoa, diversas questões filosóficas se colocam para quem trata. Há uma divisão mente-corpo? Quais são os limites das medicações e de psicoterapia? Como também sou acadêmico, a Ciência impõe diversas questões de cunho filosófico que me instigaram a fazer o curso de Filosofia.

UD: Quando foi seu primeiro contato com a Filosofia e quais assuntos mais te interessam na área?

AL: Foi durante a faculdade de Medicina, ao me deparar com a relação médico-paciente. É uma relação muito delicada, que nos leva a pensar uma série de coisas. Nós, médicos, temos uma profissão muito peculiar e devemos ter cuidado para exercê-la da melhor forma possível. O que mais me chama atenção dentro da Filosofia são assuntos como Fenomenologia, Filosofia da Mente e Filosofia da Ciência. São áreas de intersecção entre Filosofia, Medicina e Psiquiatria.

UD: Pode citar um exemplo de como esses campos se entrelaçam?

AL: A Filosofia da Mente, por exemplo, estuda como devemos conceber a mente do mundo de hoje, quando já sabemos tantas coisas sobre o cérebro. Nessa perspectiva, o que se coloca é uma ideia monista, de que a mente está inserida (inseparavelmente) no corpo, como se fossem uma coisa só.

UD: Como consegue conciliar as duas atividades?

AL: Trabalho, basicamente, no consultório e no Hospital das Clínicas da USP como supervisor e coordenando pesquisas. Não são atividades não implicadas umas com as outras. Todas, em conjunto, fazem sentido em minha vida, que é o entendimento do ser humano, seja em seu aspecto filosófico-existencial, seja em seu aspecto biológico. Procuro sempre integrar esses conhecimentos em minhas práticas, levando conceitos da Biologia para a Psicologia e Filosofia e vice-versa.

UD: Quem são suas principais inspirações na Filosofia?

AL: Gosto bastante de Nietzche, por abordar as emoções humanas e muitas verdades sobre elas; de Sartre, que traz à tona questões existenciais muito importantes para quem utiliza psicoterapia na prática clínica; e de Deleuze, um filósofo mais recente, autor de várias contribuições que muito têm a ver com a Psiquiatria (vide seus trabalhos com Guatarri). Gosto também de Heidegger e seus escritos sobre a arte.

UD: De modo geral, quais benefícios o senhor acredita que a Filosofia traz para a saúde mental do ser humano?

AL: A Filosofia é um instrumento que possibilita uma reflexão mais apurada sobre as questões ao nosso redor. Acho que refletir sobre nosso mundo, a sociedade, a condição humana e sobre nós mesmos faz bem para a saúde mental. Eu indicaria o estudo da Filosofia para outras pessoas, inclusive médicos. Acho que esse profissional, por lidar com o ser humano em momentos difíceis, precisa ter algum conhecimento de filosofia. Para isso é preciso ser dedicado, apto para reflexão e abstração e ter vontade de ler.

UD: Seus pacientes sabem que o senhor também é filósofo? Se sim, como reagem?

AL: Muitos sabem, pois acabam vendo meu currículo na internet. Eles reagem sempre de forma positiva, me perguntando como é o curso, se eu já me formei etc. Como cuido de muitas pessoas que também cursaram a faculdade de Filosofia da USP, e outros cursos de Humanas em outras faculdades, às vezes, temos diálogos mais demorados sobre assuntos filosóficos que eles viram na graduação.

"Bile Negra": Livro de Alexandre Loch sobre psiquiatria e filosofiaUD: Como surgiu a ideia de lançar o livro Bile Negra?

AL: O livro nasceu depois que eu defendi meu doutorado sobre o estigma atrelado às doenças mentais. Após a elaboração da tese, em que usei uma linguagem científica precisa e, muitas vezes, amarrada, achei que precisava escrever algo sobre saúde mental de maneira mais solta, livre, artística. Aí nasceu a ideia de escrever. Eu quis colocar no papel as vivências que tive na Psiquiatria e elaborar uma história para ser publicada. Desde então, o retorno sobre o livro tem sido muito bom. É muito gratificante poder ouvir críticas boas sobre algo que você compôs. As pessoas têm gostado bastante da leitura e têm se identificado muito com a voz dos personagens.

