5 de dezembro: homenagem ao Dia do Médico da Família

Em homenagem ao Dia do Médico da Família e Comunidade, relembramos um texto publicado originalmente na Revista DOC pelo Dr. Rui Nogueira, um dos maiores expoentes da especialidade no Brasil

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Aos olhos do recém-formado: a Medicina assusta?

A busca do sonho chega ao auge preparatório e o recém-formado médico põe os olhos no mundo. O que vê é bem digno da expressão: “nem acredito no que vi”. Crianças presas em casa na saída dos pais para trabalhar, mal cuidadas como o lixo jogado nas barrancas e periferias; farmácias com nomes de santos em atividades nada santas, com desprezo pela promoção da saúde e com a ganância de resultados; laboratórios que transformam até vacinas em mercadorias de altos faturamentos; doentes penando em filas ostensivas ou disfarçadas em marcações eletrônicas e telefônicas; um caos generalizado no atendimento, com pacientes encolhidos em suas dores em macas, cadeiras e até colchonetes nos corredores e cantos dos hospitais; o desrespeito aos doentes atendidos sem a privacidade e sem a atenção devidas.

Assusta a Medicina de cinco minutos de consulta com cinco semanas de exames. Tudo transparece que não é a Medicina hospitalar, que resolverá os problemas de saúde da população. Saúde é um bem essencial à vida e tem que receber atenção universal. Não se vive sem ar, não se vive sem água, não se deve viver sem adequada atenção de promoção da saúde com atendimento universal disponível.

O quadro exaustivamente mostrado nos meios de comunicação já satura a nossa paciência e traz-nos a perplexidade: “que vírus atacou os nossos dirigentes para eles serem tão indiferentes ao evidente caos”? A aparente impotência, a indignação que nos impregna nos leva para a alienada frase da minha avó: “vá reclamar ao bispo”. Entretanto, o caso do jovem médico fervendo em idealismo resultou em um “branco” na mente e na busca de uma alvorada, o nascimento de um sol para iluminar os caminhos e permitir perceber como deveria ser o atendimento à saúde ideal, com promoção da saúde e resolubilidade. Nasceu, então, o projeto Fatinha de Medicina Comunitária.

Essa iniciativa nasceu, principalmente, da reflexão a respeito de como a Saúde é tratada em nosso país. Saúde é um bem essencial retratado pelo ditado: “saúde não é tudo, mas o tudo não é nada sem saúde”, sacramentado na nossa Constituição (“saúde é um direito de todos”). Na ideia do atendimento universal, nasceu a formidável invenção brasileira: o Sistema Único de Saúde (SUS). Ele não surgiu de nenhum governo, nem criado por partido político, foi uma conquista talhada com muita luta, discussões e pressões dos sindicatos, associações e população em geral. É o sistema que permite desmistificar a propaganda que direciona para os hospitais a solução dos problemas de saúde.

O SUS trouxe para a família e a comunidade o foco de atenção à saúde, para sair do modelo anterior fragmentado e voltado para trazer o trabalhador doente de volta à atividade. Preocupação com a sua família passava ao largo. No SUS, o atendimento é regionalizado e o esforço se dirige no sentido de transformar o posto de saúde do bairro ou da comunidade na porta de entrada do sistema, onde se deveria fazer a promoção da saúde com resolubilidade. As situações que exigissem atenções mais especializadas e de incidência mais rara seriam encaminhadas – agendadas – para hospitais regionais até mesmo como referência para mais de um município, estrutura lógica e econômica.

Quando se fala da relação entre Medicina e família, o SUS, aliás, não pode ficar de fora. E quando o assunto é o Sistema Único de Saúde, há muitos itens que precisam ser discutidos.

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