UD: O senhor tem planos de publicar novos livros?

AL: Tenho ideias, sim, mas, por enquanto, estou focado na divulgação do meu segundo romance, escrito em inglês, chamado Laplatia – or, the city that could not dream. O livro é uma distopia sobre uma cidade no futuro, onde as pessoas têm de doar imaginações e sonhos para que estes sejam transformados em eletricidade. Assim, ninguém é autorizado a imaginar ou sonhar livremente.

Reportagem por Paula Netto

Publicado em

Precisamos falar sobre arte e saúde

A arte é utilizada pelo homem para diversos fins, desde a Era das Cavernas. Comunicar-se, expressar emoções, materializar ideias, liberar a imaginação, tudo isso pode ser feito por meio da arte. Seu uso como terapia, porém, passou a ser feito a partir do século XIX. São diversas as modalidades artísticas que podem ser utilizadas com cunho terapêutico: o teatro, a música, a dança, a pintura, modelagem, literatura e as artes plásticas. Todas podem e devem ser instrumentos de desenvolvimento e cura, e podem ser aplicadas tanto em clínicas como em consultórios.

Segundo o médico Alexandre Schreiner, psiquiatra especializado em público infanto-juvenil pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ipub/UFRJ), manifestações artísticas são uma forma de encontrar um caminho nesta vida “cada vez mais massificada, impessoal e tecnicista”.

Por isso, a Arteterapia é uma área que incentiva o desenvolvimento de artes plásticas por pessoas que vivem algum tipo de trauma, doenças ou dificuldades na vida ou, mesmo, para quem busca desenvolvimento pessoal. De acordo com a Associação Brasileira de Arteterapia, é “uma forma de trabalhar utilizando a expressão artística como base da comunicação entre cliente e profissional, paciente e médico”.

União de terapias

Para o enfermeiro Rafael Morganti, que cursa o terceiro ano do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental no Ipub/UFRJ, a aliança entre a arteterapia e o tratamento convencional tem se mostrado uma potente ferramenta de produção de cuidado. Opinião compartilhada por Dr. Alexandre Schreiner, para quem a vida humana e seus problemas têm uma complexidade que, em geral, extrapola a competência individual. Logo, a partir do momento em que se faz necessário mais de um núcleo de formação para atender da melhor maneira um paciente, forma-se uma equipe multidisciplinar que integra diversos profissionais da Saúde e de outras áreas.

Para Schreiner, a relação entre os integrantes da equipe é fundamental, bem como é importante que se invista na troca multiprofissional, quase como uma condição do próprio exercício da Medicina. Segundo a psicóloga, arteterapeuta e gestora de uma clínica especializada na área, Angela Philippini, cada profissional deve agregar pressupostos de sua área de conhecimento, correlacionando essas informações ao contexto institucional e ao caso clínico em questão.

De acordo com Angela, a escolha do tipo específico de arte que será ofertado ao paciente é feita pela equipe, respeitando limitações e especificidades, com o quadro clínico e, sempre que possível, atendendo à singularidade e à preferência expressa da pessoa que está sendo acompanhada, bem como às demandas do tratamento.

Histórico da Arteterapia

Carl Gustav Jung, famoso psiquiatra e psicanalista suíço, foi o primeiro a utilizar atividades artísticas em seu consultório, nos anos 1920. Ele acreditava na criatividade como uma função psíquica natural e mostrou ser possível promover a cura por meio da expressão artística e verbal.

No Brasil, em 1923, o estudante Osório César, interno do Hospital do Juqueri, em São Paulo, desenvolveu estudos sobre a arte dos alienados. Em 1925, ele criou a Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri.

No Rio de Janeiro, a psiquiatra Nise da Silveira estava insatisfeita com o uso de eletrochoques e lobotomia. Criou, então, em 1946, o Serviço de Terapêutica Ocupacional, que chegou a oferecer 17 diferentes tipos de atividades em ateliê. Pelas imagens criadas no ateliê, era possível acessar as vivências interiores dos participantes e pacientes. Assim, somente pelo fato de estarem se expressando, a arte já cumpria uma função terapêutica.

Com colaboração de Bruno Bernardino